A barbárie de bibliotecas queimadas

Extremistas incendiaram e destruíram duas bibliotecas de Timbuktu, onde estavam guardados antigos manuscritos na língua árabe.

Roma, (Zenit.org) Valentina Colombo | 1166 visitas

Os franceses expulsaram os extremistas islâmicos, mas os danos causados deixarão por muito tempo uma longa cicatriz aberta. O patrimônio cultural do Mali foi provado duramente, e em alguns casos, destruído para sempre.

Um dos primeiros sinais de alerta provenientes do Mali foi de Agosto passado quando extremistas islâmicos do grupo Ansar al-Din (“os auxiliares da fé”) começaram a destruir os templos Sufis no norte do país.

Por ocasião daqueles trágicos acontecimentos do ataque aos símbolos religiosos do Mali, um adepto do Instituto Superior de Estudos e Pesquisa islâmica “Ahmed Baba” de Timbuktu prometia proteger com todas as forças os manuscritos custodiados pela instituição: “Se a biblioteca for destruída, tudo está perdido. Tudo. A nossa história, a nossa identidade cultural, a nossa identidade. Seria uma perda total”.

Bem, os extremistas islâmicos ligados à Al-Qaeda, não só não pouparam a biblioteca de Ahmed Baba, mas também outra biblioteca histórica da capital. Os manuscritos queimados são na sua maioria em língua árabe e de argumento principalmente religioso.

No site do  Tombouctou Manuscripts Project (www. tombouctoumanuscripts.org) pode-se ter uma ideia do tesouro inestimável que foi perdido, assim como da importância do livro e dos manuscritos na história da cidade: "O século XVI viu Timbuktu chegar à própria época de ouro, seja do ponto de vista da política que intelectual".

Os livros sempre foram uma parte importante do patrimônio cultural local onde os manuscritos eram copiados e vendidos. No século XVI Timbuktu, com as suas 150 escolas corânicas, é um dos centros mais importantes para o comércio dos livros. Ahmed Baba (1556-1627), a quem foi dado o nome de uma das bibliotecas incendiadas, costumava dizer que a sua biblioteca, que contava com 1600 obras, era uma das mais modestas da cidade.

O que tem acontecido nos últimos meses, deve levar à reflexão. O que aconteceu com um país que, em 2003, foi descrito pelo Departamento de Estado dos EUA como "uma jovem democracia, aberta à liberdade de imprensa e livre de violações dos direitos humanos"? Hoje o mesmo Departamento de Estado indica o perigo da presença de mesquitas wahabitas, da pregação extremista não só no Mali, mas em toda a África subsaariana.

Em uma área onde o Islã sempre foi representado por sua expressão Sufi ou seja mística, está se espalhando rapidamente uma ideologia que vê o sufismo como descrença, como heresia que deve ser combatida. O wahhabismo vê na aspiração do Sufi de unir-se e fundir-se com Deus por meio da oração um ato de politeísmo e de infidelidade, vê na crença e no recurso aos santos, parte fundamental do misticismo islâmico, mais um ato de incredulidade. Assim, no Mali e em países vizinhos está acontecendo uma guerra interna toda islâmica entre duas visões diametralmente opostas da mesma religião.

O ataque cruel a pessoas e ao patrimônio cultural e religioso esclarece perfeitamente que o islamismo radical não distingue entre muçulmanos e não-muçulmanos, mas somente entre si mesmo e o Outro, que o islamismo radical reconhece somente a cultura islâmica ortodoxa e não a diversidade do islã e dos muçulmanos.

A destruição das valiosas bibliotecas de Timbuktu confirma a miopia, a rigidez do wahabismo, que nega a chamada que lemos no Alcorão desde os primeiros versos revelados: "Recite. O seu Senhor é o Mais Generoso, ensinou o uso do cálamo, ensinou ao homem o que ele não sabia "(Alcorão XCVI).

As hordas de radicais islâmicos querem destruir o passado, o presente e o futuro, promovendo uma ideologia na qual impera o lema “pensar é ilícito”. Somente uma batalha cultural, dirigida a custodiar o passado, poderá salvar o mundo islâmico da barbárie que leva à destruição de tesouros arquitetônicos e de bibliotecas em nome do próprio Islã.

Somente uma chamada para respeitar o outro poderá salvar os muçulmanos da implosão por mãos de "criminosos" que promovem a ignorância tão vituperada no Islã e a paralisia mental de um mundo que nos deu intelectuais como Averroe e Avicena e escritores que não têm nada a invejar do nosso Dante e Petrarca.

Que os fatos do Mali ajudem o Ocidente a abrir os olhos e começar projetos culturais dirigidos a redescobrir e preservar a parte melhor do mundo islâmico ou a parte que os extremistas islâmicos, seja jihadistas seja os mais “moderados” Irmãos muçulmanos, gostariam de destruir, uns com as chamas e outros com a censura em nome do Islã, para tomar posse da mente das gerações futuras.

Que o Ocidente e o mundo muçulmano tenham sempre em mente as palavras de Jahiz, um dos maiores intelectuais do mundo árabe que viveu no século VIII: "Você culpa o livro! Mas que maravilhoso tesouro é! Quanta independência te deixa! Que amigo! Quantas munições te oferece! Quantas informações e que maravilhosa visão! Que prazer e que trabalho! Que familiar doce e gentil quando estás sozinho! Como amigo quando você está no exílio! Está perto de você e ao mesmo tempo distante, ministro e hóspede ao mesmo tempo! Um livro é um recipiente cheio de conhecimento, um recipiente transbordando refinamento e um vaso de seriedade e ironia!"

Ainda há tempo e a solução não está em outro lugar, mas na mesma tradição árabe-islâmica.