ZP05090101 - 01-09-2005
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O perdão após o 11 de setembro


Fala o padre Aguilar, que foi capelão da Cruz Vermelha entre familiares das vítimas


ROMA, quinta-feira, 1 de setembro de 2005 (ZENIT.org).- Que se pode dizer a uma mulher que perdeu seu marido e pai de seus filhos em um atentado terrorista como o 11 de setembro? Esta é a inevitável pergunta que se propôs o padre Alfonso Aguilar, Legionário de Cristo, que foi um dos capelães da Cruz Vermelha que atendeu os familiares das vítimas após estes atentados.

Nesta entrevista concedida a Zenit, o padre Aguilar, atualmente professor de filosofia no Ateneu Pontifício «Regina Apostolorum», em Roma, revela-nos o que pôde ver naquelas horas dramáticas e o que as câmeras de televisão não puderam mostrar.

--Poderia descrever-nos um pouco os familiares das vítimas?

--Padre Aguilar: Pelo que concerne a sua confissão religiosa, a maior parte era cristã, dos quais, segundo minha impressão, mais da metade eram católicos. Praticamente com todos se podia rezar o Pai Nosso e ler alguma passagem do Evangelho.

Pelo que diz respeito à idade, havia adultos de todas as idades, ainda que predominavam as mulheres e jovens de trinta e quarenta anos. Conheci vários pais que haviam perdido um dos seus filhos. Conheci um maior número de jovens esposas, como Linda Thorpe, que cuidava de seu primeiro bebê recém-nascido, e suas duas amigas, que apenas haviam tido tempo de começar a própria família. As três mulheres estavam orgulhosas das virtudes e dedicação a obras sociais de seus cônjuges. Na foto que me mostraram apareciam os três homens, brindando alegres em um restaurante. Quem ia pensar que em poucas semanas os três se apresentariam juntos ao Criador?

--Que diz e faz um capelão às pessoas que sofreram a perda de um ente querido em uma tragédia massiva?

--Padre Aguilar: Nestas tragédias, o capelão não deve fazer nem dizer muito. Consola e dá esperança mais com sua companhia e solidariedade que com suas palavras. O sacerdote pergunta a cada família se deseja algo, dirige-lhes umas poucas palavras de consolo e lhes convida a rezar uma oração simples como o Pai Nosso. Logicamente, devido a seu estado emocional, as pessoas não se encontram preparadas para sermões ou para longos momentos de oração vocal. Como pude constatar, a maior parte das pessoas, crentes ou não, conforta-se imensamente com a presença de um sacerdote nestes momentos. Nunca se sabe o impacto psicológico e espiritual que sua ação produz, junto com a graça divina, no interior das almas doentes. Dias mais tarde, as autoridades da Cruz Vermelha enviaram-me uma carta e um diploma de reconhecimento, pois haviam notado o impacto da presença sacerdotal.

--Como reagiram os familiares das vítimas ante os atentados? Queixavam-se de Deus e dos terroristas? Tinham esperança ou estavam desesperados?

--Padre Aguilar: Aproximei-me das pessoas com certa apreensão. Pensava que muitos rejeitariam a ajuda espiritual e que alguns se voltariam contra Deus e os assassinos. Felizmente não foi assim. A maioria acolhia o capelão com bom ânimo e nunca escutei uma queixa contra ninguém. As pessoas aceitavam seu terrível sofrimento com uma resignação fora do comum. Estou convencido de que havia uma graça especial de Deus que lhes permitia sofrer com paciência e sem amarguras. Suponho que o Senhor concede esta graça em casos tão desesperadores como este. Por outro lado, todas as pessoas guardavam a esperança de que seus familiares ou amigos pudessem encontrar-se ainda com vida. No dia anterior haviam sido resgatadas cinco pessoas vivas dos escombros. Infelizmente não se encontraria ninguém mais vivo. Ali aprendi, contudo, que o amor profundo a uma pessoa não deixa facilmente apagar a chama da esperança: crê-se que até o impossível pode converter-se em realidade.

--Os terroristas muçulmanos dos atentados nos Estados Unidos, Madri, Israel e Iraque, por mencionar os casos mais dramáticos, matam e causam sofrimentos inenarráveis sem mostrar compaixão nem remorsos. Como deveríamos buscar justiça sem cair no ódio? Qual deveria ser a atitude de um cristão que sofre por causa dos terroristas?

--Padre Aguilar: A mesma atitude de Cristo. Jesus foi injustamente condenado, torturado e crucificado por homens que, conscientes de sua inocência, enfureciam-se contra ele. Como o Senhor reagui? Em seu interior, ele estava disposto a perdoá-los. Por isso, rogava: «Pai, perdoa-os, porque não sabem o que fazem» (Lc 23, 34). Agora, o perdão oferecido gratuita e incondicionalmente por Cristo não podia beneficiar a alma do injusto até que este não reconhecesse seu pecado, se arrependesse dele e buscasse repará-lo. Note-se que em seu pedido de perdão incondicional Jesus não se dirige a quem o executa, mas ao Pai. Ao contrário, quando o bom ladrão cumpre as condições de ser perdoado, confessando e rejeitando seus pecados, Jesus lhe promete os benefícios do perdão: «Asseguro-te que hoje estareis comigo no paraíso». (Lc 23, 43).

Portanto, de coração devemos perdoar a todos incondicionalmente, ainda que exteriormente só possa ser perdoado quem se arrepende e muda de conduta. A justiça, contudo, não deve contrapor-se ao perdão, como demonstra também o caso do bom ladrão. Ainda depois de perdoá-lo, Jesus não o liberta da cruz, ou seja, do castigo que o malfeitor mesmo considera «justo». Deste modo, devemos perdoar todos em nosso interior enquanto exigimos que se faça justiça.

--Que significou para o senhor emocionalmente conhecer tantas pessoas sofrendo a perda de um ente querido?

--Padre Aguilar: Uma coisa é ver as Torres Gêmeas derrubadas ao longe ou pela televisão, outra bem diferente é ver os rostos das vítimas em fotos e de seus familiares em carne e osso. No segundo caso, a tragédia se personaliza. Deixa de ser um número matemático de vítimas e se converte em uma série de biografias e de maravilhosas histórias de amor afetadas brusca, injustamente e irremediavelmente.

Fica muito difícil expressar a multidão de sentimentos contraditórios que borbotavam nessa ocasião. Primeiro predominavam os sentimentos de profunda dor, de compaixão, de incompreensão, de impotência. Logo surgiam os de raiva contra tamanha injustiça e maldade. A pena crescia ao descobrir que tantas vidas boas e promissoras ficavam interrompidas na plenitude de seu viver, deixando feridas profundas em pessoas queridas inocentes: esposas recém-casadas ou noivas a ponto de se casar, bebês e crianças pequenas incapazes de compreender o que sucedia, pais, irmãos e amigos que não voltarão a ver quem haviam gerado ou com quem haviam convivido portanto tempo.

Recordo que às três horas de estar com os familiares fiquei exausto psíquica e fisicamente, como se meus ossos se tivessem voltado pesados de repente ou tivesse estado vários dias sem dormir. Então compreendi pela primeira vez o que diz o evangelista Lucas dos apóstolos no Getsêmani: «[Jesus] os encontrou dormindo, pois estavam rendidos pela tristeza» (Lc 22, 45). É verdade que a tristeza chega a extenuar uma pessoa.

--Suponho que o contato com uma realidade tão trágica provoca muitas reflexões. Que lições tirou de sua experiência?

--Padre Aguilar: Tirei várias. A tragédia do 11 de setembro converteu-se para mim em um símbolo da luta titânica e sempiterna entre o bem e o mal: entre o mal diabólico e insano que matava e destruía sem sentido e o bem que se impunha à base de amor, entrega, compaixão, solidariedade. Aí vemos o melhor e o pior do que é capaz o ser humano. E constatamos que o melhor triunfa sobre o pior.

Como segunda lição destacaria a contingência da vida humana e dos caminhos inescrutáveis da Providência. Uma moça americana disse-me que havia perdido o chefe de sua empresa, um alemão de 30 anos chamado Kraus. Ele havia voltado da Alemanha a Nova York na segunda-feira dia 10 para dirigir uma reunião na terça-feira na manhã, justo na hora dos ataques. A jovem americana devia ter assistido à tal reunião, mas esse dia havia perdido o primeiro ferry de New Jersey a Manhattan. Enquanto tomava o segundo, as torres caíram. Por que um jovem vem da Alemanha aos Estados Unidos para morrer e uma jovem americana perde a reunião em que teria morrido? Só Deus sabe.

Impressionou-me, em terceiro lugar, como uma pessoa pode aceitar uma tragédia com heróica resignação e aceitação da vontade divina. Nunca esquecerei de Patty, uma mulher com dois filhos pequenos, a quem seu marido havia chamado por telefone desde o andar 103 de uma das torres para dizer-lhe: «Meu bem, te amo. Cuida dos filhos». Patty me dizia entre soluços: «Meu marido me falava devagar, com serenidade, ponderando suas palavras». Eu me perguntava: e se eu enfrentasse uma morte certa, a aceitaria com tanta serenidade como esse jovem esposo e pai de família?

Por último, o 11 de setembro demonstrou-nos que o amor é capaz de transcender toda dor, inclusive a separação física causada por um atentado brutal. Entre as centenas de mensagens que os familiares das vítimas escreveram na plataforma de madeira que se improvisou na Zona Zero, chamou-me a atenção uma escrita por uma menina de curta idade em um inglês pobre, incorreto, mas cheio de emoção. Dizia: «Querido papai, tenho saudades de ti e é tão difícil sem ti por perto. Eu sei que no céu deverão estar todos os heróis. Por isso eu perdi o meu herói, meu coração, meu papazinho. Amo-te tanto! Com amor, tua filha pequena».


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