A alegria do Evangelho e o tapa na cara do crismado

Uma reflexão sobre a exortação Evangelii Gaudium

São Paulo, (Zenit.org) Redacao | 1457 visitas

No término do ano da fé, o Santo Padre, o Papa Francisco, publicou sua primeira exortação apostólica, com o nome latino de Evangelii Gaudium, ou Alegria do Evagelho, dirigida a todos os católicos e revelando seu pensamento sobre o anúncio do Evangelho nos tempos atuais.

Ao dar uma lida superficial, mas consciente, dessa Exortação veio-me em mente o dia em que recebi o sacramento do Crisma pelas mãos do meu querido, já falecido, bispo D. João Hypólito de Moraes, que era bispo da diocese de Lorena, que englobava a cidade de Cachoeira Paulista, meu povoado natal.

Era tradição durante o rito do Sacramento também chamado de Confirmação, que logo após o crismando ser ungido com o óleo do Santo Crisma, receber um tapa no rosto no significado de acordar ou despertar para a nova realidade de deixar de ser simplesmente um católico batizado para passar a ser um “soldado” de Cristo. Esse tapinha no rosto, que no meu caso, por já ser, há época, amigo do referido bispo e seu dirigido espiritual, veio carregado da força de um pai que humoradamente desperta o filho para uma vida mais ativa, o que deixou minha face vermelha pelos 30 minutos posteriores, veio com todo o peso que me correspondia agora o anúncio ativo do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Lendo cada linha da Evangelii Gaudium, senti a mesma alegria de ser estapeado àquela época. Foi como se D. João houvesse me dado aquele belo tapa no rosto novamente, só que dessa vez pelas palavras do Papa.

O Santo Padre nos desperta para a alegria que nasce exatamente de aceitar a Cristo, de buscar um encontro pessoal e real com Deus vivo.  O Papa já inicia sua encíclica falando das tentações do mundo moderno que desviam nossa atenção da real alegría que nasce de Cristo, fazendo-nos colocar nossa esperança nas coisas desse mundo. Tirar Deus de nossas vidas gera frustração e ansiedade, como já falara o bispo Fulton Sheen em sua obra de 1949, Peace of Soul. E a solução para curar essa depressão, essa ansiedade é justamente colocar Cristo no centro de nossas vidas, de nossas vontades, de nossas ansiedades. Há um ansiedade sadia, que é a do cristão que se preocupa com sua alma, e uma ansiedade má, que gera fobias e depressão, que nasce do “grande risco do mundo atual, com sua múltipla e abrumadora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração cômodo e avaro, da busca doentia de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se encerra nos próprios interesses, já não há espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se escuta a voz de Deus, já não se goza a doce alegria de seu amor, já não palpita o entusiasmo por fazer o bem”.

“Os fiéis também correm esse risco, certo e permanente. Muitos caem nele e se convertem em seres ressentidos, queixosos, sem vida. Essa NÃO é a opção de uma vida digna e plena, esse não é o desejo de Deus para nós, essa não é a vida no Espírito que brota do coração de Cristo ressuscitado”.

Ao lançar um roteiro em como evangelizar no início desse terceiro milênio da era cristã, o Papa nos desperta para as consequências que surgem do encontro pessoal com Cristo, que nos constrange a sair de nosso comodismo, pois o que é bom tende a ser comunicado.

Para Francisco, quando nos encontramos com Cristo, que se deixa encontrar, encontramos algo de muito bom e não conseguimos mais manter isso somente conosco. Esse tesouro tende a crescer quando é compartilhado, e essa é a mensagem principal dessa Exortação Apostólica, a primeira do Papa Francisco.

O Papa não revoluciona a mensagem da Igreja e sequer modifica doutrinas, mas nos dá um tapa na cara para despertarnos sobre o que a Igreja já conhece e faz há mais de 2 mil anos, como prova a vida de tantos santos e mártires da Igreja ao longo de sua história.

Obviamente nesse texto não quero resumir, nem reduzir o conteúdo de toda Exortação, que merecerá nosso estudo pormenorizado pelos próximos dias, meses e anos, mas não há como não sentir esse golpe impulsionador e encorajador do Pontífice que, como um bom jesuíta como é, de maneira prática, nos dá a receita de como ser cristão em nosso dia a dia.

Francisco está preocupado com as pessoas, com o homem, com o gênero humano, tomado pelos pecados do orgulho, da luxúria e da avareza, essa trindade maldita que nos afasta da Trindade Santa e da paz e alegria que surge na alma que se entrega Deus, que não nos defrauda. Como já dizia seu antecessor, Bento XVI na Jornada Mundial na Austrália, o atual Papa nos recorda que Cristo não nos defrauda, não nos rouba, não nos tira nada.

O Papa, agora, nesse marco histórico, dá um tapa no rosto de todos os fiéis católicos, dos bispos ao mais jovem batizado, para que despertemos com um novo fervor, e traça linhas pastorais práticas para como levar a mensagem de Cristo, perene e sempre atual, para um povo que olha mais para si, e se entristece por isso, nesse novo tempo.

Eu vejo essa Exortação, particularmente, como um rito do Sacramento do Crisma para toda Igreja, com o devido tapinha no rosto, para que acordemos e saiamos ao encontro dos demais. Ainda temos que nos debruçar mais demoradamente sobre cada parte da Exortação em si, o que farei nos próximos dias, mas já podemos nos alegrar por pertencermos a essa Igreja viva e operante.

Da mesma forma que o Sacramento da Confirmação só se inicia no rito e depois tem consequências para toda a vida do crismado, os caminhos pastorais da nova Exortação só começam agora, mas seus resultados ecoarão na Igreja nos próximos tempos.

(Texto enviado a ZENIT por José Caetano, Imago Dei News)