ZP06091223 - 12-09-2006
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Deus precisa de operários na América Latina... e na Europa


Discurso do Papa aos religiosos e seminaristas, na Basílica de Santa Ana de Altötting


ALTÖTTING, terça-feira, 12 de setembro de 2006 (ZENIT.org).- Publicamos o discurso que Bento XVI pronunciou nesta segunda-feira, na Basílica de Santa Ana de Altötting, coração mariano da Alemanha.


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Queridos amigos!

Aqui em Altötting, neste lugar cheio de graça, nos reunimos -- seminaristas que se preparam para o sacerdócio, sacerdotes, homens e mulheres religiosos e membros de sociedades com vocação espiritual -- na Basílica de Santa Ana, ante o santuário de sua filha, a Mãe do Senhor. Nós nos reunimos aqui para considerar nossa vocação de servir a Jesus Cristo e, sob o atento olhar de Santa Ana, em cujo lar a maior vocação da história da salvação se desenvolveu, compreendê-la melhor. Maria recebeu sua vocação dos lábios do anjo. O anjo não entra visivelmente em nosso quarto, mas o Senhor tem um plano para cada um de nós, e nos chama por nosso nome. Nossa tarefa é aprender a escutar, perceber seu chamado, ser valentes e fiéis para segui-lo, e quando está tudo dito e feito, ser servos fiéis que utilizaram bem os dons que nos foram dados.

Sabemos que o Senhor busca operários para sua vinha. Ele mesmo o disse: «A messe é grande, mas os operários são poucos, rogai ao Senhor da messe que envie operários para sua messe» (Mt 9, 37-38). Por isso estamos reunidos aqui: para fazer este urgente pedido ao Senhor da messe. A messe de Deus é grande e necessita de operários: no chamado Terceiro Mundo: na América Latina, na África e Ásia, as pessoas esperam nossos arautos para levar-lhes o Evangelho da paz, a Boa Nova de Deus que se fez homem. Mas no também chamado Ocidente, aqui entre nós, na Alemanha, e nas vastas regiões da Rússia é certo que há uma grande messe que colher. Mas é necessário pessoas com vontade para trabalhar na messe de Deus. Hoje é como então, quando o Senhor se compadeceu das multidões que pareciam ovelhas sem pastor: pessoas que provavelmente sabiam como fazer muitas coisas, mas não podiam dar sentido a suas vidas. Senhor, vê nossos tempos difíceis, necessitados de pregadores do Evangelho, testemunhas de ti, pessoas que possam assinalar para a ‘vida em abundância’! Olha nosso mundo e compadece-te mais uma vez! Olha nosso mundo e envia-nos operários! Com este pedido tocamos a porta de Deus, e com o mesmo pedido o Senhor está tocando as portas de nosso próprio coração. Senhor, tu me amas? Não é talvez demasiado grande para mim? Sou muito pequeno para isto? ‘Não tenhas medo’, disse o anjo a Maria. ‘Não temas: eu te chamei pelo teu nome’, diz Deus através do profeta Isaías (43, 1) a nós, a cada um de nós.

Aonde vamos, se respondemos “sim” ao chamado de Deus? A mais breve descrição da missão sacerdotal -- e isto é certo de maneira particular para os homens e mulheres religiosos também -- nos deu o evangelista Marcos. Em seu relato sobre o chamado dos Doze, diz que «Jesus chamou doze para que estivessem com ele e para serem enviados». Estar com Jesus e ser enviado, sair a conhecer pessoas: estas duas coisas se correspondem, e juntas são o coração da vocação, do sacerdócio. Estar ‘com Ele’ significa chegar a conhecê-lo e dá-lo a conhecer. Qualquer um que tenha estado com Ele não pode reter para si o que encontrou, ao contrário, tem de comunicá-lo aos outros. Tal é o caso de André, que disse ao seu irmão Simão: ‘Encontramos o Messias’ (João 1, 41) e o evangelista agrega: ‘Levou Simão ante Jesus’ (João 1, 42). São Gregório Magno, em uma de suas homilias, disse uma vez que os anjos, sem importar que tão distantes devam ir em sua missão, sempre se movem em Deus. Sempre permanecem com Ele. Desta reflexão dos anjos, São Gregório explica que os bispos e os sacerdotes, sem importar aonde vão, sempre estão ‘com Ele’. Sabemos disso por experiência. Quando os sacerdotes, devido a seus múltiplos deveres, têm menos tempo para estar com o Senhor, eventualmente perdem, por toda sua atividade com freqüência heróica, a força interior que os sustenta. Sua atividade se converte em um ativismo vazio. Estar com Cristo, como se faz isso? Bem, o primeiro e o mais importante para o sacerdote é a Missa diária, sempre celebrada com uma participação interior e profunda. Se celebramos a Missa como verdadeiros homens de oração, se unimos nossas palavras e nossas atividades à Palavra que nos precede, e se nos deixamos conformar pela Celebração Eucarística, se na Comunhão nos deixamos abraçar por Ele e o recebemos, então estamos com Ele.

A Liturgia das Horas é outra maneira fundamental de estar com Cristo. Aqui rezamos como pessoas conscientes de nossa necessidade de falar com Deus, enquanto sustentamos a outros que não têm nem a capacidade para rezar desta forma. Se nossa Celebração Eucarística e a Liturgia das Horas não são significativas, necessitamos renovar nossa devoção constantemente, lendo as Sagradas Escrituras, não só para ser capazes de decifrar e explicar as palavras de um distante passado, mas para descobrir a palavra que o Senhor me está dizendo, pessoalmente, aqui e agora. Só desta forma seremos capazes de levar a Palavra inspirada a outros como a Palavra de Deus atual e viva.

A Adoração Eucarística é uma forma essencial de estar com o Senhor. Graças a Dom Schraml, Altötting tem um novo ‘tesouro’; onde uma vez se guardaram tesouros do passado, objetos religiosos e históricos, há agora um lugar para o verdadeiro tesouro da Igreja: a permanente presença do Senhor no Santíssimo Sacramento. Em uma de suas parábolas, o Senhor fala do tesouro escondido no campo, do homem que o encontra e o vende para comprar esse campo, porque o tesouro escondido é mais valioso que qualquer outra coisa. O tesouro escondido, maior que qualquer outro bem, é o Reino de Deus, é o próprio Jesus, o Reino em pessoa. Na sagrada custódia, está presente o verdadeiro tesouro, sempre esperando por nós. Só adorando esta presença aprendemos a recebê-la adequadamente, aprendemos a realidade da Comunhão, aprendemos a Celebração Eucarística desde dentro. Aqui gostaria de citar algumas linhas de Santa Edith Stein, também Patrona da Europa: ‘O Senhor está presente no tabernáculo em sua divindade e humanidade. Não está lá por Ele, mas por nós: é sua alegria estar conosco. Sabe que nós, sendo como somos, precisamos tê-lo pessoalmente e perto. Como resultado, qualquer pessoa com pensamentos e sentimentos normais se sentirá atraído naturalmente a passar tempo com Ele, sempre que lhe seja possível, e todo o tempo que lhe for possível’ (Gesammelte Werke VII, 136ff.). Amenos estar com o Senhor! Lá podemos falar com Ele sobre qualquer coisa. Podemos oferecer-lhe nossos pedidos, nossas preocupações, nossos problemas. Nossas alegrias. Nossos gozos, nossas decepções, nossas necessidades e nossas aspirações. Lá também podemos pedir-lhe constantemente: Senhor, envia operários à tua messe! Ajuda-me a ser um bom operário em tua vinha!

Aqui nesta Basílica, nossos pensamentos se voltam a Maria, quem viveu sua vida completamente ‘com Jesus’ e conseqüentemente esteve, e continua estando, perto de todos os homens e mulheres. As muitas placas que há aqui são um sinal concreto disto. Pensemos na santa mãe de Maria, Santa Ana, e com ela pensemos também na importância dos pais e mães, avós e avôs, e na importância da família como meio de vida e oração, onde aprendemos a rezar e onde as vocações se desenvolvem.

Aqui em Altötting, pensamos de maneira especial no Irmão Konrad. Ele renunciou à sua grande herança porque queria seguir Jesus Cristo sem reservas e estar completamente com Ele. Como o Senhor o recomenda em uma de suas parábolas, ele escolheu o lugar mais baixo como irmão leigo e porteiro. Em seu trabalho como tal, pôde conseguir o que São Marcos nos diz sobre os Apóstolos: ‘estar com Ele’, ‘ser enviado’ a outros. Desde sua cela, sempre pôde olhar ao tabernáculo e, assim, sempre ‘estar com Cristo’. Desde sua contemplação aprendeu a bondade ilimitada com a qual tratava as pessoas que tocavam sua porta a toda hora, às vezes sem cuidado, para maltratá-lo, e às vezes impacientemente. Para todos eles, por sua grande bondade e humanidade, e sem grandes palavras, sempre deu uma mensagem mais valiosa que as próprias palavras. Roguemos ao Santo Irmão Conrad, peçamos-lhe que mantenha nosso olhar fixo no Senhor, para levar o amor de Deus a todos os homens e mulheres de nosso tempo. Amém!

[Tradução realizada por Zenit. © Copyright 2006 - Libreria Editrice Vaticana]


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