ZP07091206 - 12-09-2007
Permalink: http://www.zenit.org/article-16106?l=portuguese

Balanço de Bento XVI de sua viagem à Áustria


De 7 a 9 de setembro


CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 12 de setembro de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos a intervenção de Bento XVI na audiência geral desta quarta-feira, dedicada a comentar sua sétima viagem internacional realizada à Áustria, de 7 a 9 de setembro.


* * *



Queridos irmãos:

Quero deter-me a refletir sobre a visita pastoral que tive a alegria de realizar em dias passados à Áustria, país que me é particularmente familiar, tanto porque é vizinho de minha terra natal como pelos numerosos contatos que sempre tive com ele. O motivo específico desta visita eram os 850 anos do santuário de Mariazell, o mais importante da Áustria, predileto também dos fiéis húngaros e muito visitado por peregrinos de outras nações vizinhas.

Portanto, antes de tudo foi uma peregrinação que teve como lema «Olhar para Cristo»: encontrar Maria que nos mostra Jesus. Agradeço de coração ao cardeal Schonborn, arcebispo de Viena, e a todo o episcopado do país pelo grande empenho com que prepararam minha visita. Agradeço ao governo austríaco e a todas as autoridades civis e militares que prestaram sua colaboração; em particular, agradeço ao senhor presidente federal pela cordialidade com a qual me acolheu e acompanhou nos diferentes momentos da visita.

A primeira etapa foi a «Mariensaule», histórica coluna na qual está colocada a Virgem Imaculada: lá tive um encontro com milhares de jovens e comecei minha peregrinação. Depois me dirigi a Judenplatz para prestar homenagem ao monumento que recorda a Shoá.

Levando em consideração a história da Áustria e de suas próximas relações com a Santa Sé, assim como a importância de Viena na política internacional, o programa dessa viagem pastoral incluiu os encontros com o presidente da República e com o Corpo Diplomático. Trata-se de oportunidades preciosas nas quais o sucessor de Pedro tem a possibilidade de exortar os responsáveis das nações para que favoreçam sempre a causa da paz e do autêntico desenvolvimento econômico e social.

Pensando especialmente na Europa, renovei meu alento a continuar com o atual processo de unificação baseando-se nos valores inspirados no patrimônio comum cristão. Mariazell, de fato, é um dos símbolos do encontro dos povos europeus em torno da fé cristã. Como esquecer que a Europa é portadora de uma tradição de pensamento que une fé, razão e sentimento? Ilustres filósofos, independentemente de sua fé, reconheceram o papel central do cristianismo para preservar a consciência moderna de desvios niilistas ou fundamentalistas. O encontro com a autoridade política e diplomática de Viena foi, portanto, sumamente propício para introduzir minha viagem apostólica no contexto atual do continente europeu.

A peregrinação propriamente dita,foi realizada na jornada do sábado 8 de setembro, festa da Natividade de Maria, à qual está dedicado o Santuário de Mariazell. Teve sua origem no ano 1157, quando um monge beneditino da próxima abadia de São Lambrecht, enviado a pregar a esse lugar, experimentou a prodigiosa ajuda de Maria, de quem levava uma pequena estátua de madeira. A cela («Zell») na qual a monja colocou a estátua se converteu depois em meta de peregrinações e, com o passar dos séculos, foi-lhe dedicado um importante santuário, onde ainda hoje se venera Nossa Senhora das Graças, chamada «Magna Mater Austriae».

Para mim foi uma grande alegria regressar como sucessor de Pedro a esse lugar santo e tão querido para os povos da Europa centro-oriental. Lá pude admirar a exemplar valentia de milhares e milhares de peregrinos que, apesar da chuva e do frio, quiseram estar presentes nesta celebração, com grande alegria e fé, e onde ilustrei o tema central de minha visita: «Olhar para Cristo», tema que os bispos da Áustria haviam aprofundado sabiamente no caminho de preparação que durou nove meses. Mas só ao chegar ao Santuário compreendemos plenamente este lema: olhar para Cristo. Ante nós se encontrava a estátua da Virgem, que com uma mão indica Jesus Menino e, no alto, em cima do altar da basílica, o crucifixo. Lá, nossa peregrinação alcançou uma meta: contemplamos o rosto de Deus nesse Menino nos braços da Mãe e nesse Homem com os braços abertos. Olhar para Jesus com os olhos de Maria significa encontrar Deus Amor, que por nós se fez homem e morreu na cruz.

No final da missa em Mariazell, conferi o «mandato» aos componentes dos Conselhos pastorais paroquiais, que acabam de ser renovados em toda Áustria. Um eloqüente gesto eclesial com o qual pus sob a proteção de Maria a grande «rede» das paróquias ao serviço da comunhão e da missão. No Santuário, vivi depois momentos de gozosa fraternidade com os bispos do país e a comunidade beneditina. Encontrei-me com os sacerdotes, os religiosos, os diáconos e seminaristas e com eles celebrei as vésperas. Espiritualmente unidos a Maria, exaltamos o Senhor pela humilde entrega de tantos homens e mulheres que se encomendam à sua proteção e se consagram ao serviço de Deus. Estas pessoas, apesar de seus limites humanos, e mais, precisamente na simplicidade e na humildade, esforçam-se por oferecer a todos um reflexo da bondade e da beleza de Deus, seguindo Jesus pelo caminho da pobreza, da castidade e da obediência, os três votos que devem ser compreendidos em seu autêntico significado cristológico, não individualista, mas relacional e eclesial.

Na manhã do domingo, celebrei a solene eucaristia na catedral de Santo Estevão, em Viena. Na homilia, quis aprofundar de maneira particular no significado e no valor do domingo, em apoio ao movimento «Aliança em defesa do domingo livre». Aderem a este movimento pessoas e grupos que não são cristãos. Como crentes, obviamente, temos motivações profundas para viver o dia do Senhor, tal como a Igreja nos ensinou. «Sine dominico non possumus!»: sem o Senhor e seu dia não podemos viver, declararam os mártires de Abitinia (atual Tunísia) no ano 304. Tampouco nós, cristãos do ano 2000, podemos viver sem o domingo: um dia que dá sentido ao trabalho e ao descanso, que atualiza o significado da criação e da redenção, que expressa o valor da liberdade e do serviço ao próximo... Tudo isso é o domingo: muito mais que um preceito! Se as populações herdeiras de uma antiga civilização cristã abandonam este significado e deixam que o domingo seja reduzido ao fim de semana ou a um tempo para dedicar-se a interesses mundanos e comerciais, quer dizer que decidiram renunciar à própria cultura.

Não distante de Viena se encontra a abadia de Heiligenkreuz, da Santa Cruz, e foi para mim uma alegria visitar essa florescente comunidade de monges cistercienses, que existem sem interrupção há 874 anos! Unida à abadia se encontra uma Faculdade de Filosofia e Teologia, que há pouco tempo alcançou o título de «pontifícia». Ao dirigir-me em particular aos monges, recordei o grande ensinamento de São Bernardo sobre o Ofício Divino, sublinhando o valor da oração como serviço de louvor e de adoração devidos a Deus por sua infinita beleza e bondade. Nada deve antepor-se a este serviço sagrado, diz a Regra beneditina (43,3), de maneira que toda a vida, com seus tempos de trabalho e de descanso, seja recapitulada na liturgia e orientada a Deus. Tampouco pode ficar separado da vida espiritual e da oração o estudo teológico, como afirmou com força o próprio São Bernardo de Claraval, pai da Ordem do Cister. A presença da Academia de Teologia junto à abadia testemunha esta união entre fé e razão, entre coração e mente.

O último encontro de minha viagem foi com o mundo do voluntariado. Quis assim manifestar meu apreço às muitas pessoas, de diferentes idades, que se comprometem gratuitamente ao serviço do próximo, tanto na comunidade eclesial como na civil. O voluntariado não é só «fazer»: é antes de tudo uma maneira de ser, que começa no coração, com uma atitude de agradecimento pela vida, e leva a «restituir» e compartilhar com o próximo os bens recebidos. Nesta perspectiva, quis alentar novamente a cultura do voluntariado. A ação do voluntariado não deve ser vista como uma intervenção para «tapar buracos» do Estado ou das instituições públicas, mas como uma presença complementar e sempre necessária para manter viva a atenção pelos últimos e promover um estilo personalizado de assistência. Portanto, não há ninguém que não possa ser voluntário: inclusive a pessoa mais pobre tem certamente muito a compartilhar com os demais, oferecendo sua própria contribuição para construir a civilização do amor.

Concluindo, renovo minha ação de graças ao Senhor por esta visita-peregrinação à Áustria. Meta central foi, mais uma vez, um santuário mariano, em torno do qual pude viver uma intensa experiência eclesial, como uma semana antes havia acontecido em Loreto, com os jovens italianos. Também em Viena e em Mariazell se pôde ver, em particular, a realidade viva, fiel e variada, da Igreja Católica presente tão numerosa nos encontros previstos. Foi uma presença alegre e contagiante de uma Igreja que, como Maria, está chamada a «olhar para Cristo» sempre para poder mostrá-lo e oferecê-lo a todos; uma Igreja mestra e testemunha de um «sim» generoso à vida em todas as suas dimensões; uma Igreja que atualiza sua tradição de dois mil anos ao serviço de um futuro de paz e de autêntico progresso social para toda a família humana.

[Tradução realizada por Zenit. Após a audiência, o Papa falou aos peregrinos em língua portuguesa:]

A minha saudação a todos os peregrinos de língua portuguesa, com uma bênção particular para os alunos e formadores do Seminário Maior do Patriarcado de Lisboa, que celebram com esta romagem os setenta e cinco anos da sua abertura. Pedro disse um dia: «Vou pescar!» e aqueles que estavam com ele responderam: «Nós também vamos contigo!». Queridos amigos, subi para a barca, saiamos para a pesca! Às ordens de Cristo-Rei… Este tempo do Seminário gera uma maturação particularmente significativa na vossa consciência: deixais de olhar para a Igreja «de fora», para vos sentirdes dentro dela como se fosse vossa casa. Ganhais assim aquele «sentire cum Ecclesia» que fará de vós humildes e fiéis servidores da Verdade, pastores segundo o Coração de Deus.

[© Copyright 2007 - Libreria Editrice Vaticana]


© Innovative Media, Inc.

A reprodução dos serviços de Zenit requer a permissão expressa do editor.



envie a um amigo comente esta notícia
formato para impressão formato PDF
acima


zenit por email | zenit em rss | presenteie zenit | recomende zenit | apóie zenit

| condições de uso | enviar notícias e comunicados | fale conosco | página principal

© Innovative Media, Inc.