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ZP09100709 - 07-10-2009
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Intervenções dos padres sinodais na Terceira Congregação Geral


Manhã e tarde de 6 de outubro


CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 7 de outubro de 2009 (ZENIT.org).- Oferecemos a seguir os resumos das intervenções da Terceira Congregação Geral da assembleia do Sínodo para a África, realizada ontem.

* * *

- S. Em. R. Card. Angelo SODANO, Decano do Colégio dos Cardeais (CITADE DO VATICANO)

No dia 15 de Setembro de 1965 o saudoso Papa Paulo VI instituía um novo organismo de comunhão eclesial entre os Bispos e o Sucessor de Pedro. É o nosso "Synodus Episcoporum ".
1. Esta Instituição já se tornou adulta com os seus 44 anos de vida e parece-me que as suas assembleias (até agora foram 22) contribuíram enormemente aos fins específicos que o Legislador lhe havia atribuido, na direcção indicada pelo Concílio Ecuménico Vaticano II. São as finalidades que o novo Código de Direito Canónico, em 1993, depois sintetizou nos seguintes três pontos:
a. favorecer uma estreita união entre o Romano Pontífice e os Bispos;
b. prestar ajuda à missão do Romano Pontífice;
c. estudar conjuntamente os problemas que se referem à actividade da Igreja no Mundo (Cân. 342).
Pessoalmente eu fui testemunha da grande importância de tais encontros, tendo participado nas últimas 12 Assembleias Sinodais, algumas gerais e outras especiais.
Agora o Santo Padre quis novamente me convidar para ser membro do Sínodo, para representar o Colégio Cardinalício, outra milenária Instituição eclesial que é igualmente chamada a ajudar o Romano Pontífice em sua missão de Pastor da Igreja universal (cf. Cân. 349).
Certamente, entre nós existem vários Confrades Cardeais, provenientes, sobretudo, da África. Estou feliz de poder aqui representar simbolicamente todos os 185 Cardeais do mundo inteiro, que neste momento nos estão próximos com suas orações e com seus compromissos apostólicos comuns.
2. Todo Sínodo, como todo Consistório, é destinado a ser um momento de intensa comunhão eclesial. Em tal contexto, gostaria de mencionar o Cap. IV de nosso "Instrumentum laboris", onde se fala de pessoas e de instituições católicas chamadas a trabalhar na realidade africana, em favor da reconciliação, da justiça e da paz. Em tal capítulo se ressalta a necessidade de colaboração dos Bispos com as Conferências Episcopais e delas com o Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar. 
É bom lembrar que, em primeiro lugar, existe a necessidade de uma estreita colaboração, com a Sé Apostólica, ou seja, com o Romano Pontífice e seus Colaboradores.
Como é conhecido, em vários países da África existem os Representantes Pontifícios: são 26 generosos Núncios Apostólicos que mantêm contatos com os Bispos do Continente e instauram um diálogo construtivo também com as Autoridades Civis, a fim de favorecer a liberdade da Igreja e contribuir na obra da reconciliação, da justiça e da paz: as três finalidades deste Sínodo.
Recordando aqui a missão dos Representantes Pontifícios, gostaria também de homenagear convosco o falecido Núncio Apostólico Dom Michael Courtney, que foi barbaramente assassinado no Burundi em 29 de dezembro de 2003, enquanto se interessava pela reconciliação entre os diferentes grupos étnicos do país. Infelizmente, ele pagou com o sangue o seu abnegado serviço pela pacificação daquela Região.
3. Justamente por isto, observei com prazer que o tema da reconciliação tem prioridade entre os três grandes temas a serem estudados neste Sínodo: reconciliação, justiça e paz.
Na realidade, hoje vemos claramente a grandeza dos desastres provocados pelo nacionalismo e pela exaltação do conceito de raça. Nós aqui na Europa fizemos uma triste experiência no decorrer dos séculos, até chegar à última guerra mundial, que em cinco anos provocou 55 milhões de mortos! 
Agora devemos todos trabalhar para que tais tragédias do passado não se repitam mais. Como se esquecer que também na África a fúria homicida entre os diferentes grupos étnicos devastou países inteiros? Bastaria pensar em Ruanda e nos Países limítrofes! Em 1994 e nos anos sucessivos a ideologia nacionalista chegou a provocar mais de 800.000 mortos, entre os quais três generosos membros do Episcopado, com outros membros do clero e de várias congregações religiosas.
Acredito que devemos repetir a todos, com mais insistência, que o amor pela própria Nação (em concreto, ao próprio povo, à própria gente) é certamente um dever do cristão, mas devemos também acrescentar que o desvio do nacionalismo é totalmente anti-cristão. Certo, o conceito de Nação é muito nobre. Ele se formou no ambiente cristão, segundo muitos históriadores, visto que na antiguidade prevaleciam mais as pessoas da pequena tribo, por um lado, e do vasto Império do outro. O Cristianismo favoreceu a agregação de pessoas de uma determinada região, dando vida ao conceito de povo ou Nação, com uma específica identidade cultural. O Cristianismo sempre condenou toda deformação de tal conceito de Nação, uma deformação que frequentemente caía no nacionalismo ou absolutamente no racismo, verdadeira negação do universalismo cristão. Na realidade, os dois princípios basilares da convivência humana cristã foram sempre os seguintes: a dignidade de toda pessoa humana, por um lado, e a unidade do género humano, por outro. São os dois confins intransponíveis, sobre os quais podem se desenvolver os vários conceitos de nação, segundo os tempos e lugares. E na realidade vemos hoje na Europa que muitas Nações vão se integrando, com a finalidade de uma convivência mais sólida, e isso com o apóio dos Episcopados locais e também da Sé Apostólica.
4. Concluindo, gostaria de dizer que as atuais 53 Nações africanas terão um grande futuro, no âmbito das 192 Nações que compõem hoje toda a família humana, se souberem superar as divisões e trabalhar juntos pelo progresso material e espiritual de seus povos. Por outro lado, este Sínodo quer demonstrar mais uma vez aos nossos irmãos e irmãs da África que a Igreja está próxima a eles e deseja ajudá-los na missão de serem artífices da reconciliação, da justiça e da paz em todo o Continente.

- S. Em. R. Card. Polycarp PENGO, Arcebispo de Dar-es-Salaam, Presidente do Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar (S.E.C.A.M.) (TANZÂNIA)

O tema deste Sínodo é hoje particularmente urgente para a Igreja africana. A fim de desenvolver e aprofundar tal tema, como nos foi pedido, problemas como o egoísmo, a avidez e a riqueza material, as questões étnicas que desembocam em conflitos e outras instâncias que estão na origem da falta de paz em muitas sociedades africanas, devem ser enfrentados corajosamente e abertamente, e acompanhados por específicas directivas pastorais. As guerras e os conflitos que afligem o nosso continente dividem os nossos povos, semeando uma cultura da violência e destruindo o tecido espiritual, social e moral de nossas sociedades. É triste ter que reconhecer que alguns de nós pastores foram acusados de envolvimento em tais conflitos ou por omissão ou por participação directa. Neste Sínodo devemos ter a coragem de denunciar, até mesmo contra nós mesmos, o abuso de função e da prática de poder, o tribalismo e o etnocentrismo, a formação política dos chefes religiosos etc... A Igreja africana não poderá falar em uma só voz de reconciliação, justiça e paz se no continente é evidente a falta de unidade, de comunhão e de devido respeito em relação ao SECAM por parte dos singulares bispos, mas também das conferências episcopais nacionais e regionais. Precisamos de uma maior comunhão e de uma maior solidariedade pastoral no seio da Igreja africana.
Foi programado que, justamente antes desta segunda Assembleia Especial, o SECAM deveria realizar a sua 15º assembleia plenária em Frascati, sobre o tema “Autonomia: o caminho da Igreja africana”. Infelizmente, e com o nosso embaraço, a assembleia teve que ser cancelada no último momento pela falta de apoio financeiro de muitos membros das Conferências Episcopais - tudo isso enquanto estamos celebrando os 40 anos do SECAM. 
Expresso a minha esperança e oração para que este Sínodo nos ajude a empenharmo-nos mais pelo SECAM!

- S. E. R. Dom Lucas ABADAMLOORA, Bispo de Navrongo-Bolgatanga, Presidente da Conferência Episcopal (GANA)

Geralmente temos papéis políticos e econômicos e devemos contribuir para a educação e os temas de saúde à luz da fé de alguém. Como pessoa, o cristão vem de um distinto ambiente cultural o qual pode ter algumas linhas duras e pode se opor à fé de alguém. Geralmente a pessoa pode encontrar-se em oposição por muitos fatores, os quais o impedem de fazer alguma coisa. É óbvio que o cristão pertence concorrentemente à Igreja e à Sociedade em suas várias dimensões. Como um tipo de membro multifacetado com muitas frentes, ele pode, algumas vezes, encontrar dificuldade em saber o que fazer e qual frente ter de respeitar.
Na primeira Assembleia focamos sobre a Igreja como família universal de Deus. A Assembleia estabelece um número de condições para dar credibilidade a seu testemunho: reconciliação, justiça e paz. Nessa luz tem-se, portanto, recomendado, entre outras coisas: a formação dos cristãos na justiça e na paz, que é uma afirmação do papel profético da Igreja. Isso toca nos seguintes temas: um salário justo para os trabalhadores e o estabelecimento de Comissões “Justiça e Paz”.
Os princípios sublinhados no documento Ecclesia in Africa são muito claros e foram citados por muitas Igrejas particulares como linhas guia para suas reflexões. Mas, particularmente, eles não tocam o fundo do tema. Não é a experiência de muitos Bispos, padres e leigos da África, que viajam para os EUA e Europa e para algumas partes do mundo. Nossa experiência da Igreja na Europa e na América e mesmo de nossos Irmãos Bispos e padres sugere que somos membros de segunda classe da família, ou que pertencemos a um Igreja diferente. A impressão criada é que precisamos deles mas eles não precisam de nós. A teoria da fraternidade e comunidade é forte mas a prática é fraca.
A dinâmica da Igreja que insiste que a Igreja comunidade seja praticamente integrada na teoria e prática de maneira que todos pertençam e se sintam em casa, deve ser continuada da mesma forma neste segundo sínodo. A presente Assembleia Sinodal deve considerar oportuno continuar a dinâmica do precedente Sínodo. Este é o caso no qual não só os sujeitos são discutidos colegialmente mas também a perspectiva cristã é requerida.

Para isto acontecer, alguns sugerem usar o rádio, a palavra impressa e as novas tecnologias de informação e comunicação. Esforços devem ser feitos para receber essa mensagem, que sempre permanece pertinente e a tempo. 

- S. E. R. Dom Fidèle AGBATCHI, Arcebispo de Parakou (BENIN)

Nota-se claramente que a presente Assembleia consiste em uma feliz réplica da de 1994. Se aquela tinha sido concluída pela Exortação pós-sinodal Ecclesia in Africa, esta agora exprime o mesmo tema: A Igreja na África ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz. Esta formulação, por mais positiva que seja, não chega a dissimular as discórdias familiares, as tensões interétnicas de raiz histórica, as guerras e a corrupção em larga escala que prejudicam o Continente. 
Continuando tudo o que de bom tem sido feito a favor deste continente, fazemos votos para que os Padres sinodais, para além dos aspectos práticos abundantemente sublinhados no Instrumentum Laboris, vejam também como fundamentar exegeticamente e teologicamente a reconciliação, a justiça e a paz sobre o único Deus Trindade e sobre a sua obra ao longo da Revelação, desde o Antigo Testamento até ao dia do Filho do Homem. Uma tal acção dos Padres sinodais vai ajudar a África a assumir a sua responsabilidade histórica perante o Evangelho que ela recebeu e ao qual ela tem o dever de se dar, situando-se resolutamente na dinâmica da sua metanoia. Esta responsabilidade vai conduzi-la a libertar-se do medo.
De facto, a África tem medo e vive de medo. Guardando ciosamente para si própria as conclusões das suas descobertas sobre o mundo e sobre a natureza, ela deixa-se evidentemente levar pela desconfiança, pela suspeita, pela atitude de auto-defesa, pela agressão, pelo charlatanismo, pela adivinhação, o ocultismo e o sincretismo, tudo coisas que contribuem para obnubilar a busca do verdadeiro Deus por entre as coisas milenárias. Quantas esperanças portanto confiadas neste continente, mãe de todos, claridade mais radiosa ainda do que a luz de Cristo morto e ressuscitado! Eu desejo a este Sínodo um futuro pascal e, depois de tantos sofrimentos, a ressurreição da África! 

- S. Em. R. Card. Franc RODÉ, C.M., Prefeito da Congregação para os Institutos de vida consagrada e as Sociedades de vida apostólica (CIDADE DO VATICANO)

O Instrumentum laboris, no n. 113, sublinha o “forte crescimento das vocações” religiosas “sinal do dinamismo da Igreja na África” e junto a energia espiritual que provém dos Mosteiros de vida contemplativa.
Os bispos africanos em visita ad limina testemunharam o insubstituível empenho apostólico e missionário dos consagrados, homens e mulheres, que oferecem a própria vida pelo Evangelho. A presença dos consagrados/as é ainda hoje absolutamente predominante, de modo particular no campo da saúde, do ensino e da caridade.
Este empenho louvável não pode não ter em conta os grandes desafios da Igreja na África, antes de mais nada, o discernimento vocacional e a formação inicial e permanente. A vida consagrada na África tem, portanto, necessidade de formadores e formadoras preparados e, junto a esses, de uma comunidade educadora: o testemunho da vida religiosa das Comunidades, a fidelidade aos conselhos evangélicos, às Constituições e ao carisma próprio, representam uma condição indispensável para formar verdadeiros discípulos de Cristo.
Os religiosos e as religiosas africanas, por outro lado, são chamados a viver em plenitude o valor e a beleza dos conselhos evangélicos, em uma cultura na qual é difícil ser testemunha de pobreza, obediência e caridade, vividos livremente e por amor.
As Conferências dos Superiores Maiores em âmbito nacional, e dois organismos se ocupam da animação dos consagrados e das consagradas africanas, e representam um válido instrumento para o diálogo com os Bispos.

- S. E. R. Dom Maroun Elias LAHHAM, Bispo de Tunis (TUNÍSIA)

O tema da minha intervenção são as relações entre Islão e África. O primeiro ponto a salientar é que o Instrumentum laboris fala de Islão em apenas um parágrafo (102), em termos genéricos e que tocam o Islão na África sub-sahariana. Ora, a maioria dos muçulmanos africanos vive na África do Norte, zona geográfica totalmente ausente do Instrumentum laboris. Um outro ponto é que cerca de 80% dos 350 milhões de árabes muçulmanos vivem nos países da África do Norte.
Isto para dizer que as relações islâmico-cristãs na África do Norte são diferentes dessas relações na Europa e na África sub-sahariana, e mesmo nos países árabes do Médio Oriente. Este silêncio sobre as Igrejas da África do Norte, ao falar de África e sobretudo de Islão, surpreende-nos; nós já tínhamos chamado a atenção das instâncias competentes.
A especificidade das relações islâmico-cristãs nas Igrejas da África do Norte pode enriquecer as experiências de diálogo feitas noutros lugares (na Europa ou na África sub-sahariana) e acabar com as reacções de medo e de rejeição em relação ao Islão que se começa a sentir em certos países. Todos nós sabemos que o medo é mau conselheiro.
Em que é que consiste a especificidade da experiência das Igrejas da África do Norte?
- É uma Igreja de encontro. Mesmo se ela não goza de toda a liberdade de que gostaria, não é perseguida.
- É uma Igreja que vive quase 100% em países muçulmanos e onde a grande maioria dos fieis é composta por estrangeiros que não ficam, a maior parte, mais do que alguns anos.
- É uma Igreja que, depois da independência dos países da África do Norte, comprometeu-se muito no serviço humano, social, cultural e educativo dos países que a acolhiam.
- É uma Igreja que goza de um espaço de liberdade bastante amplo para o exercício do culto cristão para os seus milhares de fieis, na Tunísia, por exemplo.
- É uma Igreja que vive em países muçulmanos onde está a nascer um movimento de pensamento crítico em relação ao Islão rigorista e fanático. Há até uma escola «magrebina» de estudo racional de textos e de tradições muçulmanas.
- A presença da Igreja é muito solicitada nesta nova maneira de pensar e de viver o Islão. Esta solicitação é feita a padres e a bispos que passaram muitos anos nos países do Maghreb, e esta solicitação aumentou após a nomeação de bispos árabes para certas sedeS episcopais.
Duas proposições:
- Que o sínodo para o Médio Oriente previsto para Outubro de 2010 envolva também as dioceses da África do Norte, sobretudo no que diz respeito às minorias cristãs e às relações e ao diálogo com o Islão.
- Um colóquio sobre o Islão na África que considere a variedade das experiências africanas, que vão de Túnis a Joanesburgo.

- S. E. R. Dom Simon-Victor TONYÉ BAKOT, Arcebispo de Yaoundé, Presidente da Conferência Episcopal (CAMARÕES)

Os bantos do sul do Camarões atribuem uma importância peculiar à vida em comunidade. Pode-se ser isolados após uma falta grave e procurar reencontrar a comunhão com todos. Este é o sentido do perdão dado ou recebido, depende se se foi ofendido ou se é culpado de uma falta.
Chega-se lá através de um ritual, cujas etapas essenciais são as seguintes: tomar a palavra, a confissão pública, as palavras rituais de concessão do perdão, a reconciliação e a comida comunitária. Isto é o que nós chamamos de cultura da paz e da reconciliação. O grupo do clã sabe restabelecê-la todas as vezes em que a comunidade se encontra em desequilíbrio.
A eucaristia, fonte e apogeu da vida cristã, promete a paz e a reconciliação, mas ainda não alcançou a mesma capacidade de conversão entre os cristãos que dela participam, porque o beijo de paz oferecido durante a missa revela discordâncias bastante grandes entre os fieis. Pode-se até chegar a virar as costas a quem oferece a paz.
Deve-se fazer uma boa catequese apropriada entre os pastores para que compreendam todos os que se tornaram irmãos e irmãs de sangue, já que o mesmo sangue de Cristo tomado na comunhão escorre pelas nossas veias, nós deveríamos compreender que este sangue nos purifica de todas as nossas impurezas e deveria falar mais alto do que a tradição do clã. Infelizmente ainda não é este o caso. Devemos tender para isto cada vez mais. 


- S. Em. R. Card. Zenon GROCHOLEWSKI, Prefeito da Congregação para a Educação Católica (CIDADE DO VATICANO)

Os centros católicos de educação tiveram uma função importantíssima na obra de evangelização e contribuíram muito no desenvolvimento social do continente. Justamente no âmbito do ensino e da educação a Igreja na África tem que enfrentar seu maior desafio. 
a) A educação mais importante é a dos seminaristas. Em relação aos seminaristas, a Congregação para a Educação Católica (CEC) é competente nos territórios das missões somente “naquilo que concerne ao plano geral dos estudos” e não no que se refere à “formação”. Em relação ao ensino nos seminários deve ser ressaltado que já 70 institutos foram afiliados a uma faculdade eclesiástica, e principalmente à Pontifícia Universidade Urbaniana (este é um sexto de todos os seminários afiliados no mundo), que é obrigada a desenvolver um regular controle do ensino. Nesta matéria é preciso se preocupar, de qualquer modo, com a falta, às vezes, de ligação orgânica entre o ensino filosófico, que se realiza muitas vezes num lugar diferente ou se apóia num Instituto não adequado, e o ensino da teologia.
De qualquer forma, os problemas concernentes à formação do clero na África (adequado discernimento, formação espiritual e efectiva, etc) saem da competência da CEC, mesmo se o ensino e a formação sacerdotal são elementos estreitamente ligados entre si. Na perspectiva da formação se deve sobretudo exigir que em toda nação seja elaborado uma apropriada “Ratio institutionis sacerdotalis” (pedido expressamente pelo Concílio: OT, 1) e aprovado pela Autoridade competente da Santa Sé que deveria redigir um adequado regulamento geral como foi pedido pela primeira Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos de 1967. É preciso, além disso, fazer visitas apostólicas regulares e qualificadas e também uma preocupação constante pela formação dos formadores, de modo particular uma sólida formação espiritual daqueles sacerdotes que estudam em Roma, que principalmente se tornarão professores e formadores nos seminários. 
b) Em relação às escolas católicas, a sua experiência na África é significativa: quase 12.500 creches com mais de 1.260.000 alunos; mais 33.250 escolas de ensino fundamental com cerca de 14.000.000 alunos; e quase 10.000 escolas de ensino médio com cerca de 4.000.000 alunos. Esta vasta realidade oferece à Igreja um precioso instrumento de evangelização, de diálogo e de serviço às populações do continente. É importante que estas escolas conservem e reforcem a sua clara identidade católica. Isso exige que a formação dos professores não seja somente profissional, mas também espiritual, para que considerem o seu trabalho como apostolado a ser realizado. 
c) No que concerne os institutos de ensino superior, o número deles nos últimos dez anos multiplicou. Hoje existem 23 Universidades Católicas, 5 Faculdades Teológicas e 3 Faculdades Filosóficas. Todas estas instituições constituem um lugar privilegiado para evangelizar as culturas e formar homens retos, agentes de paz, de reconciliação, testemunhas da fé. Gostaria a propósito de fazer algumas considerações úteis: 
- Gosto de sublinhar o esforço dado pelas faculdades eclesiásticas ao problema da inculturação: ela exige uma aguçada sabedoria evangélica e deve ser enfrentada seriamente à luz do ensinamento da Igreja.
- Em todas as universidades católicas, deve estar presente o pensamento teológico pelo menos com as cátedras de ensino teológico para os leigos, da doutrina social da Igreja, etc.
- Aos tempos modernos se deve atribuir uma particular importância em formar católicos altamente qualificados para os meios de comunicação “são o novo areópago de nosso século”.
- Ocorre também intensificar a pastoral nas universidades estatais.

- S. Em. R. Card. Emmanuel WAMALA, Arcebispo emérito de Kampala (UGANDA)

Fico contente por as Igrejas particulares que estão “elevando um hino de acção de graças pela libertação dos regimes ditatoriais.” O que talvez nós não conseguimos compreender é que um novo tipo de ditadores está substituindo os precedentes. Preferimos chamá-los de ‘meio ditadores’, mas são sempre ditadores.“A cultura de princípios democráticos” mencionada nos textos não é a cultura que eles pretendem cultivar. De fato, eles não acreditam em nenhum princípio democrático sólido. Eles acreditam num princípio e esse princípio é ENGENHARIA POLÍTICA. Em muitos países da África, as políticas existentes são políticas sem Deus. Este é o estilo de liderança que dá origem a conflitos. O cenário político geral no continente da África e em Madagáscar é claramente descrito nas seguintes palavras, n. 23: “Eles (nossos líderes) promovem divisões para poder reinar (e algumas vezes fazer reinar os próprios filhos). Em alguns lugares, o partido no poder tende a identificar-se com o Estado.” Exemplos de situações desse tipo abundam em muitos países da África; e esta é a tendência!
O ministério da Reconciliação que nos foi confiado, como nós lemos em Cor 5, 18, é uma tarefa extremamente desafiadora. Devemos ir às raízes dos conflitos edas guerras. A liderança sem sãos princípios é, segundo o meu ponto de vista, uma das principais.
Como devemos enfrentar este problema? Eu não vejo outro caminho senão a educação. Devemos influenciar as famílias e a escola afim de que compreendam os princípios democráticos fundamentais que encontramos na Doutrina Social da Igreja.
As estruturas existentes na Igreja, começando pela família, Pequenas Comunidades Cristãs, escolas e outras, são alguns dos fóruns nos quais, com prudência, pode ter início a formação de líderes com bons princípios. E é deles que pode ter início a reconciliação entre os grupos de indivíduos e tribos.

- S. E. R. Dom Vincent LANDEL, S.C.I. di Béth., Arcebispo de Rabat, Presidente da Conferência Episcopal Régional do Norte da África (C.E.R.N.A.) (MARROCOS)

Estudantes da África subsaariana no Maghreb: mais de 30.000.
Injustiça
- Descobrem um mundo no qual o Islã é social e no qual praticamente não existe liberdade religiosa para os magrebinos.
- Descobrem a injustiça, ao ver que bolsas de estudo são atribuídas aos mais poderosos e famílias abastadas. 
- Para alguns, a Igreja é a inspiração, e eles são a vida de nossas comunidades cristãs. 
Como a Igreja poderá ajudar estes jovens a reencontrarem-se para refletir sobre seu futuro, sem se deixar desencorajar?
Paz
- Descobrem a mensagem social da Igreja e todo o seu testemunho de paz. 
- A Igreja não deveria realizar sua obra de evangelização a partir do compêndio?
Reconciliação 
- Estudantes e estagiários descobrem o mundo do Islã com o qual devem-se reconciliar; mas, ao mesmo tempo, abrem-se a outros mundos, a outras culturas, a outras religiões. Isto permitirá a reconciliação. 
- Que a Igreja no Magreb os ajude a abrirem-se ao mundo. 
- Que a Igreja na África os ajude a tornarem-se cristãos responsáveis. 

- S. E. R. Dom Jean-Noël DIOUF, Bispo de Tambacounda, Presidente da Conferência Episcopal (SENEGAL)

1. A descrição de uma liturgia de penitência nos países Ndut (Senegal) no passado.
Era concedido o perdão, a reconciliação era celebrada na alegria. Caso contrário, às vezes aplicava-se a pena de morte com o assassínio de um representante da parte adversária.
2. As reflexões dos membros da Conferência Episcopal do Senegal, da Mauritânia, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, em cinco pontos:
Primeiro ponto: reconciliação, justiça e paz exigem humildade, amor e conversão. Noutras palavras, «um coração novo e um espírito novo».
Segundo ponto: cristãos na missa e pagãos na vida. É preciso voltar a ser «discípulos» de Cristo.
Terceiro ponto: o turbilhão da globalização. É necessário resistir, construindo protecções sólidas, como comunidades cristãs e evangelizadas e evangelizadoras.
Quarto ponto: ser «sal e luz» para preservar a África da desagregação e do desânimo: conservar o Evangelho e os valores africanos.
Quinto ponto: um congresso eucarístico para aprofundar os resultados do Sínodo.
3. Recorrer à planejamento pastoral que está a iniciar na África ocidental francófona.

- S. E. R. Dom Giorgio BERTIN, O.F.M., Bispo de Djibouti, Administrador Apostólico "ad nutum Sanctæ Sedis" de Mogadiscio (SOMÁLIA)

Há alguns anos, no aniversário da morte de D. Salvadore Colombo, OFM, Bispo de Mogadíscio, assassinado a 9.7.1989, comecei a recordar na Missa não só a sua memória, mas uma série de outras pessoas que foram assassinadas enquanto estavam ao serviço da justiça, da paz e dos pobres na Somália. Entre eles houve muitos católicos, como a Dra. Fumagalli, Annalena Tonelli e Ir. Leonella; irmãos «protestantes»; muçulmanos somalianos, que são a maioria nesse país muçulmano; houve também outras pessoas que não pertenciam a nenhuma crença. Chamo este 9 de Julho o «dia dos mártires da Somália». Ele serve a recordar-nos que muitas pessoas de convicções diversas sacrificaram a própria vida para obter mais justiça, fraternidade e paz na Somália.
Nós, católicos, não somos os únicos a querer a reconciliação, a justiça e a paz na Somália ou na África. Há muitas outras pessoas e instituições de boa vontade. Há dois domingos, o Evangelho dizia: «Quem não é contra nós é por nós» (Mc 9, 40). Isto significa que temos o dever de colaborar com todos.
Concretamente sugiro-vos alguns pontos não exaustivos, pensando quer na Somália quer na África: 1) fazer memória «juntamente com os outros» das melhores pessoas que serviram ao bem de um determinado povo; 2) ter alguns momentos de oração em comum com os fiéis de outras religiões a favor da paz; 3) deter o tráfico de armas e a livre circulação de criminosos de guerra; 4) convidar a comunidade internacional para uma maior colaboração não só na luta contra a pirataria, mas também na reconstrução do Estado da Somália; 5) colaborar com os muçulmanos de boa vontade a fim de isolar e neutralizar a obra nefasta de grupos islâmicos radicais que são a causa de problemas primeiramente para os próprios muçulmanos e depois para os outros; 6) apoiar e desenvolver a acção da Santa Sé e dos seus diplomatas.

- S. E. R. Dom Michael Dixon BHASERA, Bispo de Masvingo (ZIMBÁBUE)

Os nossos fiéis cristãos são unidos por uma evidente cultura comum, que se manifesta em um grande número de variáveis. Tal herança cultural, que nos confere identidade, corre hoje o risco de extinção, devido a eventos históricos, a processos naturais e projectos humanos. A Igreja-Família de Deus na África não poderá jamais ser autêntica se a sua base cultural, que é rica e pode ser empregada para resolver tantos problemas, for corroída. Os desafios que devemos enfrentar são determinados pelo processo de globalização, mas também por factores locais: um conjunto de problemas complexos criados pelo homem, como a corrupção, a avidez, a opressão e o totalitarismo. Nutrimos a esperança de que este Sínodo enfrente tais temas de modo adequado. 
A nossa força provém do relacionamento que instauramos com Cristo. Esta relação é alimentada mediante os sacramentos, de modo especial, o Sacramento da Eucaristia, no qual somos plasmados na família de Deus e cada um de nós tem o dever de ser agente de reconciliação, de salvação, de justiça e de paz. 
A idéia de relacionamentos agrada à África, pois nasce do coração de suas culturas. Participando dos sacramentos, sentimo-nos vinculados a um ÚNICO SANGUE, o Sangue de Cristo. O vínculo sacramental pode ser mais forte do que o biológico, que une as famílias; isto ressalta os valores da família africana como a solidariedade, a partilha, o respeito, a hospitalidade, o estar juntos e a reconciliação através da justiça reparadora. 
A Igreja-Família torna-se sinal visível, verdadeiro instrumento de justiça, de paz e de reconciliação quando é compreendida e vivida de modo correto. Depois do turbamento, a reconciliação genuína se expressa na restituição e na reparação. 
Alguns africanos recorrem às seitas ou à bruxaria quando devem enfrentar dificuldades. É doloroso também ver os católicos a rebelar-se contra seus próprios irmãos católicos em conflitos políticos, sociais, económicos e regionais. O problema é o escasso conhecimento do significado de Igreja como Família (de Deus). Esta Catequese deveria iniciar-se nas famílias e prosseguir nas nossas instituições educativas, médicas, de desenvolvimento social e de formação. Quando os fiéis compreenderão o significado de “quem somos”, poderão começar a orientar-se ao diálogo ecuménico e promover a reconciliação, a justiça e a paz. 

- S. E. R. Dom Sithembele Anton SIPUKA, Bispo de Umtata (ÁFRICA DO SUL)

Após várias décadas de conflitos e de tensões, os sul-africanos conseguiram negociar uma solução pacífica para seus problemas políticos em âmbito nacional e criaram estruturas e políticas democráticas que atuam em favor da paz. O problema é que tais princípios de democracia ainda não se enraizaram. Enquanto o país se transformou legal e politicamente, a nível humano nos relacionamentos cotidianos, as pessoas ainda se comportam segundo o antigo sistema, sentem-se diversas ou até mesmo inimigas entre si.
Isto demonstra que é mais fácil alterar as estruturas exteriores do que a mentalidade, e somente quando ambas mudarem, a democracia poderá ser apreciada e apoiada na África do Sul. A Igreja, cujo objectivo principal de evangelização é a transformação dos corações, pode oferecer uma contribuição importante neste sentido. 

- S. E. R. Dom Jean MBARGA, Bispo de Ebolowa (CAMARÕES)

Para o presente Sínodo, a Igreja-Família de Deus na África tem a missão de contribuir para a reconstrução de uma África ameaçada por inúmeras crises mas que são também ricas de potencialidades, renovando a sua pastoral com base numa eclesiologia de abertura aos desafios da sociedade: qual África para a Igreja? Qual Igreja para a África?
Nas suas diversas dimensões, esta missão consiste em extinguir os conflitos, reconstruir a África baseada no Evangelho e na fé, de modo que:
- onde a fé cristã esmorece ou não existe, as comunidades eclesiais testemunhem a vida evangélica, a prática eclesial e o empenho social;
- onde a cultura combate entre a tradição e a globalização, a Igreja inspire obras culturais humanizantes que difundam valores autênticos dignos do homem;
- onde o Estado explora o povo, as comunidades eclesiais se empenhem a favor da democracia e da boa gestão de bens e pessoas, da cultura da gratuidade e do dom;
onde persistem guerras e rebeliões, haja uma mobilização de todos pela paz.
A fim de ser sinal e instrumento desses valores, a Igreja-Família que está ao serviço portanto será uma Igreja que vive na paz e pode oferecer a paz, que se evangeliza e que evangeliza a sociedade.
- Será uma Igreja mãe e educadora, que doa à África uma carta de valores;
- Uma Igreja advogada e profética, que promove políticas, legislações e estruturas sociais iluminadas por um humanismo africano e cristão;
- Uma Igreja mediadora, que reconcilia as partes em contraste, trabalha pela prevenção dos conflitos e anima constantemente o diálogo social;
- Uma Igreja mobilizadora, que promove um apostolado associativo militante e uma liderança dos fiéis leigos, um clero e pessoas consagradas formadas para a sociedade actual; 
- Uma Igreja comunicadora, que produz, com as novas tecnologias, obras que difundem uma cultura africana e cristã;
- Uma Igreja que age através das obras sociais e programas pastorais adequados, que promovem a saúde, a educação e o trabalho produtivo.
Este Sínodo pode propor a criação de missões ou comissões mais específicas que esclareçam e intensifiquem a eclesiologia e a pastoral de abertura aos desafios da sociedade actual.

- S. E. R. Dom Thomas KABORÉ, Bispo de Kaya (BURKINA FASO)

A educação à justiça e à paz é uma missão essencial da Igreja-Família de Deus. Os filhos de Deus são artífices da paz: “felizes os construtores de paz porque serão chamados filhos de Deus” - proclama o Senhor Jesus. Se a Igreja que está na África é Família de Deus, é um lugar de reconciliação, de justiça e de paz. 
Num continente tão dilacerado por conflitos e lutas, Deus convida-nos a ser Igreja-Família, lugar de reconciliação, de justiça e de paz. Por isso, os Padres do primeiro sínodo para a África “reconheceram imediatamente que a Igreja-Família só poderá oferecer plenamente a sua medida de Igreja, se se ramificar em comunidades suficientemente pequenas para permitir estreitas relações humanas... Sobretudo, procurar-se-á viver nelas o amor universal de Cristo, que transcende as barreiras e as alianças naturais dos clãs, das tribos ou de outros grupos de interesses” [Ecclesia in Africa § 89].Para assumirmos essa missão, devemos trabalhar para transformar as nossas Comunidades Cristãs de Base (CCB). Elas devem tornar-se verdadeiras famílias; o que significa conversão, “a atenção pelo outro, a solidariedade, as calorosas relações de acolhimento, de diálogo e de mútua confiança”[Ecclesia in Africa § 63]. Nós chamamos estas Pequenas Comunidades de Comunidades-famílias. Elas doam à Igreja sua imagem e sua realidade de família, fazendo dela um lugar de reconciliação. 
O trabalho fundamental para alcançar a edificação da família deve ser, antes de tudo, a Evangelização. O primeiro objectivo das Comunidades-famílias é ser Escolas de Evangelização. É necessário que toda a Igreja se torne uma comunhão de comunidades-famílias, que toda a Igreja seja evangelizada; isto é, interiormente renovada, até tornar-se uma nova humanidade. Isto requer que seus pastores sejam pregadores itinerantes da Boa Nova, indo de comunidade em comunidade. 
A Evangelização será mais uma questão de testemunho do que de método ou técnica: “Um verdadeiro testemunho por parte de quem crê é, hoje, essencial na África, para proclamar de forma autêntica a fé. De modo particular, é preciso que eles ofereçam o testemunho de um amor recíproco sincero.” [Ecclesia in Africa § 77].
Portanto, edificar a Igreja-Família de Deus significa suscitar Comunidades-Famílias que sejam verdadeiras famílias de Deus, lugares de integração entre cristãos de diferentes etnias, religiões e condições sociais. 

[©Libreria Editrice Vaticana]


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