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ZP09101202 - 12-10-2009
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Sínodo para a África: nona Congregação Geral


Tarde de sexta-feira, 9 de outubro


CIDADE DO VATICANO, domingo, 12 de outubro de 2009 (ZENIT.org).- Oferecemos a seguir os resumos das intervenções da nona Congregação Geral da assembleia do Sínodo para a África, realizada na tarde de sexta-feira, 9 de outubro. 

* * *

- S. Em. R. Card. Leonardo SANDRI, Prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais (CIDADE DO VATICANO)

Dou graças ao Senhor que nos consente aproximarmo-nos da Igreja de Deus que está na África. Na sua singular variedade eclesial, a África inclui a Igreja patriarcal de Alexandria dos Coptas católicos e a Igreja Alexandrina Católica de rito ge’ez da Etiópia e da Eritreia. O Egipto, juntamente com a Igreja latina, alegra-se pela presença das comunidades arménia, caldeia, greco-melquita, maronita e síria. Dirijo a minha saudação aos irmãos orientais aqui presentes, e estendo-a a todos os pastores latinos e orientais da África, espiritualmente unidos a esta assembleia, a começar por Sua Beatitude Antonios Naguib, Patriarca de Alexandria dos Coptas Católicos: agradeço-lhes as inumeráveis obras apostólicas. É uma Igreja em expansão. A importância social da sua missão religiosa mede-se na fidelidade ao que lhe é peculiar: salvar totalmente o homem, cuja vocação é ultraterrena. O primeiro impulso por parte dos bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e fiéis é promover a reconciliação graças à conversão pessoal para que Deus continue a cumprir também na África a «divinização» de todos e de tudo mencionada pelos Padres gregos. O Sínodo pretende repropor o «serviço da reconciliação, da justiça e da paz». A proposta é urgente. A sua eficácia, contudo, medir-se-á sempre a partir da irrenunciável visão teológica e pastoral que a acompanhará. Sem algum temor as Igrejas na África, sentindo-se em comunhão com o Sucessor de Pedro e com a Igreja universal, continuem a confessar o santo nome de Cristo Deus, a obra de salvação que ele realizou uma vez por todas e cuja graça reflui sobre nós perenemente, testemunham que o verdadeiro nome da reconciliação, da justiça e da paz coincide com o nome de Jesus Cristo, o Crucificado Ressuscitado, doador de Espírito, Pedra angular e Esposo da Igreja. Só numa forte consciência cristológica e eclesiológica a reflexão sinodal poderá proceder proficuamente. Sem nunca renunciar a ela, deverão ser dados os passos possíveis para redesenhar as estratégias ecuménicas e inter-religiosas mais em conformidade com o progresso espiritual e social da África. Diversa é a situação em relação à do Sínodo de 1994, mas permanecem graves problemas do passado. É importantíssimo que os cristãos da África, pastores e fiéis, tenham consciência de que a África derramou muito sangue, suor e lágrimas, no testemunho da fé, esperança e amor, que é como dizer em resposta à santidade. Gostaria de realçar uma particularidade etíope/eritreia: entre os santos enumerados no § 36 do Instrumentum laboris não aparece Justino De Jacobis (1800-1860), o Lazarista que entendeu a importância da liturgia ge’ez para o cristianismo do Corno de África e se «inculturou» (cf. § 73) . De facto, a África não se deve cansar de trabalhar para uma adequada inculturação da mensagem cristã. A exortação apostólica Orientale lumen apresentou as Igrejas orientais como «exemplo competente» de «êxito de inculturação» (cf. N. 7). Uma sadia e equilibrada relação entre a «Religião e Tradição africana» consentirá à Igreja, juntamente com a comunidade civil, curar as chagas da África. Saúde, educação, desenvolvimento socioeconómico, tutela dos direitos humanos, cura da ferida do tribalismo, luta à emigração com programas económicos in loco que limitem a fuga dos jovens (§§ 25 e 65); exploração e neocolonialismo (§§ 12, 64,72 e 140), analfabetismo (§ 31), corrupção (§ 57), situação de sujeição das mulheres, exigem respostas de caridade operosa e formação integral (cf. §§ 54, 60, 85, 93, 97, 111, 116, 123, 126-128, 129 e 133-136). São necessárias a convivência e a colaboração sincera entre todos os católicos dos vários ritos. Sem este entendimento encerrar-se-á o diálogo ecuménico, que dá força aos cristãos na defesa da liberdade pessoal e comunitária e na profissão pública na fé, permitindo à Igreja ser livre e missionária e à África ser uma «sociedade plural». Longe de constituir um obstáculo para a unidade, inseridas como estão na situação e na mentalidade locais, as Igrejas católicas orientais podem «construir pontes» (cf. § 90) na perspectiva da reconciliação, da justiça e da paz e do encontro com o Islão já em acto em diversos países. Este é também o meu desejo, enquanto com as comunidades da Etiópia e Eritreia enalteço a importância simbólica desse «pedaço de terra africana» dentro dos muros do Vaticano: a Igreja de Santo Estêvão dos Abissínios e o Pontifício Colégio Etiópico. Vejo nelas uma imagem da Igreja que, terminado o Sínodo, se lança com força e esperança nos caminhos da reconciliação, da esperança e da paz na África, sentindo-se com alegria «sub umbra Petri». 

- S. E. R. Dom Jean-Pierre BASSÈNE, Bispo de Kolda, Presidente para a Fundação João Paulo II para o Sahel (SENEGAL)

Os países membros da Fundação João Paulo II para o Sahel são nove: Burquina Faso, Cabo Verde, Gâmbia, Guiné-Bissau, Mali, Mauritânia, Níger, Senegal e Chade.
A Fundação, instituída em 1984, celebra hoje 25 anos de vida. O seu objectivo é favorecer a formação de pessoas que se dediquem a servir o seu próprio país e seus próprios irmãos, sem nenhuma discriminação, num espírito de promoção humana integral e solidária, para lutar contra a desertificação e as suas consequências. 
Surgida devido à preocupação com o bem estar e o desenvolvimento das populações do Sahel, a Fundação João Paulo II iniciou rapidamente a actuar em favor da ecologia e da salvaguarda do meio ambiente. Com a sua actividade, está a contribuir com a administração mais racional dos recursos naturais e a participar do combate à pobreza. 
Como obra da Igreja, a Fundação João Paulo II ajuda, através do financiamento de projectos, os Estados, as associações, os grupos ou as cooperativas da área do Sahel, qualquer que seja a pertença religiosa ou confissional dos seus promotores. Desta forma, a obra contribui de modo eficaz com a cultura da paz e da reconciliação entre os povos. 
A Fundação João Paulo II conta sempre com a ajuda fraterna do exterior, para levar adiante a sua missão. Todavia, move-se na plena convicção de suscitar nos habitantes do Sahel o espírito de co-responsabilidade e de solidariedade. 
As respostas positivas recebidas, autorizam a esperar que, paralelamente à luta contra a desertificação, no coração dos residentes do Sahel esteja a radicar-se a autêntica civilização do amor inspirado no Evangelho.

- S. E. R. Dom Henryk HOSER, S.A.C., Arcebispo-Bispo de Warszawa-Praga (POLÔNIA)

A educação para os valores familiares é uma necessidade urgente no mundo e, de modo particular, na África, num momento em que as crescentes pressões externas remetem o exercício da paternidade e da maternidade responsáveis à esfera puramente médica ou clínica, negando a dupla natureza, espiritual e sensível, do amor conjugal. A pastoral familiar e, em especial, a transmissão da vida foram quase entregues à medicina e à técnica.
Já existem alguns programas: 26 países africanos beneficiam-se de programas de educação à vida familiar e de planejamento natural (EVF e PFN ) ao estado embrionário ou estruturado. Contudo, são demasiados fracos para progredir individualmente. A Federação africana de Acção familiar, fundada em Cotonou em 2001 organiza, a pedido dos bispos, encontros de formação para os educadores e os casais.
O Sínodo precedente considerava «a evangelização da família africana como uma das maiores prioridades, se se quiser que ela assuma por sua vez o papel de sujeito activo na perspectiva da evangelização das famílias através das famílias» 

- S. Em. R. Card. Bernard AGRÉ, Arcebispo emérito de Abidjan (COSTA DO MARFIM)

Como todos os países organizados, as jovens nações da África tiveram que recorrer aos bancos internacionais e a outros organismos financeiros para realizar os numerosos projectos dirigidos ao próprio desenvolvimento. Com frequência, os dirigentes incapazes não deram atenção suficiente e caíram nas armadilhas de homens e mulheres que os especialistas chamam «os assassinos financeiros», os chacais patrocinados pelos organismos habituados aos contratos desleais destinados a enriquecer as organizações financeiras internacionais apoiadas habilmente pelos seus Estados ou por outras organizações imersas na conspiração do silêncio e da mentira.
Os lucros extraordinários vão aos assassinos financeiros, às multinacionais, assim como a alguns cidadãos de um país que serve como filtro para os negócios estrangeiros. Assim a maior parte das nações continua a deteriorar-se na pobreza e nas frustrações que ela gera.
Os «assassinos financeiros», portadores de financiamentos excessivos, põem-se de acordo com os seus interlocutores locais para que as enormes quantias emprestadas com o sistema dos juros compostos nunca possam ser reembolsados depressa e integralmente. Os contratos de execução e de manutenção são devolvidos habitualmente, sob forma de monopólio, aos representantes dos credores. Os países beneficiários hipotecam os próprios recursos naturais. Os habitantes, por gerações, permanecem acorrentados, prisioneiros por longos anos.
Para reembolsar essas dívidas inextinguíveis, sempre ameaçadoras, como a espada de Dâmocles sobre a cabeça dos Estados, «a voz da dívida» incide pesadamente no balanço estatal, na ordem de 40-50% do produto interno bruto.
Vinculado deste modo, o país respira mal, deve apertar o cinto diante dos investimentos, das despesas necessárias para a instrução, a saúde, o desenvolvimento em geral.
A dívida torna-se ela mesma um filtro político por não satisfazer as legítimas reivindicações, com a sequela de frustrações, desordens sociais, etc... A dívida nacional parece uma doença programada por especialistas dignos dos tribunais que julgam os crimes contra a humanidade, a conspiração maligna para sufocar inteiras populações. John Perkins (Edições «Al Terre») descreveu bem os bastidores de uma ajuda internacional jamais eficaz em termos de desenvolvimento duradouro. O problema-chave dos nossos dias é o desejo, a vontade de abolir todas as formas de escravidão. As novas gerações, os jovens nalguns países desenvolvidos e do terceiro mundo, tomam consciência de que mudar o mundo, os seus mitos e os seus fantasmas, é um projecto realista e possível. Nascem das Ongs para proteger o ambiente material e defender os direitos dos povos oprimidos.Luz do mundo, a Igreja, para revestir o seu papel profético, deveria empenhar-se concretamente nesta luta pela verdade.
Os peritos sabem que há anos a maior parte das dívidas foi efectivamente reembolsada. Suprimi-las pura e simplesmente já não é um acto de caridade mas de justiça. Assim o actual Sínodo deveria considerar este problema de revogação das dívidas que incidem de maneira demasiada grave sobre algumas populações.
Para que tudo isso não seja simplesmente um ataque de sentimento, a minha proposta seria para que uma comissão internacional, composta por peritos da alta finança, pastores informados, homens e mulheres do Norte e do Sul, se ocupasse de modo resolutivo do problema. A tal comissão seria confiada a tripla missão de:
- estudar a viabilidade da operação;
- tomar todas as providências para evitar recair nas mesmas situações;
- vigiar concretamente o uso transparente das somas tão economizadas, para que elas favoreçam efectivamente todos os elementos da pirâmide social: camponeses e cidadãos. Evitar que as recaídas deste abundante maná do século beneficiem sempre os mesmos locais e estrangeiros. 

- Rev. Pierre Noël NIAVA, Capeláo Nacional dos Militares (COSTA DO MARFIM)

No contexto da busca de uma solução para a crise na Costa do Marfim, foram organizados vários encontros sob a égide da comunidade económica da África Ocidental e da comunidade internacional. Outros encontros foram também organizados pelas forças beligerantes. 
No dia 4 de Março de 2007, foram assinados os novos acordos de Uagadugu (Burquina Faso). As duas forças beligerantes iniciaram um diálogo directo. Desde então, o processo registrou um grande progresso e teve muitos efeitos positivos, como o desarmamento, a desmobilização dos ex-combatentes, a integração dos rebeldes no exército, a extinção da zona de segurança, etc., mas principalmente, foi estabelecida a data das próximas eleições presidenciais, a realizar-se no dia 29 de Novembro. 
A Conferência episcopal trabalhou muito pela reconciliação. Os bispos mantiveram vários encontros com os líderes políticos e com as forças beligerantes, para tentar levá-los à razão. Além disso, desde o início da crise, dirigiram diversas mensagens à população. Nós citaremos apenas quatro (4), com seus conceitos principais: 
1° mensagem: apelo à calma. Trata-se de um apelo a cessar os protestos populares e os actos de vandalismo, a por fim à paralisação dos serviços públicos e às passeatas infinitas. Todos devem manter a calma e trabalhar para o retorno da paz. 
2° mensagem: apelo à consciência. Os bispos convidam todos os marfinenses a conscientizarem-se de que o país deve ainda ser construído. Logo, é preciso evitar erros e mentiras, para evitar a catástrofe no país. 
3° mensagem: exortação aos habitantes da Costa do Marfim e à Comunidade internacional. Os bispos conclamam os marfinenses a evitar o ódio, a vingança e a mentira, e a esforçarem-se em viver no amor, na justiça, na verdade e na confiança recíproca. Igualmente, exortam a comunidade internacional a agir com sinceridade na sua participação na busca da paz. 
4° mensagem: mensagem de reconciliação e paz. Cito as palavras dos bispos: “Hoje, a paz é possível e está ao nosso alcance... Não é mais hora de acusações e condenações. Ao manchar este país com o sangue humano, erramos, agimos mal. Devemos pedir sincera e humildemente perdão a Deus por uns e por outros. Por isso, propomos que seja organizado um dia nacional de luto, de jejum, de oração, sem distinção de religiões e de fé. Todos nós devemos, na tradição autêntica africana e religiosa do temor a Deus e do respeito pela vida, pedir perdão pelo sangue humano derramado”.

- S. E. R. Dom Denis Komivi AMUZU-DZAKPAH, Arcebispo de Lomé (TOGO)

O Capítulo II do Instrumentum laboris nos leva ao centro da problemática da reconciliação, da justiça e da paz, que representam uma verdadeira urgência para a África. Não é necessário precisar que a este imponente trinómio se deve acrescentar a verdade.
A exigência da fidelidade ao Senhor convida-nos, a sermos seus discípulos, a sermos embaixadores da reconciliação, entendida como dom de Deus e anúncio da salvação que Ele nos doa já hoje (cfr. 2 Cor 5, 11-12). A realização de uma tal missão será avaliada com o tempo e exige um certo número de condições que deveremos ter presente durante todos os nossos trabalhos:
1. A elaboração de um projecto realístico de educação à cultura da paz para todas as nossas estruturas educativas e formativas na África.
2. A criação de um arquivo para a coleta de dados sociocultuais e económicos, capaz de ajudar na promoção da reconciliação, da justiça e da paz no amor e na verdade.
3. A criação de um observatório para a prevenção, a gestão e a resolução dos conflitos, envolvendo ainda mais a Igreja-Família de Deus na África.
4. Assegurar uma difusão muito vasta e atenta da Doutrina Social da Igreja, penhor da criação de uma nova ordem sociocultural, económica e política mais justa, mais humana e mais fraterna; capaz de favorecer a instauração na África do Reino de Deus; Reino de justiça, de reconciliação, de verdade, de amor e de paz.
5. É evidente que a Bíblia, Palavra de Deus, neste sentido deve ser apresentada em todos os lugares como fonte inesgotável de reconciliação, de justiça e de paz; acolhida e vivida com coerência, pode tornar-se o instrumento mais seguro e eficaz para instaurar o Reino de Deus na África e no mundo.
Nesta ótica, a Conferência dos bispos do Togo teria desejado que o tema da nossa segunda Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos fosse assim formulado: “A Igreja- Família de Deus na África, ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz”.
Mas isso não é nada de grave, pois nós nos entendemos muito bem, também com palavras “subentendidas”.

- S. E. R. Dom Ignatius CHAMA, Bispo de Mpika (ZÂMBIA)

Gostaria de destacar aqui a crise económica local que eu e o meu povo vivemos na nossa diocese rural no Nordeste do Zâmbia. É crise, quando as colheitas semeadas pelos nossos incansáveis agricultores não conseguem chegar aos mercados ou obter o justo preço. É crise, quando investidores estrangeiros abastecem os seus supermercados com alimentos importados do estrangeiro. É a crise causada por práticas comerciais, seja internas que internacionais, o que significa que mercadorias subvencionadas importadas da Europa limitam a concorrência leal com as mercadorias locais.
Além do mais, no Zâmbia hoje as nossas áreas rurais devem também enfrentar a propaganda destinada a converter-se em um modelo de agricultura projectada geneticamente, coisa justamente criticada no n.58 do Instrumentum laboris.
Estas dinâmicas desleais são sinal da mais profunda divisão urbano-rural que ameaça no seu complexo o desenvolvimento integral e sustentável do Zâmbia hoje. O nosso mesmo Governo nos diz que enquanto a pobreza urbana nos últimos anos diminuiu, a pobreza nas áreas rurais aumentou de modo considerável.
Mas o que pode fazer um Sínodo diante de tudo isso? Quero recordar simplesmente aos meus irmãos bispos que foi o Sínodo de 1994 a acolher um semelhante pedido de justiça económica, no apelo para que o Sínodo apoiasse a Campanha do Jubileu para o cancelamento das dívidas dos Países africanos em guerra. A Igreja ouviu o apelo e falou a favor do cancelamento da dívida, que se tornou, no Zâmbia e em outros lugares, um importante passo na direcção da humanização da ordem económica. Hoje temos um semelhante apelo em prol da justiça, por exemplo, enfrentando questões de política comercial como os Acordos de parceria económica (Epa) entre a África e a Europa e preocupações ambientais como o aquecimento global.
Portanto, peço à nossa Assembleia que apoie os apelos por uma ordem económica mais justa que salvaguarde os direitos e o futuro das nossas populações rurais.

- S. E. R. Dom Benedito Beni DOS SANTOS, Bispo de Lorena (BRASIL)

O tema desta Assembleia Sinodal “A Igreja na África ao Serviço da Reconciliação, da Justiça e da Paz” diz respeito, de certo modo, ao Brasil. Por causa de um passado marcado pela injustiça com relação aos que viram da Africa para o Brasil.
Precisamos de uma "purificação da memoria" expressa por atos concretos sobretudo no campo da educação, do trabalho e da política. Algumas medidas governamentais têm sido tomadas nesse sentido. Elas precisam ser aprofundadas e ampliadas.
No campo eclesial, temos a pastoral afro, organizada em nível nacional pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
Ainda no campo eclesial, existe uma sensibilidade especial para com a imagem da Igreja "Família de Deus". Isso nos aproxima da experiência eclesial da Igreja na África. Essa imagem da Igreja fala não só à nossa inteligência, mas também à nossa afectividade, ao nosso coração e à nossa imaginação.
Essa compreensão da Igreja possui uma centralidade eucarística e uma dimensão trinitaria. De fato, a Eucaristia e a Ceia que o Pai preparou para a sua Família, que é a Igreja. É na celebração da Eucaristia sobretudo que a Igreja se percebe como "Família de Deus". Por sua vez, o pão e o vinho se tornam o alimento eucarístico pelo poder do Espírito Santo, invocado na epiclese.
Por todos esses fatos que acabei de citar, creio que os frutos desta Assembleia Sinodal alimentarão a vida e a missão da Igreja não só na África, mas também no Brasil. Este Sínodo ajudará a dar novo impulso à colaboração missionária que a Igreja no Brasil vem prestando a diversas dioceses da África.

- S. E. R. Dom Peter J. KAIRO, Arcebispo de Nyeri (QUÊNIA)

Os nómades vivem e são activos há séculos, em 52 dioceses dos países da AMECEA; estão presentes também na África Ocidental e no Norte da África. Por vezes, causaram e deram início a conflitos armados por causa da carência de água e de pastagens, principalmente durante os períodos de estiagem. 
A Igreja deve promover o diálogo entre estas tribos, nas quais o papel dos idosos é muito importante, pois os guerreiros não podem fazer incursões sem receber a sua bênção. 
O governo precisa esforçar-se em realizar poços e digas nas áreas secas. Centros de saúde e estruturas de ensino deveriam ser incrementadas e disponibilizadas entre os pastores. A comissão Justiça e Paz deve fornecer aos povos nómades educação sobre os direitos humanos. Os pais deveriam ser encorajados a educar suas filhas. 
Nas paróquias destas áreas, é extremamente difícil para o sacerdote dedicar uma adequada atenção pastoral aos seus fiéis. Ao mesmo tempo, os nómades errantes carecem das actividades paroquiais tradicionais. É necessário que a Igreja exerça novas formas de evangelização e de atenção pastoral para a população nómade, que sejam ordenados sacerdotes nómades, e nomeados coordenadores pastorais nómades e catequistas nómades; que sejam promovidas escolas nómades, assistência médica para os pastores e centros eclesiais móveis. 
Propomos também que as estruturas supra-diocesanas da nossa Igreja Católica e nas relações além-fronteira haja empenho ao implantar iniciativas de paz em ambos os lados dos confins e fora do território das nossas dioceses. Também podem ser úteis os encontros regulares entre o coordenador pastoral do apostolado dos nómades das dioceses e os países fronteiriços, assim como a adopção de estratégias comuns que demonstrem a solidariedade humana e a unidade cristã. 

- S. E. R. Dom Boniface LELE, Arcebispo de Mombasa (QUÊNIA)

O estigma associado à SIDA é pesado demais para que as pessoas, como indivíduos e como comunidade, possam carregá-lo sozinhos. Eu vi o medo e o desespero nos olhos da nossa gente. As pessoas deveriam encontrar em nós coragem e esperança. Ouvem dos seus líderes religiosos, da sua família, que de qualquer modo são elas mesmas as responsáveis pela doença. Devemos ajudar a nossa gente a compreender que o Vih/SIDA é uma doença e que é errado dar a culpa a si mesmo. Talvez não foram prudentes no seu estilo de vida, mas a doença nos convida à compaixão.
Eu vi famílias distanciarem a nora e as crianças por causa de uma suspeita da doença. A rejeição às crianças por parte da família é abominável. É um pecado grave aos olhos de Deus. É uma distorção da mensagem evangélica de Jesus, que é amor, perdão, reconciliação, retorno à família de Deus.
Devemos estar próximos dos nossos jovens e dos nossos anciãos para ajudá-los a evitar a contrair a SIDA/VIH. Devemos ajudar as famílias a compreender que as crianças que são deixadas sem amor e a guia dos pais, são muito mais expostas ao contágio em relação àquelas que têm o apoio da família.
A SIDA/VIH é um kairós que nos desafia a revelar o quanto são profundos alguns de nossos pecados. Havia uma homem que estava morrendo de SIDA e eu tive a honra de estar ao seu lado nos últimos dias. Eu o observei lutar com as suas escolhas de vida e com a vergonha por causa da doença, o estigma que a sociedade lhe havia imposto. Eu comecei a compreender a minha humanidade e a minha condição de pecador quando levantou a mão para tocar a cruz que eu carregava. Eu percebi a aceitação de si e o perdão de Deus e a sua salvação. Foi naquele momento que ele me pediu para que eu cuidasse dos seus filhos, porque ele não podia mais fazer. Eu senti a sua confiança em mim como irmão e Pastor. Deus me desafiou a aceitar mim mesmo, a se reconciliar comigo mesmo.

AUDITIO DELEGATORUM FRATERNORUM (II)

Sucessivamente, interveio o seguinte Delegado fraterno:

- Sua Excelência Barnaba EL SORYANY, Bispo da Igreja Copta Ortodoxa na Itália

A África traz-nos à mente queridas lembranças desde o momento em que lá chegou o nosso pai Abraão e, sucessivamente, Jacob e os seus filhos para viver no Egipto, a terra na qual nasceu e cresceu Moisés e da qual ele, pelas mãos de Deus, libertou o povo de Israel. A querida terra que recebeu a Sagrada Família em fuga da perseguição. O Egipto de São Marcos e da sua evangelização dos povos. O país onde nasceu o monaquismo por obra de Santo António Abade. Santo Atanásio e São Cirilo, o grande, e tantos santos e mártires que sacrificaram a própria vida em defesa da nossa fé cristã.
Todos sabemos que este continente sofreu muito desde o colonialismo que explorou os recursos naturais e não cuidou das populações, que foram deixadas na pobreza, na doença, na fome e na degradação total. Para não falar depois das guerras que ensanguentaram e continuam a devastar a nossa amada África; a exploração das crianças-soldado, as perseguições e as violências quotidianas no âmbito social, a destruição dos valores familiares.
Aqui entra a tarefa da Igreja na evangelização através da cultura da caridade, da promoção da paz e do amor que se concretiza no cuidado dos doentes, na ajuda aos pobres, na defesa dos oprimidos, enfim, no alívio do ser humano. De importância fundamental é o cuidado pelo culto, pela catequese às crianças e às suas famílias para que se sintam acolhidas numa única família em Cristo.
Vamos, irmãos! Completemos o caminho dos apóstolos, aqueles que foram pelo mundo a evangelizar sem nada possuir mas cheios de fé na obra do Espírito Santo. Vamos levar a mensagem viva de Jesus a todos os países que vivem na necessidade e na pobreza mas são ricos espiritualmente com a graça de Jesus.
Unamo-nos todos em oração para o cumprimento da obra de Deus no serviço a estes países, fortes na paciência e na esperança de que o amanhã será melhor que hoje e o mundo ouça a voz daqueles que sofrem a fim de que a Providência divina pouse a mão sobre eles.
Vamos! Deixemos as muitas dificuldades de lado e olhemos para o aspecto mais importante que é a construção do reino de Deus neste continente, anunciar a palavra de Deus a cada um, esta é a nossa tarefa.
Os meus votos são por um bom êxito deste Santo Sínodo para que possa ter uma grande ressonância no mundo de modo que os trabalhos nele produzidos se possam realizar. 
[00160-06.03] [DF003] [Texto original: italiano]

AUDITIO AUDITORUM (II)

Publicamos a seguir as sínteses das intervenções dos Auditores e Auditoras:

- Sr. Laurien NTEZIMANA, Licenciado em Teologia, Diocese de Butare (RUANDA)

Ilustro-vos brevemente a minha aventura de teólogo leigo à procura de uma espiritualidade que faça jus à “indoles saecularis”, a “marca da secularidade” que faz do leigo um filho da Igreja que vive no coração do mundo para transformá-lo a partir de seu interior, como fermento, sal, sopro e luz. 
Em 1990, ao concluir o meu terceiro ciclo de estudos teológicos na Katholieke Universiteit te Leuven, escrevi um livro, que foi publicado oito anos depois, pela casa editora Karthala, com o título “Libres paroles d’un théologien rwandais: joyeux propos de bonne puissance”. O bom poder de que falo neste livro é o de Cristo, pois os outros são falsos poderes, ou seja, são ilusões que enganam as pessoas ingénuas, que acreditam nisso. O bom poder é um trinómio cujo aspecto inicial é a segurança ou o destemor; o segundo é a força de viver ou a não-resignação, e o terceiro é o acolhimento absoluto do próximo, ou a não-exclusão. Aquilo que eu defino como “o princípio do bom poder” é, na prática, uma tradução das virtudes teologais. 
Entre 1990 e 1994, utilizei o princípio do bom poder no âmbito do Serviço de animação teológica a mim confiado pelo bispo de Butare, o saudoso Dom Jean Baptist Gahamanyi, para formar os responsáveis das comunidades cristãs à dimensão pública da fé. Entre Abril e Julho de 1994, o princípio do bom poder permitiu-me sobreviver ao genocídio e ajudar, com todas as minhas forças, os meus irmãos e as minhas irmãs tutsi. Entre Setembro de 1994 e Setembro de 1999, empreguei o princípio do bom poder para formar animadoras e animadores, que souberam levar a Boa Nova às colinas de Buatre, no terrível contexto do após genocídio. O prémio pela paz recebido da Pax Christi International de 1998 foi um reconhecimento do valor universal deste trabalho. Quando, em 1999, verificou-se entre o clero e eu o mesmo que ocorreu a Paulo e Barnabé (At 15, 39), o princípio do bom poder me inspirou ao fundar a associação Modeste et Innocent (www.ami-ubuntu.org), que desde Fevereiro de 2000, não obstante a prisão e as outras tribulações, trabalha com sucesso pela reconciliação dos ruandeses. O prémio “Theodor Haecker Preis für politischen Mut und Aufrichtigkeit”, da cidade alemã de Esslingen am Neckar, chegou em Fevereiro de 2003, como reconhecimento por tal compromisso.

- Ir. Armand GARIN, Pequeno Frade de Jesus (Francia), Responsável regionalos dos Pequenos Frades de Jesus na Norte da Africa (ARGÉLIA)

Nos países do Magrebe, onde a quase totalidade da população é muçulmana, seguindo o exemplo de Jesus de Nazaré e na esteira de Charles de Foucauld, na fidelidade ao Evangelho, homens e mulheres cristãos esforçam-se por viver em fraternidade com os seus vizinhos e amigos muçulmanos. Pensam que é possível viver uma vida autêntica de partilha, de escuta, de acolhimento e de serviço fazendo-se próximos aos muçulmanos, sobretudo aos menores e aos pobres. Isto pressupõe que se conheça o outro intimamente nas suas tradições culturais e religiosas. O diverso, sem o saber, leva-nos a aprofundar a nossa fé e a viver o Evangelho de modo mais autêntico. As parábolas ou os exemplos da vida de Jesus aparecem-nos sob uma nova luz. Então, com os amigos muçulmanos, que acreditam no único Deus, pode nascer uma verdadeira solidariedade espiritual, através de gestos que às vezes têm o sabor da eternidade e são o sinal de uma comunhão autêntica. Isto é possível porque como cristãos e muçulmanos acreditam fortemente na fraternidade adamítica (somos todos criaturas de Deus) e na fraternidade abrâmico. Mas, desde a vinda de Jesus, para nós a fraternidade entre todos os homens tem a sua fonte na nossa fé em Jesus morto e ressuscitado para que todos tenham vida. Cremos que Jesus está misteriosamente presente nos nossos encontros.

- Prof. Raymond RANJEVA, Vice-Presidente emérito da Corte Internacional de Justiça (Países Baixos), Membro do Pontifício Conselho Justiça e Paz (Cidade do Vaticano) (MADAGASCAR)

Aspectos da Verdade: 
- verdade dos factos - prevenção contra as revelações malignas, uma realidade material e sensível; 
- verdade dos compromissos - pacta sunt servanda
- verdade no exercício das responsabilidades - testemunho activo
A Verdade e suas funções na reconciliação;
- rejeição à instrumentalização do ódio e da reconciliação, cf. Justiça política
- conhecimento e avaliação das situações de injustiça e de ruptura da paz
- aplicação prática:
a) da correção e do fim da situações de injustiça 
b) da erradicação das causas que geram falsas injustiças e falsas verdades
Carácter carente da visão puramente humana da Verdade
- ausência de garantias diante do relativismo: relações de força, cálculo, esperteza
- necessária relevância da consideração religiosa da fé
a) eliminar as sobreposições do facto religioso
b) interpelação permanente, com base na Palavra de Deus
Doutrina social da Igreja
- quadro intelectual e doutrinal da análise dos aspectos da reconciliação, da justiça e da paz
a) a nível triplo, ético, normativo e institucional
b) no âmbito da modificação das mentalidades e das estruturas
- dever de toda a Igreja - interacção permanente horzontal e vertical.

- Dra. Elena GIACCHI, Ginecologista do Centro de Estudos e Regolação da Fertilidadeà, Universidade Católica do Sagrado Coração, Roma, Italia; Presidente de WOOMB-Italia (Coordinação nacional do Método de Ovulação Billings-Italia) (ITÁLIA)

O ensinamento e a difusão do Método de Ovulação Billings (MOB) no mundo inteiro, foram sempre acompanhados pela proposta de um estilo de vida que promove o amor conjugal, a unidade da família, o respeito pela mulher e a abertura generosa ao acolhimento da vida. Pela sua simplicidade o MOB pode ser usado por todos os casais independentemente do nível de instrução, de religião ou de condição socioeconómica, e acolhido não somente por Católicos, mas também por Muçulmanos, Hinduístas e pessoas de todas as religiões. O casal pode gerir a própria fertilidade de maneira natural, tanto para obter quanto para evitar a gravidez em toda a situação da vida fértil: ciclos regulares, irregulares, lactação, pré-menopausa . O ensinamento do método contribui a: 1) promover a família e a procriação responsável no respeito pela vida, pelo amor e pela fidelidade conjugal; 2) promover a dignidade da mulher; 3) prevenir o aborto; 4) evitar o recurso à fecundação artificial consentindo aos casais sub-férteis obterem a gravidez no respeito dos valores éticos; 5) prevenir doenças sexualmente transmissíveis, educando os jovens a uma sexualidade amadurecida que integra a dimensão espiritual, corpórea, psicológica. O MOB pode favorecer a difusão de valores humanos e cristãos contribuindo ao compromisso pastoral e à evangelização. 


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