ROMA, quinta-feira, 25 de janeiro de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos duas passagens do livro «Uma vida com Karol», recém-publicado na Itália, que se trata de um testemunho do cardeal Stanislaw Dziwisz, secretário pessoal de João Paulo II.
O livro é uma longa conversa com o jornalista Gian Franco Svidercoschi. As duas passagens estão tomadas do capítulo 34, «Matar em nome de Deus?».
Em 11 de setembro de 2001, o Papa assiste à derrubada das duas torres gêmeas ao ver televisão
O Santo Padre se encontrava em Castel Gandolfo. Tocou o telefone e, do outro lado, escutou a voz assustada do cardeal Sodano, secretário de Estado. Pediu que ligasse a televisão e pôde ver aquelas imagens dramáticas, a queda das torres, e, em seu interior, aprisionadas, tantas pobres vítimas. Passou o resto da tarde entre a capela e a televisão, em meio ao sofrimento.
Na manhã do dia seguinte, o Papa celebrou a missa. Depois, na praça de São Pedro, teve uma audiência geral especial. Recordo suas palavras: «Um dia obscuro na história da humanidade». E recordo também que, antes da oração, pediu-se aos fiéis que não aplaudissem, que não cantassem. Era um dia de luto.
Estava preocupado, sumamente preocupado pelo medo de que não acabasse ali, de que o atentado pudesse desencadear um turbilhão de violência sem fim. Em parte porque, desde seu ponto de vista, o crescimento da praga do terrorismo derivava, entre outros motivos, do estado de grave pobreza, da escassez de possibilidades de educação e de desenvolvimento cultural, que muito povos árabes experimentam. E, portanto, para derrotar o terrorismo era necessário ao mesmo tempo eliminar as enormes desigualdades sociais e econômicas entre o Norte e o Sul.
Março de 2003, o Papa tenta evitar a segunda guerra do Golfo
Dia 15 de março de 2003. Junto ao cardeal Sodano e a Dom Tauran, o Santo Padre recebeu o Cardeal Pio Laghi, de volta da missão nos Estados Unidos. E Laghi, apesar de não dar a batalha por perdida ainda, relatou o que o presidente americano havia dito. Bush compreendia perfeitamente as razões morais do Papa, mas ele já não podia voltar atrás. Havia imposto um ultimato de 48 horas a Saddan Husseim.
Enquanto isso, o cardeal Etchegaray já havia dado a resposta, não muito negativa, mas certamente ambígua, dos governantes iraquianos: estavam dispostos a colaborar com os inspetores das Nações Unidas, mas eram reticentes sobre as assim chamadas ‘armas de destruição massiva».
Para então, já se sabia tudo o que se deveria saber. Desta forma, daquele encontro do dia 15 de março, saiu o texto do Ângelus do dia seguinte, com um urgente e ao mesmo tempo decidido chamado, tanto a Saddan Husseim como aos países que compunham o Conselho de Segurança da ONU. E, ao lê-lo desde a sua janela, o Santo Padre quis acompanhar aquela última esperança que se estendia pelos caminhos do mundo. Em três ocasiões, repetiu: «Ainda há espaço!», «Nunca é tarde demais!»
Mas tudo isso, evidentemente, não lhe pareceu suficiente. Ele havia intuído que a situação estava a ponto de precipitar-se e que se caminhava rumo à guerra, com o risco, além disso, de poder se transformar em uma guerra de civilizações, ou pior ainda, em uma «guerra santa».
Então sentiu necessidade de dizer o que tinha no coração, de oferecer seu testemunho pessoal. Quis recordar que pertencia à geração daqueles que tinham vivido a guerra e, portanto, também por esse motivo sentia o dever de afirmar: «Nunca mais a guerra!». Eu o via de perfil, desde onde me encontrava nos seus aposentos, mas o via. Via seu rosto que se tornava cada vez mais rígido, e a mão direita que parecia querer dar mais força ainda às suas palavras.
[Tradução realizada por Zenit, publicada com a autorização do editor internacional, Rizzoli]
















