ZP08122405 - 24-12-2008
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Bento XVI: Balanço de 2008 com Jornada de Sydney como eixo


Discurso aos membros da Cúria Romana


CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 24 de dezembro de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos o discurso que Bento XVI dirigiu nesta segunda-feira aos membros da Cúria Romana e do governo da Cidade do Vaticano, no tradicional encontro de troca de felicitações por ocasião do Natal. 

* * *

Senhores cardeais, 

venerados irmãos e irmãs no episcopado e no presbiterado, 

queridos irmãos e irmãs: 

O Natal do Senhor está às portas. Cada família sente o desejo de reunir-se, para desfrutar a atmosfera única e irrepetível que esta festa é capaz de criar. Também a família da Cúria Romana se encontra reunida nesta manhã, seguindo uma bela tradição, graças à qual temos a alegria de encontrar-nos e trocar as felicitações natalinas neste particular clima espiritual. Dirijo a cada um minha saudação cordial, cheia de reconhecimento pela colaboração prestada ao sucessor de Pedro. Agradeço vivamente ao cardeal decano Angelo Sodano, que se fez intérprete dos sentimentos de todos os presentes, e também a todos que estão trabalhando nos diversos escritórios, inclusive as representações pontifícias. Eu me referia no começo à atmosfera especial do Natal. Gosto de pensar que é quase uma prolongação daquela misteriosa alegria, daquela íntima exultação que invadiu a santa Família, os anjos e os pastores de Belém, na noite em que Jesus viu a luz. Eu a definiria como «atmosfera da graça», pensando na expressão de São Paulo na Carta a Tito: «Apparuit gratia Dei Salvatoris nostri omnibus hominibus» (cf Tt 2, 11). O apóstolo afirma que a graça de Deus se manifestou «a todos os homens»: eu diria que nisso se manifesta também a missão da Igreja e, em particular, a do sucessor de Pedro e de seus colaboradores, de contribuir para que a graça de Deus, do Redentor, seja cada vez mais visível a todos e leve a salvação a todos. 

O ano que está a ponto de terminar foi rico em olhares retrospectivos  a datas importantes da história recente da Igreja, mas rico também em acontecimentos, que trazem consigo sinais de orientação para nosso caminho para o futuro. Há cinquenta anos morria o Papa Pio XII, há 50 anos era eleito o Papa João XXIII. Passaram quarenta anos desde a publicação da Encíclica Humanae Vitae e trinta anos desde a morte de seu autor, o Papa Paulo VI. A mensagem destes acontecimentos foi recordada e meditada de muitas formas ao longo do ano, tanto que não quero deter-me novamente neles agora. O olhar da memória, contudo, dirigiu-se ainda mais aos acontecimentos do século passado, e precisamente assim nos dirigiu para o futuro: na noite de 28 de junho, em presença do patriarca ecumênico Bartolomeu I de Constantinopla e de representantes de muitas outras Igrejas e comunidades eclesiais, pudemos inaugurar na Basílica de São Paulo Fora dos Muros o Ano Paulino, em recordação do nascimento do apóstolo dos gentios há dois mil anos. Paulo não é para nós uma figura do passado. Mediante suas cartas, ele nos fala ainda hoje. E quem entra em diálogo com ele, é impulsionado a Cristo crucificado e ressuscitado. O Ano Paulino é um ano de peregrinação não só no sentido de um caminho exterior para os lugares paulinos, mas também uma peregrinação do coração, junto com Paulo, rumo a Jesus Cristo. Em definitivo, Paulo nos ensina também que a Igreja é Corpo de Cristo, que a Cabeça e o Corpo são inseparáveis e que não pode haver amor a Cristo sem amor à sua Igreja e à sua comunidade viva. 

Surgem particularmente diante dos olhos três acontecimentos específicos do ano que está terminando. Antes de tudo, a JMJ na Austrália, uma grande festa da fé, que reuniu mais de 200 mil jovens de todas as partes do mundo e os aproximou não só externamente – em sentido geográfico – mas, com sua contagiante alegria de ser cristãos, também interiormente. Junto a isso houve duas viagens, uma aos Estados Unidos e outra à França, nas quais a Igreja se fez visível diante do mundo e para o mundo como uma força espiritual que indica caminhos de vida e, mediante o testemunho da fé, traz a luz ao mundo. Foram dias que irradiavam luminosidade, irradiavam confiança no valor da vida e no empenho pelo bem. Por último, é preciso recordar o Sínodo dos Bispos: pastores procedentes do mundo inteiro se reuniram ao redor da Palavra de Deus, que havia sido proclamada no meio deles; em torno da Palavra de Deus, cuja grande manifestação se encontra na Sagrada Escritura. Aquilo a que no dia-a-dia com frequência não damos importância, cantamos novamente em sua sublimidade: o fato de que Deus fala, de que Deus responde a nossas perguntas. O fato de que Ele, ainda que em palavras humanas, fale em pessoa e possamos escutá-lo e, na escuta, aprender a conhecê-lo e compreendê-lo. O fato de que Ele entre em nossa vida modelando-a e que nós possamos sair de nossa vida e entrar na imensidão de sua misericórdia. Assim perebemos outra vez que Deus nesta Palavra sua se dirige a cada um de nós, fala ao coraçào de cada um: se nosso coração se desperta e o ouvido interior se abre, então cada um pode aprender a escutar a palavra que lhe é dirigida a Ele. Mas precisamente se escutamos Deus falar-nos de forma tão pessoal a cada um de nós, compreendemos também que sua Palavra está presente para que nos aproximemos uns dos outros, para que encontremos a forma de sair do que é só pessoal. Esta Palavra marcou uma história comum e quer continuar fazendo-o. Então voltamos a dar conta de que – precisamente porque a Palavra é tão pessoal – podemos compreendê-la de forma correta e total só no «nós» da comunidade instituída por Deus: sendo sempre consciente de que nunca poderemos esgotá-la completamente, que esta tem algo novo a dizer a cada geração. Compreendemos que os escritos bíblicos certamente foram redigidos em épocas determinadas e que constituem neste sentido, antes de tudo, um livro procedente de um tempo passado. Mas vimos que sua mensagem não permanece no passado nem pode ser echada nele: Deus, no fundo, fala sempre no presente, e escutaremos a Bíblia plenamente só quando descobrirmos este «presente» de Deus que nos chama agora. 

Finalmente, era importante experimentar que na Igreja há um Pentecostes também hoje; ou seja, que esta fala em muitas línguas, e isso não só no aspecto exterior de que estejam representadas nela todas as grandes línguas do mundo, mas em seu aspecto mais profundo: nela estão presentes as múltiplas formas de experiência de Deus e do mundo, a riqueza das culturas, e só assim aparece a amplitude da existência humana e, a partir dela, a amplitude da Palavra de Deus. Contudo, também compreendemos que o Pentecostes está ainda «a caminho», está ainda incompleto: existe uma multidão de línguas que ainda esperam a Palavra de Deus contida na Bíblia. Eram comovedores também os múltiplos testemunhos de fiéis leigos de todas as partes do mundo, que não só vivem a Palavra de Deus, mas que também sofrem por ela. Uma preciosa contribuição foi também o discurso de um rabino sobre as Sagradas Escrituras de Israel, que são também nossas Sagradas Escrituras. Um momento importante para o Sínodo, e mais, para o caminho da Igreja em seu conjunto, foi quando o patriarca Bartolomeu, à luz da tradição ortodoxa, com análise penetrante nos abriu um acesso à Palavra de Deus. Esperemos agora que as experiências e as conquistas do Sínodo influenciem eficazmente a vida da Igreja: sobre a relação pessoal com as Sagradas Escrituras, sobre sua interpretação na Liturgia e na catequese, como também na pesquisa científica, para que a Bíblia não fique em uma palavra do passado, mas que sua vitalidade e atualidade sejam lidas e reveladas na amplitude de dimensões de seus significados. 

As viagens pastorais deste ano fizeram referência à presença da Palavra de Deus, a Deus mesmo no atual momento da história: seu verdadeiro sentido só pode ser o de servir esta presença. Nestas ocasiões, a Igreja se faz perceptível publicamente, com ela a fé, e por isso, ao menos, a pergunta sobre Deus. Esta manifestação em público da fé chama todos aqueles que tentam entender o tempo presente e as forças que atuam nele. Especialmente o fenômeno das JMJ se converte cada vez mais em um objeto de análise, no qual se tenta entender esta espécie, por assim dizer, de cultura juvenil. A Austrália nunca havia visto tanta gente de todos os continentes como na JMJ, nem sequer durante as Olimpíadas. E se precedentemente se havia dado o temor de que a chegada em massa dos jovens pudesse provocar algum problema de ordem pública, paralizar o tráfico, obstaculizar na vida cotidiana, provocar violência e dar espaço às drogas, tudo isso se demonstrou como infundado. Foi uma festa da alegria: uma alegria que no final contagiou inclusive os resistentes: ao final ninguém se sentiu ofendido. As jornadas se converteram em uma festa para todos, e mais, só então se deram verdadeiramente conta de que é uma festa: um acontecimento no qual todos estão, por assim dizer, fora de si mesmos, além de si mesmos, e assim consigo mesmos e com os demais. Qual é, portanto, a natureza do que acontece em uma JMJ? Quais são as forças que atuam nela? Análises em voga tendem a considerar estas jornadas como uma variante da cultura juvenil moderna, como uma espécie de festival de rock modificado em sentido eclesial, com o Papa como estrela. Com ou sem fé, estes festivais seriam no fundo sempre a mesma coisa, e assim se pensa poder obviar a pergunta sobre Deus. Há também vozes católicas que vão nesta direção, avaliando tudo isso como um grande espetáculo, inclusive bonito, mas de pouco significado para a pergunta sobre a fé e sobre a presença do Evangelho em nosso tempo. Seriam momentos de um êxtase festivo, mas que no final das contas deixaria tudo como antes, sem influenciar de forma mais profunda a vida. 

Contudo, a peculiaridade dessas jornadas e o caráter particular de sua alegria, de sua força criadoras de comunhão, não encontram explicação. Antes de tudo, é importante levar em conta o fato de que as JMJ não consistem só nessa única semana na qual se fazem visíveis ao mundo. Há um longo caminho exterior e interior que conduz a ela. A Cruz, acompanhada pela imagem da Mãe do Senhor, faz uma peregrinação pelos países. A fé, à sua maneira, tem necessidade de ver e de tocar. O encontro com a cruz, que é tocada e levada, converte-se em um encontro interior com Aquele que na Cruz morreu por nós. O encontro com a Cruz suscita no íntimo dos jovens a presença desse Deus que quis fazer-se homem e sofrer conosco. E vemos a Mulher que Ele nos deu como Mãe. As Jornadas solenes são só a culminação de um longo caminho com o qual se vai ao encontro de uns com outros e, juntos, com Cristo. Não é por acaso que na Austrália a longa Via Crucis através da cidade se converteu no elemento culminante dessas jornadas. Resumia uma vez mais tudo o que havia sucedacontecidodo nos anos precedentes e indicava Aquele que reúne todos: esse Deus que ama até a Cruz. O Papa não é a estrela em torno da qual gira tudo. Ele é somente vigário. Remete ao Outro que está no meio de nós. Finalmente, a liturgia solene é o centro de tudo, porque nela sucede o que nós não podemos realizar e algo de que, contudo, estamos sempre à espera. Ele está  presente, Ele entre no meio de nós. O céu se abriu e isso torna a terra luminosa. Isso é o que torna a vida alegre e aberta e o que nos une com uma alegria que não é comparável com um festival de rock. Friedrich Nietzsche disse em uma ocasião: «A habilidade não está em organizar uma festa, mas em trazer pessoas capazes de colocar alegria». Segundo a Escritura, a alegria é fruto do Espírito Santo (cf Gál 5, 22): este fruto era perceptível abundantemente nos dias de Sydney. Como um longo caminho precede as JMJ, assim deriva dele também o caminho sucessivo. As grandes Jornadas têm, não em último termo, o objetivo de suscitar estas amizades e de fazer surgir assim no mundo lugares de vida na fé, que são ao mesmo tempo lugares de esperança e de caridade vivida. 

A alegria, como fruto do Espírito Santo. Deste modo, chegamos ao tema central de Sydney, que era precisamente o Espírito Santo. A partir desta perspectiva, quero mencionar como síntese a orientação implícita deste tema. Levando em conta o testemunho da Escritura e da Tradição, podemos reconhecer com facilidade quatro dimensões no tema do «Espírito Santo». 

1. Antes de tudo está a afirmação que nos apresenta o início da narração da criação: nela se fala do Espírito criador que voa por cima das águas, cria o mundo e o renova continuamente. A fé no Espírito criador é um conteúdo essencial do Criador cristão. O fato de que a matéria leva em si uma estrutura matemática, está cheia de espírito, é o fundamento sobre o qual se baseiam as modernas ciências da natureza. Só porque a matéria está estruturada de maneira inteligente, nosso espírito é capaz de compreendê-la e de remodelá-la ativamente. O fato de que esta estrutura inteligente proceda do mesmo Espírito criador que também nos doou o espírito, implica ao mesmo tempo uma tarefa e uma responsabilidade. Na fé sobre a criação está o fundamento último de nossa responsabilidade com a terra. Não é simplesmente uma propriedade nossa, da qual nos podemos aproveitar segundo nossos interesses e desejos. É mais dom do Criador, que desenhou os ordenamentos intrínsecos e deste modo nos deu sinais de orientação que devemos respeitar como administradores de sua criação. O fato de que a terra, o cosmos, refletem o Espírito criador, significa também que suas estruturas racionais – que muito além da ordem matemática, no experimento, se tornam quase palpáveis – levam em si uma orientação ética. O Espírito que as plasmou é mais que matemática, é o Bem em pessoa que, através da linguagem da criação, nos indica o caminho para o reto caminho. 

Dado que a fé no Criador é uma parte essencial do credo cristão, a Igreja não pode e não deve limitar-se a transmitir a seus fiéis só a mensagem da salvação. Também tem uma responsabilidade com a criação e tem de cumprir esta responsabilidade em público. E, ao fazê-lo, não só tem de defender a terra, a água, o ar, como dons da criação que pertencem a todos. Tem de proteger também o homem contra sua própria destruição. É necessário que haja algo como uma ecologia do homem, entendida no sentido justo. Quando a Igreja fala da natureza do ser humano como homem e mulher e pede que se respeite esta ordem da criação, não está expondo uma metafísica superada. Aqui se trata, de fato, da fé no Criador e da escuta da linguagem da criação, cujo desprezo significaria uma auto-destruição do homem e, portanto, uma destruição da própria ordem de Deus. 

O que com frequência se expressa e entende com o termo «gender», se sintetiza em definitivo na auto-emancipação do homem da criação do Criador. O homem quer fazer-se por sua conta, e decidir sempre e exclusivamente sozinho sobre o que lhe afeta. Mas deste modo vive contra a verdade, vive contra o Espírito criador. Os bosques tropicais merecem, certamente, nossa proteção, mas não menos a merece o homem como criatura, no qual está inscrita uma mensagem que não contradiz a nossa liberdade, mas que é sua condição. Grandes teólogos da Escolástica qualificaram o matrimônio, ou seja, o laço para a vida toda entre o homem e a mulher, como sacramento da criação, instituído pelo Criador, e que Cristo – sem modificar a mensagem da criação – acolheu depois na história de sua aliança com os homens. Faz parte do anúncio que a Igreja deve oferecer o testemunho a favor do Espírito criador presente na natureza em seu conjunto e de maneira especial na natureza do homem criado à imagem de Deus. A partir desta perspectiva, seria preciso ler a encíclica Humanae Vitae: a intenção do Papa Paulo VI era a de defender o amor contra a sexualidade como consumo, o futuro contra a pretendida exclusividade do presente, e a natureza do homem contra a sua manipulação.

2. Permiti-me uma breve menção ulterior sobre as demais dimensões da pneumatologia. Se o Espírito criador se manifesta antes de tudo na grandeza silenciosa do universo, em sua estritura inteligente, a fé, além disso, nos diz algo inesperado: ou seja, este Espírito fala também, por assim dizer, com palavras humanas, entrou na história e, como força que marca a história, é também um Espírito que fala, e mais, é Palavra que nos escritos do Antigo e do Novo Testamento sai ao nosso encontro. O que isso significa para nós o expressou maravilhosamente Santo Ambrósio, em uma de suas cartas: «Também agora, enquanto leio as divinas Escrituras, Deus passeia no Paraíso» (Epístola 49, 3). Também hoje, nós, ao ler a Escritura, podemos como vagar pelo jardim do Paraíso e encontrar Deus que passeia por lá: entre o tema da JMJ na Austrália e o tema do Sínodo dos Bispos se dá uma profunda relação interior. Os dois temas, «Espírito Santo» e «Palavra de Deus» caminham juntos. Lendo a Escritura aprendemos, contudo, que Cristo e o Espírito Santo são inseparáveis entre si. Quando Paulo afirma com uma síntese desconcertante «O Senhor é o Espírito» (2 Coríntios 3, 17), não só está mostrando, como pano de fundo, a unidade trinitária entre o Filho e o Espírito Santo, mas também e sobretudo sua unidade na história da salvação: na paixão e ressurreição caem os véus do sentido meramente literal e se torna visível a presença do Deus que está falando. Ao ler a Escritura junto a Cristo, aprendemos escutar nas palavras humanas a voz do Espírito Santo e descobrimos a unidade da Bíblia. 

3. Deste modo, chegamos à terceira dimensão da pneumatologia, que consiste precisamente no fato de que Cristo e o Espírito Santo não podem separar-se. Isso se mostra da maneira talvez mais bela na narração de São João sobre a primeira aparição do Ressuscitado diante dos discípulos: o Senhor sopra sobre seus discípulos e deste modo lhes dá o Espírito Santo. O Espírito Santo é o sopro de Cristo. E como o sopro de Deus na manhã da criação havia transformado o pó do solo no homem vivo, do mesmo modo o sopro de Cristo nos acolhe na comunhão ontológica com o Filho, nos faz uma nova criação. Por este motivo, o Espírito Santo nos faz dizer junto com o Filho: «Abbá, Pai!» (cf. João 20, 22; Romanos 8, 15). 

4. Deste modo, como quarta dimensão, emerge espontaneamente a relação entre o Espírito e a Igreja. Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios 12 e em Romanos 12, apresentou a Igreja como Corpo de Cristo e como organismo do Espírito Santo, no qual os dons do Espírito Santo fundem aos indivíduos em uma unidade viva. O Espírito Santo é o Espírito do Corpo de Cristo. No conjunto deste Corpo encontramos nossa tarefa, vivemos uns para os outros e uns em dependência dos outros, vivendo em profundidade d’Aquele que viveu e sofreu por todos nós e que através de seu Espírito nos atrai a si na unidade de todos os filhos de Deus. «Queres tu também viver do Espírito de Cristo? Então deves entrar no Corpo de Cristo», diz Agostinho neste sentido (Tr. in Jo. 26, 13). 

Deste modo, com o tema do «Espírito Santo», que orientava as jornadas da Austrália e, de maneira um pouco mais escondida, também as semanas do Sínodo, torna-se visível toda a amplitude da fé cristã, uma amplitude que, da responsabilidade pela criação e pela existência do homem em sintonia com a criação, leva, através dos temas da Escritura e da história da salvação, até Cristo e daí à comunidade viva da Igreja, em suas diferentes ordens de responsabilidade, assim como também em sua amplitude e liberdade, que se expressa tanto na multiplicidade dos carismas como na imagem pentecostal da multidão das línguas e culturas. 

A festa é parte integrante da alegria. A festa se pode organizar, a alegria não. Só pode oferecer-se como dom; e, de fato, foi-nos dada em abundância: por isso nos sentimos agradecidos. Assim como Paulo qualifica a alegria como fruto do Espírito Santo, do mesmo modo também João, em seu Evangelho, uniu intimamente o Espírito e a alegria. O Espírito nos dá a alegria. Ele é a alegria. A alegria é o dom no qual todos os demais dons estão resumidos. É a expressão da felicidade, do estar em harmonia consigo mesmos, algo que só pode derivar de estar em harmonia com Deus e com sua criação. Faz parte da natureza da alegria o irradiar-se, ter de comunicar-se. O espírito missionário da Igreja não é mais que o impulso por comunicar a alegria que nos foi dada. Que sempre esteja viva em nós e, depois, que se irradie no mundo em suas tribulações: este é meu desejo para final deste ano. Junto com um sentido agradecido por todas vossas fadigas e obras, desejo a todos que esta alegria, que se deriva de Deus, seja concedida abundantemente a nós também no Ano Novo. 

Confio estes desejos à intercessão da Virgem Maria, Mater divinae gratiae, pedindo a graça de poder viver as festividades natalinas na alegria e na paz do Senhor. Com estes sentimentos, envio de coração, a todos vós e à grande família da Cúria Romana, a bênção apostólica. 

[Tradução: Élison Santos. Revisão: Aline Banchieri.

© Copyright 2008 - Libreria Editrice Vaticana]


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