HARARE, quinta-feira, 23 de junho de 2005 (ZENIT.org).- Sob o título «O pranto dos pobres», a Conferência Episcopal do Zimbábue difundiu na terça-feira uma carta pastoral denunciando a brutalidade da operação das autoridades na demolição de favelas e a situação de desamparo em que ficaram numerosas famílias.
Fazendo-se eco da tragédia humanitária, a agência missionária da Santa Sé aponta que o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, designou Anna Kajumolo Tibaijuka (da Tanzânia), enviada especial para investigar os abusos cometidos pelas forças da ordem durante a operação «Murambatzvina» («Operação Restaurar a Ordem»), empreendida em 19 de maio passado pelo governo do Zimbábue com o pretexto de livrar as cidades do mercado ilegal e dos abusos urbanísticos.
É o contexto em que a polícia prendeu ao menos 20 mil pessoas. De acordo com a ONU, aproximadamente 200 mil perderam seu lar devido à destruição de favelas dos bairros periféricos das principais cidades do país africano.
Além da capital, Harare, a operação «Murambatzvina» afeta as cidades de Bulawayo, Mutare, Chitungwiza, Rusape, Murehwa, Gweru, Masvingo e Kadoma.
Os agora «sem-teto» encontram-se expostos às baixas temperaturas do inverno austral.
Os bispos católicos do Zimbábue, que já haviam criticado esta operação de «limpeza», alertam em sua última pastoral que, quatro semanas depois de sua execução, «um número incalculável de homens, mulheres com crianças recém-nascidas, crianças em idade escolar, anciãos e enfermos continuam dormindo no relento com temperaturas invernais próximas ao congelamento».
«Estas pessoas necessitam urgentemente de refúgio, alimentos, roupa, medicamentos», constatam.
«A pretensão de justificar a operação por motivos de ordem pública é totalmente infundada em vista dos meios cruéis e desumanos que se utilizaram. As pessoas têm direito a um refúgio, e este foi deliberadamente destruído no curso da operação sem aviso», denunciam.
Consideram os prelados que --«ainda que todos desejamos o respeito da ordem»-- dever-se-ia haver identificado e proporcionado alojamento alternativo e fontes de ingresso antes de levar a cabo as demolições e a suspensão do comércio informal. «Condenamos esta grande injustiça que se realizou aos pobres», escrevem.
80% dos mais de 11 milhões de habitantes do Zimbábue estão desempregados.
A decisão do presidente Robert Mugabe de distribuir a terra dos camponeses de origem européia a seus seguidores lançou ao caos o sistema agrário do país, um dos melhores da África até poucos anos atrás, e destruiu o tecido econômico do país.
Ao dividir as grandes fazendas agrícolas em muitos lotes confiados a diversas famílias, passou-se subitamente de uma produção em grande escala a uma agricultura de subsistência que não está sendo capaz de alimentar o país, agora dependente da ajuda exterior para sua própria sobrevivência. Isso igualmente levou a crise aos países vizinhos, que adquiriam seus alimentos em Harare.
Enquanto o país mergulha cada vez mais na pobreza, o governo intensificou a política de controle da população e de repressão da oposição. Ainda em uma situação econômica dramática, aumentou a dotação financeira das forças armadas e da Organização Central de Inteligência, que recentemente adquiriu material de alta tecnologia para controlar, e eventualmente bloquear, as comunicações telefônicas, telemáticas e as transmissões de rádio e televisão no país e para --e desde-- o exterior, alerta a agência vaticana «Fides».
Esta ao final de maio alertava de que a última campanha de Mugabe ia contra os comerciantes da rua --pessoas que haviam sido convencidas pelo próprio presidente, com uma lei de 1991, a que se fizessem ambulantes para favorecer o nascimento do comércio privado-- e das expulsões de numerosas famílias da periferia de Harare, apesar de um acordo alcançado em 2002 com o ministro de Urbanismo.
Advertia igualmente do critério da oposição no Zimbábue, segundo o qual desta forma Mugabe tentava expulsar boa parte da população pobre da cidade para os campos, onde é mais facilmente controlável graças à distribuição do escasso alimento, que está nas mãos dos fiéis ao presidente.
«Fazei guerra à pobreza, não aos pobres», clamaram os representantes das Igrejas cristãs --em um apelo também subscrito pela Comissão Justiça e Paz da Igreja católica no país-- unindo sua voz a quem pedia ao governo do Zimbábue acabar com as humilhações das forças da ordem contra os indigentes, enquanto na capital a polícia seguia detendo vendedores ambulantes e derrubando suas barracas.
«Criada a imagem e semelhança de Deus, cada pessoa tem uma dignidade humana inata, dada não por autoridades seculares, mas pelo próprio Criador. Esta dignidade foi gravemente violada pela impiedosa maneira em que a “Operação Restaurar a Ordem” foi realizada nas cidades e outras zonas», firma o episcopado católico em sua carta «O pranto dos pobres» (texto na íntegra disponível em inglês em (www.evangelizatio.org).
Esta quinta-feira, uma coalizão de mais de 200 grupos cívicos e de direitos humanos tanto africanos como internacionais lançaram um Apelo Conjunto urgente às Nações Unidas e à União Africana para que ajudem o povo do Zimbábue. O apelo foi coordenado por Anistia Internacional, o Centro pelo Direito à Moradia contra os Despejos (COHRE, por suas siglas em inglês) e Advogados pelos Direitos Humanos de Zimbábue.
Estimam em mais de 300 mil as pessoas desalojadas de seus lares pelo governo do Zimbábue. Pedem ao presidente nigeriano Obasanjo que, como presidente da UA, introduza na agenda da próxima Assembléia da ONU (Líbia, 4 e 5 de julho) a crise em Zimbabwe. Ao secretário geral da ONU exortam a condenar publicamente estes acontecimentos e a adotar medidas para detê-los.
ZP05062303 - 23-06-2005
Permalink: http://www.zenit.org/article-8010?l=portuguese
Episcopado do Zimbábue denuncia a brutalidade das autoridades contra os pobres
Na «Operação Restaurar a Ordem», do governo de Mugabe
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