ARS, sexta-feira, 16 de outubro de 2009 (ZENIT.org).- Como São Jerônimo, o sacerdote está chamado a retirar os espinhos inclusive da pata de um leão, observou o cardeal Sean O’Malley, ofm cap, arcebispo de Boston, no encontro sacerdotal internacional de Ars, no início de outubro.
Para Jerônimo, recordou o cardeal, “ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”, assim “não fala de nossos problemas exegéticos, mas de descobrir Deus na Palavra viva”.
Citando uma reflexão do padre François Marie Léthel, ocd, mencionado no dia anterior pelo cardeal Schönborn, recordava: “os santos são os verdadeiros teólogos”.
Ele propôs extrair esta consequência para a vida do sacerdote: “se somos ícones do Bom Pastor, devemos conhecer suas palavras para que se convertam em nossas palavras”.
O cardeal O’ Malley comentou a primeira leitura da missa, do livro de Neemias: “o rei viu a tristeza de Neemias e lhe pediu que abrisse o coração. Neemias disse que seu coração estava quebrado, porque a Cidade Santa, Jerusalém, e o Templo, estavam em ruínas”.
“Nós também –comentou o arcebispo de Boston– vemos os problemas da secularização, os escândalos sexuais, a Igreja depreciada, abandonada por tantas pessoas. Mas o rei acedeu à solicitude de Neemias, que lhe pediu: “envia-me a Judá para reconstruir a cidade de meus antepassados”.
O salmo evoca também o exílio do povo “à margem dos rios da Babilônia”. Parece que o exílio recorda a “situação da Igreja hoje, em meio a pessoas indiferentes ou hostis, céticas, que resistem ao fato de que uma verdade possa interferir em sua liberdade, na autonomia que reivindicam”.
Jerônimo, sublinhou o cardeal O’Malley, descreve os cristãos do primeiro século no dizer das pessoas: “habitam próximo de nós, em meio a nós, mas não abortam e respeitam o matrimônio, isto é raro!” Para o cardeal de Boston, esta carta “poderia ter sido escrita na semana passada”.
A “Lenda dourada”, de Jacopo da Varazze, evoca, disse o pregador, a cena em que Jerônimo está cercado por um grupo de monges. Quando são interpelados por um leão, todos fogem, mas Jerônimo fica: vê que o leão manca e vai retirar espinhos de sua pata.
Extrai esta lição: “devemos nos comportar: Cristo é o nosso médico, nosso Salvador, devemos estar convencidos e convencer os demais, e ter a graça de que nossos inimigos convertam-se em nossos irmãos”.
Citava a este propósito o testemunho do cardeal Van Thuân, treze anos prisioneiro nas cadeias comunistas de seu país, que, no presídio, converteu seus carcereiros pela autenticidade de sua vida evangélica.
Os sacerdotes, acrescentou, são os “arautos de Cristo, chamados a reconstruir a cidade santa”, à imagem de São Francisco de Assis, a quem Jesus disse: “reconstrói a minha Igreja”.
Mas inclusive os apóstolos abandonaram Jesus em sua Paixão e “Pedro tenta fazer o que todos nós fizemos alguma vez, seguir a Jesus, mas a uma distância prudente. No entanto, alguém o reconhece, não um soldado armado com espada, mas uma serva –que lhe trata com desdém– e ele renega seu Mestre”.
Portanto, prosseguiu o cardeal, no momento do “desjejum” à margem do lado, após a ressurreição, Cristo lhe pergunta três vezes: “Tu me amas?”. Pedro lhe responde que o ama e Cristo lhe diz: “Segue-me”. Os autores espirituais evocam este segundo chamado, a “segunda oportunidade”, esta nova oportunidade após após nossos vacilos, nossa resistências. Nós, como sacerdotes, podemos todos receber esta graça de um novo chamado... Como Santa Teresa de Jesus, que recebeu uma segunda conversão ante a imagem do Ecce Homo, explicou.
O cardeal O’Malley recordou o jovem do evangelho do dia, que disse a Jesus: “eu te seguirei aonde quer que vás”, a quem Jesus respondeu: as raposas têm tocas, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça.
Os primeiros discípulos pergunta: “Onde moras?” e ouvem responder: “venham e verão...” e descobrem que é um Mestre sem casa: nasceu em um estábulo e foi enterrado na tumba de outro”, observou o cardeal.
E se pode extrair esta atualização para o celibato sacerdotal: “nosso celibato é uma participação no fato de que não há casa para o amigo do Esposo e os outros discípulos. O celibato sem amor não tem sentido, é inclusive mortal. Deve pelo contrário ser sinal da alegria da fé no espírito, no Cristo ressuscitado: o sacerdote não necessita se casar para ter filhos, porque está chamado a viver a vida eterna”.
“Que o Santo Cura d’Ars nos ajude a encontrar nosso caminho de Ars aqui nesta terra, nossa via em uma vida interior renovada de amizade profunda com Cristo e com nossos irmãos sacerdotes”, concluiu o cardeal O’Malley.
Ele chamou a atenção dos presentes ao começar com humor evocando seu primeiro sermão como capelão num presídio. “Meu primeiro sermão foi um desastre, não esquecerei jamais”, confessou. Ele falou de passagens de fuga na Bíblia. “Consegui a atenção deles, mas foi uma tragédia: seis prisioneiros escaparam à tarde e pensei que seria meu primeiro e último sermão”.
Acrescentou: “tínhamos superiores alemães muito rígidos, mas um dos irmãos me disse: “console-se com o fato de que o primeiro sermão de Jesus na sinagoga também foi um desastre, porque quiseram lançá-lo de uma ribanceira”.
(Anita S. Bourdin)
















