Por Alexandre Ribeiro
BRAGA, quinta-feira, 26 de junho de 2008 (ZENIT.org).- O bispo auxiliar de Braga (Portugal), Dom António Couto, considera que a Carta aos Romanos tem um lugar privilegiado nos escritos de Paulo, sendo o Ano Paulino uma oportunidade para aprofundar em seu conhecimento.
Em um comentário sobre «A Teologia de S. Paulo», divulgado essa quarta-feira pela agência do episcopado português, Ecclesia, Dom Couto, que é doutor em Teologia Bíblica, destaca a importância da Carta aos Romanos.
Em seu comentário, o bispo recorda primeiramente que as Cartas autênticas de Paulo são sete, ou seja, «aquelas que consensualmente se atribuem» a ele: «1 Tessalonicenses, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, Filémon e Romanos, sendo que a primeira (1 Tessalonicenses) terá sido escrita de Corinto no ano 50 ou 51, e a última (Romanos) terá sido escrita também de Corinto, talvez no Inverno de 55-56».
«A Segunda Carta aos Tessalonicenses, e as Cartas aos Efésios e Colossenses são hoje consideradas Cartas editadas tardiamente, depois da morte do Apóstolo, pelos seus discípulos. Mais tardias ainda serão as chamadas Cartas Pastorais (duas a Timóteo e uma a Tito).»
De acordo com o bispo, nota-se, neste elenco, «o lugar privilegiado que ocupa a Carta aos Romanos». «É a última Carta autêntica de Paulo, e a única que escreve a uma comunidade que ainda não conhece pessoalmente», afirma.
«O que escreve não tem, por isso, tanto a ver com a situação da comunidade cristã de Roma, mas com as preocupações e anseios que Paulo vive nessa altura, depois de dar por terminada a sua missão na parte oriental do império romano (Rm 15,19 e 23), e antes de partir para Jerusalém na mais arriscada das suas viagens, a viagem da comunhão das Igrejas em Cristo, a viagem da unidade, a verdadeira viagem da sua vida.»
O bispo explica que a Carta aos Romanos é o último escrito saído da mão de Paulo, «obra madura, amadurecida nas esperanças e nas dores, súmula das suas cartas anteriores e de todas elas a mais extensa (7101 palavras) e completa, que bem podemos considerar o testamento espiritual do Apóstolo».
«De fato, Paulo vive, anuncia, ensina e escreve a unidade e a liberdade de todos em Cristo, e é por esta realidade que dará a vida», destaca.
Segundo Dom António Couto, é «quase um aforismo» dizer que «a história da teologia cristã se revê na história da interpretação da Carta aos Romanos».
«É sabido que Agostinho consumou a sua conversão quando, como ele conta nas Confissões VIII, 12», foi motivado pelo canto de uma criança que repetia ‘Toma e lê! Toma e lê!’.
O bispo recorda que ele então pegou nas Cartas do Apóstolo, «abriu à sorte e à sorte leu Rm 13,13b-14: ‘Não em orgias e bebedeiras, não em devassidão e libertinagem, não em rixas e ciúmes, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não presteis atenção à carne através da concupiscência’».
«Nascia assim um dos teólogos mais influentes da história do cristianismo», enfatiza.
De acordo com o bispo auxiliar de Braga, a Carta aos Romanos teve outro grande impacto «para o cristianismo e para a civilização ocidental» quando Lutero começou a proferir sobre ela as suas primeiras lições, na Universidade de Wittenberg, em 1515-1516.
«‘Uma bomba no recinto de recreio dos teólogos’: foi com estas palavras que Karl Adams definiu o enorme impacto do grande Comentário sobre a Carta aos Romanos de Karl Barth, publicado em 1918 (2.ª ed. muito melhorada em 1922), e que inaugurou uma nova era na teologia do século XX», destaca.
Ainda de acordo com o bispo, a Carta aos Romanos «marcou indelevelmente a Igreja primitiva, mas também a Idade Média e a Idade Moderna».
«E marcará também seguramente todos aqueles que ousarem confrontar-se com ela de forma séria. Um pouco como confessa o conhecido exegeta Lagrange que, em 1916, publicou Saint Paul, Épître aux Romains, e confessa: ‘O primeiro contato foi arrasador’ (Avant-propos, III).»
















