BELO HORIZONTE, terça-feira, 21 de outubro de 2008 (ZENIT.org).- É possível conciliar fé e conhecimento? Ou são duas vias paralelas? Será que fé é acreditar cegamente em algo? Estas questões foram enfrentadas no evento «Fé e conhecimento: a perspectiva do cientista, do poeta e do monge», ocorrido sábado passado, na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte (Brasil).
O evento contou com a participação da escritora Adélia Prado, da cientista bióloga Ana Lydia Sawaya, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), e do monge Dom Bernardo Bonowitz, do Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo.
O encontro examinou a fé dentro da dinâmica de conhecimento em geral, na vida social e na ciência, até chegar à questão da fé religiosa, onde essa dinâmica toma dimensão central para a vida humana.
Os palestrantes deram suas contribuições a partir da obra «É possível viver assim?» (Ed. Companhia ilimitada, 2008), de Dom Luigi Giussani, fundador do Movimento Comunhão e Libertação.
A cientista Ana Lydia foi a primeira a falar. «A fé é um tipo de conhecimento que diz respeito à maior parte do conhecimento que orienta a vida prática e está apoiada na autoridade de quem é honesto, merece confiança, quem diz a verdade», disse.
Segundo a bióloga, fé «é aderir àquilo que um outro afirma. Isto é razoável quando sei que existem condições adequadas para confiar: que a pessoa saiba o que está dizendo e não queira enganar».
Nesse sentido, como a fé relaciona-se com a ciência? –questionou. «Eu tenho fé que existe o átomo e que ele é composto por núcleo e elétrons porque alguém me disse; o aluno tem fé no que o professor lhe diz sem ter que re-verificar tudo e comprovar pessoalmente as suas afirmações».
Caso contrário, explicou a bióloga, «cada aluno teria de começar tudo do zero e não haveria acréscimo de conhecimento, pois uma única pessoa não teria condições de re-confirmar tudo diretamente».
Segundo Ana Lydia, acredita-se em determinado cientista «porque ele reúne minhas exigências de credibilidade: sabe o que diz e não quer me enganar. Nossos conhecimentos estão muito mais apoiados na fé no que outra pessoa diz do que na nossa vivência pessoal e direta».
De acordo com a bióloga, a fé «permite o desenvolvimento da civilização e da cultura».
A escritora Adélia Prado começou sua exposição dizendo que «o mundo já nos é dado com suas órbitas, leis, sentimentos do bem e do mal».
E essa «sensibilidade ética já nasce conosco e ela nos persegue feito um aguilhão. É o instinto da alma, o instinto religioso que é a tendência que a alma, o espírito humano, tem de procurar aquilo que justifique a existência, o absurdo do fenômeno da nossa existência e a do mundo», disse.
Segundo a escritora, apenas «uma natureza absoluta» pode «mitigar nossa sede, nossa necessidade de amor, nosso medo e nosso pavor da morte».
Segundo Adélia, «fazer as obras da fé significa fidelidade a si mesmo; fidelidade ao desejo do bem, da vida, da alegria, da consolação, do sentido, do significado».
Fidelidade a si mesmo significa fidelidade a Deus: «a fé, no cotidiano, é vivida dessa forma: que suas obras sejam feitas».
Dom Bernardo Bonowitz, que não pôde comparecer, enviou uma intervenção em que observou a questão do ângulo da fé como um ato de confiança nos outros e da fé como uma forma racional de se conhecer.
«Nossas descobertas, nossa criatividade começam com um ato de confiança – explícita ou implícita, grata ou ingrata – naquilo que já foi pensado, descoberto ou criado.»
«Isto não significa aceitação de modo irrefletido, não-crítico ou contra-racional; significa tomar numa base fidedigna aquilo que foi feito e consolidado antes e aquilo que está sendo feito agora por outras pessoas que não nós mesmos. Sem isto não há herança», disse.
Sobre a fé como um método de conhecimento, o monge trapista explicou que, «quando Cristo se apresenta a nós, é um profundo ato de reconhecimento. O ato de fé em Cristo resume e completa todo o ser e toda a busca da pessoa».
«Ela identifica nele aquele que ela tem esperado desde o início. A pessoa olha dentro do seu próprio coração e dos seus desejos mais profundos, talvez consiga olhar para além disto, para a sua própria configuração pessoal, e depois, olhando para o Cristo, vê de uma maneira intuitiva, mas absolutamente real, a corroboração e realização de todo o seu ser. Esta ‘visão’ é um ato de fé», afirma.
















