ZP05072701 - 27-07-2005
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Zimbábue: As demolições, tentativa de Mugabe de controlar a população


Segundo o arcebispo de Bulawayo


BULAWAYO, quarta-feira, 27 de julho de 2005 (ZENIT.org).- «Parece que [o presidente] Mugabe forçou o povo a ir ao campo para controlá-lo melhor»: assim resume o arcebispo de Bulawayo --a segunda maior cidade do Zimbábue--, Dom Pius Ncube, a brutal operação de desalojamento das periferias urbanas, denominada «Murambatsvina» («Restaurar a Ordem»), empreendida em maio pelo governo do país africano.

Na sexta-feira passada, difundiu-se o informe de Anna Tibaijuka, a representante da ONU enviada ao Zimbábue para investigar os abusos cometidos pelas forças da ordem nesta ação do governo, durante a qual também foram detidas mais de 20 mil pessoas (Cf. Zenit, 23 de julho de 2005).

O documento fala de «700 mil pessoas em cidades e povoados do Zimbabwe» «vítimas diretas desta operação», um número que «se desprende das próprias estatísticas do governo», explicou a própria Tibaijuka, cita o Centro de notícias das Nações Unidas.

De maneira indireta, a dirigente de HABITAT (o Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos), calculou que 18% da população sofreram as conseqüências das demolições.

O Zimbábue deve pôr fim à demolição dos bairros de favelas urbanas que se vem fazendo de maneira «indiscriminada e injustificada», expõe o informe da ONU.

Sublinha igualmente que o governo do país é «coletivamente responsável» pela chamada «Operação Restauração da Ordem».

Por sua parte, o arcebispo de Bulawayo recordou nos microfones de «Rádio Vaticano» que esta destruição empreendida por Mugabe se lançou na estação mais fria no Zimbábue.

«As pessoas se encontraram sem amparo» --denunciou--; «também foram destruídos os pequenos “cottage” que o povo havia construído por falta de casa», mas «o governo de fato não aumentou o número de casas das que o povo tem necessidade».

«Parece que Mugabe forçou o povo a ir ao campo para controlá-lo melhor, porque quando as pessoas estão na cidade têm mais possibilidades de acesso à informação. Quer controlar melhor as pessoas forçando-as a trasladar-se às zonas rurais», alertou.

80% dos mais de 121 milhões de habitantes do Zimbábue estão desempregados, e o país afunda cada vez mais na pobreza. Para deter este desalojo de gente pobre de suas próprias casas empreendido pelo governo de Mugabe, o prelado se mostrou esperançoso no papel da ONU.

«Mugabe afirma que só está destruindo construções que não servem --seguiu informando Dom Pius--. Na realidade, foi sua política que arruinou a economia do Zimbábue, que em um tempo estava entre os países mais ricos da África. Também impediu as Nações Unidas de levarem ajuda alimentar à população».

Mas «a população está morrendo de fome. Não me surpreenderia, se este segue assim, ver morrer milhares de pessoas», advertiu.

Recentemente um informe da Comissão Justiça e Paz dos Jesuítas no Zimbábue alertava de que a operação «Murambatsvina» agravará a dramática situação do campo, onde o povo morre já de fome (Cf. Zenit, 7 de julho de 2005).

Enquanto isso, católicos, «presbíteros, metodistas...» «procuramos juntos proporcionar alojamentos temporários» à população agora dispersa pelo governo de Mugabe --confirmou o arcebispo--.

«As pessoas não sabem como viver só. Assim, estamos facilitando-lhes alimento, refúgio. Damos-lhes roupa, mantas», atendendo «as necessidades imediatas, a fim de salvar-lhes a vida», concluiu.

Na sexta-feira, em um comunicado, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, qualificou as demolições de casas e comércios no Zimbábue de «uma injustiça catastrófica» contra os cidadãos mais pobres do país, «mediante ações indiscriminadas, levadas a cabo com inquietante indiferença ao sofrimento humano».

«Temos o dever de ajudar os necessitados», disse. Pediu à comunidade internacional que responda generosamente a seu apelo. Exortou desta forma ao governo do Zimbábue a reconhecer o estado de emergência e a permitir o acesso da assistência humanitária.


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