ZP08013001 - 30-01-2008
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América Latina é o mais feroz campo de batalha da conspiração abortista


Entrevista com o padre Thomas J. Euteneuer, presidente da Human Life International


FRONT ROYAL (Estados Unidos), quarta-feira, 30 de janeiro de 2008 (ZENIT.org).- Devido a sua cultura profundamente católica, a América Latina é o mais feroz campo de batalha da conspiração abortista, afirma o padre Thomas J. Euteneuer.

Por isso, é necessário que todas as culturas hispano-americanas permaneçam vigilantes perante as táticas dos abortistas, enfatiza o presidente da Human Life International.

O sacerdote concedeu entrevista a Zenit no contexto dos preparativos do I Congresso Internacional em Defesa da Vida, que acontece no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida (São Paulo, Brasil), de 6 a 10 de fevereiro, no qual ele será conferencista.

Qual a sua expectativa em relação ao I Congresso Internacional em Defesa da Vida, a realizar-se no Santuário Aparecida?

–Padre Thomas Euteneuer: Primeiro de tudo, gostaria de dizer que este maravilhoso congresso parece ser o fruto da visita do Santo Padre aos bispos latino-americanos em Aparecida, momento que enfatizou com clareza a necessidade de uma ação mais organizada e direta na defesa da vida. Por essa razão, acreditei ser necessário apoiar este esforço, ainda que exija sacrifício. Viajarei para Aparecida com outro sacerdote, Mons. Philip Reilly, de Brooklyn, Nova Iorque. Ele é um dos líderes pró-vida mais eficazes do mundo.

Minhas expectativas para este congresso correspondem às mesmas que tive a respeito de outros similares congressos pró-vida em outras partes do mundo, a saber, que este congresso ajude a criar consciência da urgente necessidade de defender a vida, o matrimônio e a família, e que constitua um chamado às pessoas de boa vontade a envolverem-se nesta luta. Palavra e ação, isso é o que se necessita para defender as realidades sagradas da vida, o matrimônio e a família.

Finalmente, em união com a Igreja, tenho a esperança de que este congresso seja também um chamado a bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e seminaristas a mobilizarem sua autoridade espiritual para defender a vida. Os membros consagrados da Igreja têm uma responsabilidade especial de falar abertamente e de dirigir o laicato, assim como fizeram os sacerdotes do Antigo Testamento que soaram suas trombetas e derrubaram as muralhas de Jericó. Deus abençoará os esforços de Sua Igreja quando os líderes dela forem fortes e vigilantes de Seu Povo.

O tema de sua palestra será: “Os ataques à vida e à família no contexto mundial”. Em linhas gerais, quais os aspectos mais importantes que o Sr. pretende ressaltar em sua exposição?

–Padre Thomas Euteneuer: Como, graças a Deus, o Brasil não legalizou o aborto ainda, meu propósito é criar consciência nos participantes acerca de como funcionam as estratégias dos abortistas para institucionalizar a matança dos inocentes. Em termos mais simples, os abortistas empregam os mortíferos instrumentos da anticoncepção, a “educação” sexual hedonista e o aborto, para atingir seus propósitos. A anticoncepção é o instrumento por meio do qual os abortistas mudam os valores da cultura para destruir o vínculo entre o ato conjugal e a procriação; a “educação” sexual hedonista doutrina a próxima geração; e o aborto é o “prêmio” final desta espiral da morte. Em minha apresentação, ademais, vou utilizar mapas de cada continente do mundo, para mostrar quão longe avançou a agenda antivida. Tenho a esperança de que no Brasil se organize uma forte oposição à “cultura” da morte.

Como está hoje organizada a Human Life International. Quais as suas prioridades de ação?

–Padre Thomas Euteneuer: HLI é uma federação de grupos pró-vida em 80 países do mundo, que mantém contato com o escritório central de HLI em Front Royal, Estado de Virgínia, EUA (próximo de Washington, DC). Nossa missão, em geral, é criar uma oposição eficaz à “cultura” da morte em todo o mundo. Esta tarefa nós realizamos transformando as consciências das pessoas, por meio da informação, da capacitação e da administração de recursos àquelas pessoas pró-vida que estão nas trincheiras desta batalha, assim como por meio da oração. Nosso principal objetivo é deter o avanço do aborto nos países onde ele ainda é legal. Trabalhamos muito próximo da Igreja Católica em todo o mundo, porque estamos convencidos de que apenas a autoridade espiritual da Igreja é suficientemente forte para derrotar este mal tão manifesto.

Como tem sido o seu trabalho na Human Life Internatuonal. Quais as principais conquistas e os maiores desafios?

–Padre Thomas Euteneuer: Trabalho na HLI há sete anos. Mas antes disso, trabalhei muito no ministério pró-vida, inclusive como sacerdote nas paróquias da Diocese de Palm Beach, Estado da Flórida, EUA, onde fui ordenado em 1988. Comecei dirigindo serviços de oração ante centros abortivos e capacitando pessoas para que ajudassem as mulheres grávidas em situações críticas. Desde que cheguei a HLI, acrescentei a dimensão internacional a meu trabalho, por meio de um grande número de viagens missionárias que realizei, assim como por meio do constante ensino, da pregação, da capacitação e mobilização de uma ativa oposição à “cultura” da morte.

O trabalho pró-vida está cheio de grandes alegrias, mas também de grandes tristezas. No entanto, para um católico autêntico, esse trabalho está sempre cheio de esperança. Em 2007, Portugal sofreu a legalização do aborto, mas também, durante esse mesmo ano, a Nicarágua obteve a completa eliminação do mesmo. HLI esteve profundamente envolvida em ambas batalhas, e sentimos as alegrias e as tristezas da batalha espiritual. Cristo é nossa única esperança. Ele nos recorda que nunca nos deixará órfãos. As pessoas pró-vida convertem-se, então, nos padrinhos espirituais das crianças não-nascidas que estão em perigo de ser abortadas ou que já foram, e por meio de seu trabalho recordam a essas crianças que o Senhor e a Igreja nunca as abandonam. Em seu devido tempo, veremos a vitória final do Imaculado Coração de Maria sobre este mal. Ela pisoteará a cabeça da serpente. Mas até esse momento, oramos e lutamos. Cristo fará o resto.

Em suas viagens pelos países do mundo, o que o Sr. tem visto em termos de mobilização eficaz pela causa da família e da vida humana? Quais situações bem sucedidas o Sr. pode nos relatar, com exemplos concretos de acolhida às vítimas da violência, especialmente nas condições em que a vida humana se encontra mais ameaçada e fragilizada?

–Padre Thomas Euteneuer: Em um congresso internacional de abortistas que se realizou no ano passado em Londres, as feministas pró-aborto confessaram que as armas mais eficazes contra a “cultura” da morte foram as imagens de ultra-som dos bebês no seio de sua mãe e o testemunho de mulheres arrependidas de terem abortado. Os abortistas não podem refutar esses testemunhos pró-vida. Estas são as formas mais imediatas de defender a vida, e nós tentamos difundir essas imagens e esses testemunhos em cada continente.

Agora, os programas mais eficazes no longo prazo para derrotar a “cultura” da morte são os programas de formação em autênticos valores cristãos, assim como os programas de formação na oração. Animamos tanto a Igreja como as famílias a serem fiéis a sua vocação de educar os jovens na fé. Por isso, dirigimos muitas vigílias de oração diante de centros abortivos ao redor do mundo. Onde o aborto, graças a Deus, ainda não é legal, frequentemente iniciamos campanhas de oração ao Anjo da Guarda de cada uma dessas nações, para que defenda suas populações da destruição do “anjo” do aborto.

Em relação à cura pós-aborto, há muitos recursos disponíveis para ajudar as mulheres que sofrem as seqüelas de um aborto. O sacramento da Confissão é evidentemente o primeiro e mais necessário dos recursos de cura e reconciliação. Nós proporcionamos formação a sacerdotes e seminaristas acerca de como administrar este sacramento às mulheres que abrotaram e aos homens que de alguma maneira envolveram-se em um aborto. A cura emocional é a segunda dimensão do ministério de cura. Os programas como o Projeto Raquel (de aconselhamento individual) e os Vinhedos de Raquel (de retiros pós-aborto) constituem uma tremenda ajuda neste processo contínuo de cura das mulheres que abortaram, as quais são consideradas “as segundas vítimas do aborto”.

Como o Sr. tem visto a crescente pressão pela legalização do aborto na América Latina? Como deter o avanço dessa pressão? Através de que meios? Hoje, é a legalização do aborto, amanhã, a eutanásia. E depois, a perseguição religiosa, O que especialmente à moral católica. O que fazer?

–Padre Thomas Euteneuer: Como disse o Papa João Paulo II, a “cultura” da morte é uma “conspiração contra a vida” que tem, ao mesmo tempo, uma dimensão secular e outra espiritual. Em sua dimensão humana, o destino de milhões de bebês é decidido nas reuniões das organizações financeiras internacionais, das fundações e das organizações não-governamentais (ONGs), que dedicam milhões de dólares e de euros a campanhas que destroem a fecundidade e a vida. Frequentemente, estas organizações oferecem ajuda econômica aos países em desenvolvimento com a condição de que legalizem o aborto ou que aumentem suas atividades antivida. Devido a sua cultura profundamente católica, a América Latina é o mais feroz campo de batalha desta conspiração. É necessário que todas as culturas hispano-americanas permaneçam vigilantes perante as táticas dos abortistas.

Podemos deter a pressão para que se legalize o aborto por meio da oração e da ação baseada nos princípios autênticos. Para dizer com palavras mais simples, quando a Igreja Católica, que é a religião majoritária na América Latina, ergue-se com firmeza e repreende o demônio do aborto, a conspiração antivida perde seu poder. Os líderes da Igreja podem e devem aceitar o desafio do Papa João Paulo II de ser “incondicionalmente pró-vida” e a usar todos os recursos espirituais e humanos a seu alcance para defender a vida.

O exemplo pró-vida mais recente e mais eficaz é o caso da Nicarágua. Esse país acaba de eliminar a “exceção” do chamado aborto “terapêutico” de seu código penal, ainda à custa dos protestos do lobby internacional do aborto. Quer dizer, agora todo tipo de aborto sem exceção é penalizado por lei. Em termos mais positivos, agora a lei protege todo bebê que está por nascer contra qualquer tipo de aborto. Os bispos basearam sua postura na perícia de médicos especialistas, organizaram três gigantescas marchas pró-vida em 2006, uma delas convocou 200 mil pessoas, e exigiram que essa exceção que ficava à proibição total do aborto fosse retirada do código penal. Como resultado de tudo isso, os legisladores votaram 59 a 0 para que se eliminasse todo tipo de aborto do país! Essa votação foi reafirmada em 2007 e o novo presidente Daniel Ortega disse que ele não ia apresentar um projeto de lei a favor do aborto, a não ser que a Igreja mudasse sua postura! Isso é um exemplo da autoridade espiritual da Igreja. Jesus mesmo disse que as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16, 18).

No Brasil, os grupos pró-vida tem conseguido, com muita dificuldade, fazer um trabalho de monitoramento no Congresso Nacional. São inúmeros projetos de lei que atentam contra a família e a vida humana, uma avalanche de propostas contrárias à moral cristã. O trabalho daqui para a frente será cada vez maior. Que orientações para que haja um acompanhamento que vise ampliar a conscientização dos parlamentares a evitar a aprovação desses projetos de lei?

–Padre Thomas Euteneuer: As pessoas pró-vida não poderão impedir a influência de extremistas internacionais do aborto simplesmente por meio de uma atividade política local. O lobby e a ação política local são necessários, mas insuficientes para derrotar o extremismo abortista. Para derrotar a “cultura” da morte é necessário principalmente orar e jejuar. Sugiro uma mobilização em grande escala de oração e jejum para deter todo tipo de projeto de lei abortista e antifamília. Isso é necessário em cada país da América Latina, mas particularmente no Brasil. Essa mobilização necessita de uma sólida liderança por parte da Igreja, como já mencionei antes. Essa é uma das principais metas deste congresso em Aparecida.

Que sugestões concretas o Sr. pode oferecer, a partir da experiência da Human Life International, de ações que podem ser realizadas em favor da família e da vida humana?

–Padre Thomas Euteneuer: Como mencionei anteriormente, o antídoto mais eficaz contra a “cultura” da morte é a formação adequada dos valores cristãos e da prática religiosa quando jovens. Esse é o trabalho da Igreja e da família. Os ativistas pró-vida defendem a vida quando está sob ataque, mas somos profissionais quanto a este propósito. A meta global do movimento pró-vida é voltar a criar uma sociedade que aceita e dá boas vindas a toda vida humana, desde o momento da fertilização ou concepção até o momento da morte natural. A luta principal e primária, portanto, lança-se na catequese básica, quer dizer, no ensino básico da fé, e na conversão evangélica do coração, sem as quais nunca poderá existir uma sociedade justa e moral.

O que Sr. considera relevante pontuar na “Declaração de Aparecida em Defesa da Vida”?

–Padre Thomas Euteneuer: Tenho a grande esperança de que essa declaração inclua uma contundente exortação aos bispos e ao restante do clero a que se envolvam na defesa ativa da vida, do matrimônio e da família. A queixa que escuto em todas as partes do mundo é o silêncio e a falta de ação por parte do clero nestes temas tão urgentes de hoje em dia. A grade esperança de HLI é que o congresso de Aparecida suscite uma mobilização dos líderes da Igreja quanto à promoção da própria doutrina da Igreja!

Como viabilizar uma “rede de solidariedade” entre os grupos pró-vida de todo o mundo, para uma ação mais conjunta e coordenada diante dos desafios existentes?

–Padre Thomas Euteneuer: A unidade e a solidariedade são sempre difíceis de estabelecer em um movimento de base. Os grupos pró-vida e favor da família são como as congregações religiosas, no sentido de que todas elas de algum modo cumprem com a missão de Cristo, mas cada uma tem o carisma próprio de seu fundador. Os dois principais desafios do movimento pró-vida são unir-se em torno a princípios comuns e manter uma comunhão espiritual através da oração. Se formos fiéis ao ensino da Igreja acerca da santidade da vida humana, do matrimônio e da família (a declaração mais clara de nossos princípios), então nossa oração de acompanhamento conseguirá muito mais do que imaginamos.

(Por Hermes Rodrigues Nery / Alexandre Ribeiro)


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