498 mártires espanhóis pela fé, não pela política (II)

Entrevista com o secretário-geral da Conferência Episcopal Espanhola

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MADRI, quarta-feira, 24 de outubro de 2007 (ZENIT.org).- Poucos dias antes da beatificação de 498 mártires do século XX na Espanha, no próximo domingo 28 de outubro em Roma, o secretário-geral, porta-voz e responsável da Sala para as Causas dos Santos da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), Pe. Juan Antonio Martínez Camino, explicou em uma entrevista concedida à Veritas alguns detalhes da cerimônia de Beatificação, assim como a importância religiosa deste acontecimento. Esta é a segunda parte da entrevista.



–Tratando-se de um ato com tanta força religiosa, que diria aos que fazem uma leitura política da Beatificação?

–Padre Martínez Camino: Não nos estranha que existam leituras políticas equivocadas, sempre se equivocaram os que fizeram uma leitura puramente política de um ato essencialmente religioso. Mas é a lei da história. Os mártires da primeira época do Cristianismo, que davam sua vida por Cristo, eram classificados de traidores de Roma; os mártires da Revolução Francesa eram classificados de traidores da Revolução; e os mártires do século XX na Rússia, Europa central ou Espanha, como gente que dificultava o avanço da história.

Isso pertence à história da Igreja, não nos estranha, é doloroso, é triste, mas pertence ao martírio: à morte injusta, por Cristo, vai unida a difamação e a ignomínia. Como disse João Paulo II na celebração dos mártires no Coliseu, no ano 2000, ao martírio vai normalmente unida a ignomínia.

Dizer que os que agora são beatificados pela Igreja eram um grupo político é desconhecer a história, não compreender o ato religioso e não fazer justiça aos fatos. Dói nos cristãos essa desfiguração dos fatos, mas não nos estranha, e nesse sentido, aceitamos com serenidade.

–Crê que faz falta certa pedagogia para que se enfatize no sentido religioso do ato?

–Padre Martínez Camino: É lamentavelmente inevitável que cheguem algumas mensagens que dão uma visão distorcida dos fatos.

De todos os modos, estão-se fazendo todos os esforços possíveis para explicar a diferença entre um mártir e uma pessoa injustamente assassinada. Houve muitos assassinatos durante o século XX na Espanha, durante os anos 30, antes, durante e depois da Guerra Civil.

A Conferência Episcopal, em «Fidelidade a Deus dura sempre. Olhar de fé ao século XX», publicado em novembro de 1999, lamenta que tenham havido no século XX, e concretamente na Espanha nos anos 30, tantos cidadãos assassinados injustamente e declarou que o sangue de todos eles segue clamando ao céu pelo perdão e pela reconciliação, para que não se empreguem jamais métodos de violência. Este pedido de perdão a Deus por todos os assassinatos, seja de quem seja, está muito claramente expresso. Pede-se perdão a Deus por todas as “ações que o Evangelho reprova”, cometidas em um ou outro dos lados em guerra.

À parte de tantas pessoas assassinadas injustamente há algumas que o foram de maneira expressa e específica porque não quiseram renunciar à fé e à fidelidade a Jesus Cristo e à Igreja, e estes são os mártires.

A Igreja lamenta, os bispos lamentaram muitas vezes todos os assassinatos, mas não pode deixar de honrar os mártires enquanto mártires, enquanto testemunhas da fé. E esses testemunhos de fé não o são por que estiveram inscritos em um partido político ou facção em luta, mas simplesmente porque morreram pela fé, e serão reconhecidos todos os que tenham morrido pela fé, sejam de que facção for.

–Na Espanha ouve-se dizer que a Igreja busca a divisão com esta beatificação…

–Padre Martínez Camino: Dizer que a Igreja busca a divisão não é aceitável, porque a Igreja não busca a divisão com nada, outra coisa é que determinadas ações da Igreja causem divisão, mas a Igreja não busca divisão com nada.

A Igreja busca anunciar o Evangelho, e com a beatificação dos mártires busca reconhecer um testemunho de cristianismo vivido de modo heróico.

–O Santo Padre estará presente na Missa de Ação de Graças?

–Padre Martínez Camino: A modalidade da presença do Santo Padre ainda não está confirmada, está prevista, mas não confirmada. Está previsto um encontro do Santo Padre com os peregrinos, mas não está confirmado onde, nem quando.

–A que tipo de martírio estão chamados os fiéis neste momento na Espanha?

–Padre Martínez Camino: O testemunho de fé é sempre martírio, no sentido etimológico da palavra, é viver coerentemente a fé em todos os âmbitos da vida (família, trabalho, vida pública…) e quando há dificuldades especiais para isso, o martírio é mais exigente, o testemunho é mais exigente.

Nesse sentido, como disse São Paulo, a vida cristã é uma luta contínua, e o testemunho da fé não se realiza com posturas indolentes, acomodadas, de indiferença, de hedonismo, de relativismo… nesse contexto, viver a fé supõe um esforço moral e uma integridade espiritual, que certamente esta beatificação vai ajudar a suscitar em muitos batizados e comunidades cristãs.