Por Renzo Allegri
CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 5 de março de 2009 (ZENIT.org).- Nos séculos XVI, XVII e XVIII, muitos personagens ilustres chegavam a Roma para participar em São Pedro das cerimônias da Semana Santa, celebradas pelo Papa, e para escutar o famoso Miserere de Allegri, que era interpretado na quarta e na sexta-feira santas. A esta tradição se liga um episódio muito significativo referido ao jovem Wolfgang Amadeus Mozart.
Assim conta a Zenit neste encontro-entrevista Dom Giuseppe Liberto, que há 12 anos dirige a schola cantorum do Papa, a mais antiga da história (a primeira parte foi publicada na terça-feira, 3 de março).
«Em 1770, também Mozart chegou a Roma, acompanhado por seu pai, Leopold. Mozart tinha apenas 14 anos, mas seu gênio musical já era conhecido em toda a Europa. Escutou o canto do Miserere na quarta-feira santa e experimentou um profundo sentimento. Ao regressar a seu albergue, transcreveu de memória o que havia escutado. Voltou a São Pedro na Sexta-Feira Santa e, após esta segunda audição, aperfeiçoou o que havia escrito.»
«Ele conseguiu tirar dos Palácios Vaticanos a partitura daquele Miserere e por isso teria devido incorrer em excomunhão. Mas conta-se que o Papa, informado sobre o ocorrido, ao invés de excomungar o jovem Mozart, premiou-o com um prestigioso reconhecimento pontifício.»
Ao ser perguntado sobre quantos cantores atualmente compõem a Capela Musical Pontifícia Sistina, o maestro precisa que são 55 pessoas, das quais 20 são cantores adultos, profissionais, dependentes vaticanos, e cerca de 35 crianças, que integram a seção de vozes brancas. A origem dos pueri cantores (crianças cantoras) do Coro da Capela Sistina se remonta ao século VI.
Depois, sobretudo no Renascimento, foram substituídos por cantores castrados, mas Lorenzo Perosi, a princípios do século XX, recuperou o costume antigo. Os pueri cantores não eram, contudo, membros da Capela, mas participavam eventualmente. Só em 1956 Domenico Bartolucci os incluiu como cantores fixos.
Dom Liberto explica que, para preparar-se para compromissos artísticos importantes, os jovens «seguem um treinamento muito severo. Frequentam nossa escola interna, na qual às matérias obrigatórias se acrescenta o estudo da música. Recebem do Vaticano uma bolsa integral, portanto têm tudo de graça, aulas e livros».
«A escola é de alto nível, com professores preparadíssimos, e os jovens estão bem cuidados, também porque só há 12 alunos por sala. Temos duas salas de Ensino Fundamental e três de Ensino Médio. No primeiro ano, as crianças estudam solfejo e vocalização. Depois começam a ser incluídas no coro. Na prática, convertem-se em pequenos profissionais.»
«Musicalmente são acompanhados por Marcos Pavan, brasileiro, que é um instrutor extraordinário. É uma vocação adulta. Antes de ser sacerdote, era advogado e apaixonado pela música. No Brasil, estudou também canto lírico e fazia parte do coro do Teatro da Ópera de São Paulo. Veio a Roma para completar seus estudos. Eu o conheci em 1998 e me dei conta de que era um instrutor ideal para os pueri cantores da Capela Sistina.»
Mas a atividade da Capela Musical Sistina não se esgota na participação nas celebrações litúrgicas do Papa. Neste sentido, Liberto explica que «temos também uma intensa atividade de concertos na Itália e fora dela. Nos últimos 10 anos, fizemos tours pelo Japão, Hungria, Malta, Espanha, Croácia, Albânia, Alemanha, Montenegro, muitíssimos concertos em Roma e em várias cidades italianas.
A tarefa do diretor da Capela Sistina também não se limita à interpretação, mas ele tem a responsabilidade de compor as músicas para as diversas celebrações, como acontecia no passado.
Música sacra e música santa
Dom Liberto conta que «se recuperam músicas do repertório antigo, mas com frequência se compõem novas. É um trabalho delicadíssimo. Não se trata de compor músicas para um concerto ou para um espetáculo. Estas músicas nascem para a liturgia e, na execução, incluem-se na ação litúrgica e se tornam oração na Igreja. Em geral, por tradição, este gênero de música se chama ‘música sacra’. Gosto de reservar esta expressão para a música que tem um conteúdo ‘genericamente’ religioso. Enquanto que, para a música dedicada à liturgia, prefiro usar a expressão ‘música santa’».
«Compor ‘música santa’ – confessa o diretor da Capela Musical Sistina – exige certamente profissionalismo, mas sobretudo consciência de estar ao serviço da ação orante da Igreja que celebra o Mistério Pascal de Cristo. A música deve ajudar as pessoas a orar. Portanto, deve-se buscar uma linguagem adequada, que seja viva, e não arcaica.»
«Uma ótima sugestão para seguir este caminho – acrescenta – foi-me oferecida pelo próprio Santo Padre Bento XVI, que entende muito de música. Cada ano oferecemos ao Papa, aqui, na Capela Sistina, um concerto natalino. É um encontro entre o Papa e os componentes de sua Capela Musical. Ao término do concerto, ele sempre nos dirige um discurso muito afetuoso.»
Dom Liberto revela que «há alguns anos, incluí no programa também dois cantos natalinos tradicionais italianos: Tu scendi dalle stelle e Astro del ciel, que eu havia harmonizado com uma forma um pouco moderna. Ao término do concerto, o Papa me felicitou. Quase desculpando-me, eu lhe disse que, no conjunto das diversas peças clássicas, quis incluir também aqueles dois cantos populares».
«’Bem, a música vem daí, do povo’, disse o Papa. ‘Mas – acrescentei – eu os harmonizei de uma forma talvez um pouco moderna demais’. E ele respondeu: ‘Não, não, está bem assim. Tem de se olhar adiante, expressar-se com uma linguagem adequada ao tempo em que vivemos’, indicando-me com estas palavras a justa regra que deve observar quem compõe ‘música santa’ hoje.»
À pergunta de quantas músicas ele compôs, afirma: «Muitas. Também porque nestes anos se deram diversos acontecimentos religiosos extraordinários: beatificação de figuras como o Padre Pio, o Grande Jubileu do ano 2000, a morte de João Paulo II, a eleição de Bento XVI etc. Para cada um destes eventos, era preciso preparar cantos apropriados às diversas celebrações».
O diretor da Capela Musical Sistina nos mostra as numerosas partituras e músicas que compôs nestes anos. Algumas já foram publicadas pela Livraria Editorial Vaticana, na coleção Liturgia Poliphonia. Entre elas está também a Missa Pie Iesu Domini, composta e interpretada nos funerais de João Paulo II, uma música que foi escutada com grande emoção pela enorme multidão presente na Praça de São Pedro e por mais de três bilhões de pessoas conectadas via rádio, televisão ou internet. Suscitou vivíssimo interesse inclusive entre os críticos musicais, por sua serenidade, em perfeita sintonia com o espírito da liturgia que se celebrava, com as palavras que o celebrante, o então cardeal Joseph Ratzinger, pronunciou referindo-se ao pontífice falecido: «Podemos estar seguros de que nosso amado Papa está agora junto à janela da Casa do Pai, que nos vê e nos abençoa».
















