Por Elizabeth Lev
ROMA, domingo, 18 de outubro de 2009 (ZENIT.org).- Depois da restauração da Capela Sistina e da construção de uma nova entrada, os Museus Vaticanos parecem celebrar o terceiro milênio com um período de renovação espiritual.
Desde o ano passado, o museu deu grandes passos para retomar sua identidade como um espaço sagrado e como símbolo de compromisso do papado, com as artes e com a conservação do antigo patrimônio de Roma.
O novo diretor, Antonio Paolucci, surgiu como uma brisa de ar fresco em 2007. Recém-chegado de dirigir a exposição Petrus Eni, na basílica em São Pedro, em 2006, o diretor Paolucci trabalhou incansavelmente para dar uma nova vida ao museu e para estimular o interesse por algumas galerias menos conhecidas.
Depois de ajustar os salários dos novos guardiões, o museu reabriu salas que permaneceram fechadas por muito tempo, aumentando as coleções deslumbrantes de obras disponíveis. Os museus deram aulas de inglês a seus empregados, a fim de reforçar sua destreza comunicativa, enquanto o diretor e responsáveis ofereciam as primeiras horas da manhã para discutir sobre as obras e coleções da galeria.
O sistema de reserva on-line também se aperfeiçoou ano passado, diminuindo as filas e se esforçando para que entrar no museu não fosse tão complicado. Outra nova iniciativa, de abrir os museus fora do horário, para o público geral nas sextas à noite, demonstra o desejo dos Museus Vaticanos de chegar a fazer parte da vida cultural dos romanos, ao invés de permanecer como um lugar reservado para turistas e peregrinos. O que existe de melhor para fazer em uma sexta à noite que explorar a história da Cidade Eterna através de seus maiores tesouros artísticos?
Paolucci diz que tem um apreço especial por Rafael e está supervisionando a restauração das salas do pintor, nos apartamentos de Julio II, com resultados surpreendentemente belos, enquanto que o Patronato dos Museus Vaticanos, presidido pelo padre Mark Haydu, legionário de Cristo, redobrou os esforços para financiar a limpeza e conservação desta imensa coleção. Parece que a cada semana, várias obras novas surgem dos séculos de sujeira para brilhar na constelação da arte vaticano.
O Museu Pio Cristão, uma coleção única de sarcófagos do século IV que documentam as primeiras imagens cristãs, teve uma crescente importância, particularmente neste verão, com a impressionante mostra sobre São Paulo. Desta forma, o museu, presidido pelo diretor Umberto Utro, esteve ao lado do Santo Padre em seus esforços para conhecer São Paulo, demonstrando uma admirável colaboração entre o pastoral e o cultural.
Mas a metamorfose real é muito mais logística e acessível. O espírito dos museus também mudou. O doutor Paolucci e sua equipe fizeram propostas impressionantes para ajudar a todos que colaboram com os museus para que fossem melhores embaixadores do Vaticano e de sua missão.
Para combater as histórias escandalosas e os relatos exagerados, o museu aumentou seu corpo docente, atingindo um número crescente de historiadores e arqueólogos para trabalhar como guia da coleção. Não somente estão à disposição dos sempre presentes grupos escolares, como também de turistas que desejam obter um maior conhecimento do que era oferecido de forma inadequada na entrada do museu.
Os responsáveis também se reúnem com estes guias, oferecendo-lhes sua sabedoria, experiência e conhecimento sobre a coleção. Os museus inclusive organizaram um jantar com conferência animando a equipe docente a conhecer, mesclar e compartilhar ideias para fazer com que sentisse bem-vinda, como parte desta antiga e venerável instituição.
Entre estes novos guias está um pequeno grupo de religiosas, as Missionárias da Divina Revelação, fundadas pela Madre Prisca Mormina com o apostolado da catequese. Com seus particulares hábitos verdes, chegaram a ser uma estampa habitual dos Museus Vaticanos. Muitas dessas irmãs recebiam o convite para catequizar com a arte, oferecendo um passeio pela Basílica de São Pedro e São João de Latrão.
Em 2008, elas foram convidadas pelos Museus Vaticanos a conceberem visitas às instalações para refletir sobre a fé e a arte. Estas visitas, conduzidas pelas irmãs e suas equipes, olhavam as coleções com o ângulo da fé expressado nas obras e crenças cristãs que inspiraram os artistas que as criaram.
A Madre Rebecca Nazzaro, superiora deste pequeno grupo, descreveu sua escolha de ser missionária nos museus: "a Igreja precisa da arte, pois através dela o homem pode deixar sua ‘finitude' para entrar na eternidade de Deus. A Igreja acredita que na encarnação de Jesus Cristo a vida íntima e invisível de Deus se fez invisível ao homem e a linguagem da arte converte-se em um ponto entre o céu e a terra, entre o visível e o invisível".
Estes itinerários acessíveis através do site do Vaticano são oferecidos em inglês e em italiano. Através deles, Madre Rebecca espera "oferecer aos peregrinos uma viagem pela história do homem através da linguagem da arte". Para ela, a arte é um instrumento privilegiado de evangelização, por seu idioma compreensível e sua capacidade de abrir um dialogo entre pessoas de procedências diferentes tanto sociais quanto religiosas.
Embora ainda exista muita coisa a se fazer para converter a coleção papal em um paraíso terrestre para os visitantes, este VI século dos Museus Vaticanos se mostra bem positivo.
Imposição
Quando levei meus estudantes a Florença num recente final de semana, fizemos nossa parada obrigatória para ver o Davi de Michelangelo, entretanto, havia um pouco mais de "arte" do que eu esperava na Academia. As esculturas de Michelangelo se misturavam com fotografias em preto e branco de Robert Mapplethorpe, polêmico fotógrafo americano conhecido por suas imagens eróticas, que morreu de Aids em 1989.
Após um desconcerto inicial causado por estar com meus estudantes tendo em vista a presença de obras tão carregadas de erotismo, tentei entender o que os diretores tinham em mente.
Infelizmente, a única conclusão que pude ter era que a Academia estava tentando estabelecer um paralelismo entre as esculturas nuas de Michelangelo e os homens e mulheres nus fotografados por Mapplethorpe.
Além da comparação fácil entre as poderosas formas talhadas por Michelangelo
e a seleção de Mapplethorpe de modelos perfeitamente musculosos, pouco existe de relação entre eles. Superficialmente, se podia pensar que partilhavam uma característica formal em seu hábito de reduzir a arte ao essencial. Michelangelo estava interessado em algo mais, além da forma humana e de suas paisagens. A arquitetura e os fundos eram considerados meramente superficiais, enquanto que Mapplethorpe não queria distrações em seu tema e utilizava o mínimo de roupas em suas obras.
De qualquer forma, a semelhança termina. Mapplethorpe exaltou a forma humana para seu próprio uso temporal; Michelangelo não tentou mostrar o homem como ele é e sim como ele era para ser.
As primeiras imagens de Mapplethorpe estavam sutilmente distribuídas na galeria principal junto aos "escravos" de Michelangelo, realizados para a tumba de Julio II em Roma. Esta série de fotografias evidencia um homem nu posando dentro de um marco circular. Nas quatro imagens, ele posa de forma distinta, mas sempre em conformidade com a curva do circulo. A figura está prisioneira do círculo, confinada dentro de sua forma branca e estéril. O modelo segue a linha ditada pela forma. Parece fazer da lente de Mapplethorpe um servo dócil e complacente.
Os prisioneiros de Michelangelo, esculpidos para decorar uma estrutura arquitetônica simples, são dirigidos contra seus limites de espaço. Parecem constrangidos por pilares arquitetônicos do túmulo de Julio II, porém lutam para ser livres, para expandir todo seu potencial.
Talvez o maior insulto desta mostra é contra Davi, a estátua colossal de Michelangelo, de 1504. Símbolo do poder de Florença, o Davi de Michelangelo foi enobrecido por uma certa torpeza nas proporções e uma dúvida no olhar, o que reflete as provas e dificuldades do herói.
Em contraste, a figura de Mapplethorpe parece lamentavelmente de plástico, uma massa de músculo sem história para contar.
A chegada do cristianismo, plasmada na cor vibrante e os dinâmicos traços da obra de Michelangelo, deram ao homem uma beleza maior para se adorar, que é a Encarnação. Michelangelo não teria servido para as fotografias de Mapplethorpe mais do que teria servido para a revista Playboy.
Que os organizadores desta exposição tentem descaradamente equipar as fotografias de um homem que se converteu em ícone do ativismo homossexual com a arte de Michelangelo é um triste reflexo de uma cidade que produziu tantos heróis da Igreja, desde Santo Antônio.
Michelangelo escreveu um soneto em seus últimos anos de vida para expressar seu amor pela figura humana; estas palavras, tristemente, nunca mais tiveram eco em Mapplethorpe: "Deus não se dignou em se mostrar em outro lugar mais claramente que nas sublimes formas humanas. As quais unicamente amo, na medida em que são Sua imagem".
(Elizabeth Lev ensina arte e arquitetura cristã no campus italiano da Duquesne University e no programa de estudos da Universidade Católica de São Tomás)
















