ZP09101402 - 14-10-2009
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Além da esquerda e da direita


A chave da liberdade na Europa e na América


Por Carl Anderson

NEW HAVEN, quarta-feira, 14 de outubro de 2009 (ZENIT.org).- Bento XVI deixou claro em muitas ocasiões que o cristianismo não acredita nos messias políticos. E novamente ele nos lembra que só a fé no verdadeiro Messias –Jesus Cristo– permitirá influenciar na política de um modo profundamente ético.

Suas palavras, em sua viagem à República Tcheca, um país que comemora o vigésimo aniversário da queda do comunismo, têm implicações importantes em toda Europa e no continente americano, dois lugares cuja história é inseparável do cristianismo.

Falando na República Tcheca, no encontro ecumênico, o Papa observou que "quando a Europa escuta a história do cristianismo, escuta a si mesma. Seus conceitos de justiça, liberdade e responsabilidade social, junto com as instituições culturais e legais estabelecidas para preservar estas ideias e transmiti-las às gerações futuras, estão determinados por sua herança cristã".

E –explicou o Papa Bento XVI– o cristianismo não deve limitar-se às margens da sociedade. A liberdade religiosa deve ser protegida, e o cristianismo deve ter voz no debate público, na formação da consciência do continente, e em buscar um consenso moral.

Falando aos membros do governo Tcheco, no sábado, disse: "gostaria de enfatizar o papel insubstituível do cristianismo na formação da consciência de cada geração e na promoção de um consenso ético básico que sirva a toda pessoa que chama este continente de sua casa”.

E observou que os crentes devem vir para a política a partir da perspectiva do seu cristianismo –e não alterar o cristianismo para uma interpretação política. Afirmou que "a sensibilidade para a verdade universal não deve ser ofuscada por interesses especiais, por mais importantes que sejam, porque apenas conduziriam a novos casos de fragmentação social ou discriminação, que grupos interessados ou lobbys pretendem superar".

A outra margem

O que Bento XVI disse sobre a Europa vale igualmente para o continente americano. Os cristãos devem levar a verdade do cristianismo para influenciar na formação da consciência de suas nações.

No mesmo dia que ele falava sobre a necessidade de uma voz pública para a religião e a ética na praça principal de Praga, celebrava-se na cidade do México um simpósio sobre liberdade religiosa no hemisfério americano. Tratava sobre a história –e o futuro– da liberdade religiosa no continente americano.

Na América, como na Europa, toda história do continente é dos "cristãos batizados". No continente americano, cada país foi fundado por cristãos, a maioria por católicos, e igualmente importantes, cada país –incluindo os Estados Unidos e Canadá– tem uma forte tradição católica.

A fé no continente americano manteve-se bastante vibrante. Na verdade, desde os dias do bispo Zumárraga, primeiro bispo do México, que trabalhou pela liberdade religiosa nos Estados Unidos conduzida por John Carroll e muitos outros.

Nos dias de hoje, a Igreja Católica tem sido parte da experiência americana –e da consciência americana– em cada passo do caminho, tanto na questão dos direitos civis, como na liberdade religiosa ou o direito à vida.

A contribuição da Igreja para a ordem social no continente americano ocorreu em cada um dos seus cantos.

Historicamente, fundamentada na verdade imutável, a contribuição da Igreja para a consciência dos Estados não tem sido limitada pelo lugar, país, tipo de governo ou ideologia política dos poderosos.

Às vezes essa mensagem foi bem recebida, mas outras vezes tem sido pregada pagando-se um preço elevado.

Olhando adiante

Então, como se apresenta o futuro da política na Europa e no continente americano?

Sugiro que comecemos por considerar como a doutrina social católica pode moldar a totalidade de nossas plataformas políticas. Em outras palavras, o cristianismo deve ser adicionado à "ética política" do Estado, e se deve permitir a fazê-lo. Todos deveriam evitar a tentação de aplicar seletivamente a doutrina social católica para esses cargos onde nos convém.

Deveríamos começar lembrando que muito antes de que existisse uma "ala esquerda" ou "ala direita", existia o Evangelho e que, muito depois de quando esses rótulos políticos caírem no esquecimento, o Evangelho permanecerá. Como pessoas de fé antes de políticos, todos temos a responsabilidade de proteger o Evangelho da manipulação de qualquer filosofia política, incluindo a nossa.

O Papa Bento XVI explicou na República Tcheca que o fundamento em Deus, assim como a busca e o compromisso com as verdades universais, é a chave para a verdadeira liberdade e o governo justo.

Há tempos ele fala disso. Ele o fez tanto para as Nações Unidas em 2008, como em seu livro de 1987 "A Igreja, Ecumenismo e Política", escrito exatamente quando o comunismo começou a desmoronar na Europa.

Convida-nos a continuar o que o filósofo francês Jacques Maritain chamou de uma das grandes realizações do cristianismo na sociedade moderna: "a evangelização da consciência secular”.

Pede-nos que sejamos, como disse em Praga, aqueles que "hoje, no país e no continente, tratam de aplicar sua fé com respeito, mas com decisão, no âmbito público, com a esperança de que as normas sociais e políticas se ajustem ao desejo de viver a verdade, que cada homem e mulher livre possui”.

Continuar este evangelização da consciência, numa nova evangelização, é nossa tarefa como cristãos.

E os políticos e cidadãos conscientes em ambos os lados do Atlântico deveriam prestar atenção a isto. Nós devemos evangelizar nossa cultura, e devemos assegurar que a liberdade religiosa seja protegida e não relegada às margens da sociedade por uma cultura que considera o secularismo relativista como a chave para uma liberdade falsa e efêmera.

Enquanto buscamos a liberdade, e para melhorar esses países e continentes onde vivemos, deveríamos ter em mente as palavras do Papa Bento XVI em Praga:

“A liberdade procura uma finalidade e por este motivo exige uma convicção. A verdadeira liberdade pressupõe a busca da verdade —do verdadeiro bem— e por conseguinte encontra o seu próprio cumprimento precisamente no facto de conhecer e de fazer aquilo que é reto e justo. Por outras palavras, a verdade é a norma-guia para a liberdade, e a bondade é a sua perfeição.”

“Para os cristãos, a verdade tem um nome: Deus. E o bem tem um rosto: Jesus Cristo”. Esta é a incumbência que o Papa Bento XVI nos deu. Agora, cabe a nós prestar atenção em suas palavras e atuar de forma que possamos ser testemunhas –e contribuir– para a construção da civilização do amor.

(Carl Anderson é Cavaleiro Supremo dos Cavaleiros de Colombo)


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