A colegialidade episcopal

A colegialidade afetiva faz do Bispo um homem que nunca está só porque está sempre e continuamente com os seus irmãos no episcopado e com aquele que o Senhor escolheu como sucessor de Pedro

Rio de Janeiro, (Zenit.org) Card. Dom Orani Tempesta, O.Cist. | 1103 visitas

Com muita alegria, recebemos nesta semana nossos irmãos no episcopado, para o 22º Curso para Bispos, no Centro de Estudos do Sumaré, aqui no Rio de Janeiro. Os temas que motivaram os documentos do Concílio Vaticano II, nestas comemorações dos seus 50 anos, continuaram a ser aprofundados. Neste ano, foi sobre Liturgia e Leigos, com a presença dos cardeais que conduzem os respectivos dicastérios. Sobre a missão da mulher leiga na Igreja e no mundo, falou-nos a responsável do Setor Mulher do Pontifício Conselho para os Leigos. Também aproveitamos para aprofundar o tema do Ano da Fé, e um irmão professor teólogo e Bispo do sul da Itália nos ajudou na reflexão.

Nesta época do Ano da Juventude, estamos vivendo um tempo forte na vida e missão da Igreja. Para as comemorações dos 50 anos do Concílio Vaticano II e os 20 anos da promulgação do Catecismo da Igreja Católica, o Santo Padre Papa Bento XVI convocou-nos a revisitar a eclesiologia conciliar com dois momentos marcantes: O Ano da Fé e o Sínodo dos Bispos.

Assim se expressou o Papa na audiência geral do dia 10/10/12, na Praça de São Pedro: "Penso também que devemos aprender a lição mais simples e mais fundamental do Concílio: o Cristianismo em sua essência consiste na fé em Deus, que é Amor trinitário, e no encontro pessoal e comunitário com Cristo, que orienta e conduz a vida. Tudo o mais é consequência. O Concílio nos recorda que a Igreja, em todos os seus componentes, tem o mandato de transmitir a palavra de amor do Deus que salva, para que seja ouvida e acolhida a chamada divina que contêm em si nossa felicidade eterna".

Com as experiências da semana que passamos com os irmãos bispos aqui em nossa Arquidiocese, quero unir-me em ação de graças a todos os demais, pela sua resposta de amor e fidelidade à Igreja. A nossa missão se fundamenta na eclesiologia de serviço (diakonia) e de comunhão (koinonia), fundamentadas nas bases cristológicas que o Vaticano II desenvolveu, e relacionou com Cristo servo-pastor-sacerdote-mestre a doutrina do episcopado, restituindo à ordenação episcopal (LG21) o valor de um dom específico decorrente da fonte pneumatológica (LG c.II), não mais restrito unicamente ao momento eucarístico, mas aberto à missão: portanto, nós, os bispos, fomos ordenados e consagrados para a missão (LG 22)[1].

A Igreja nos constituiu para o serviço ministerial no episcopado como legítimos sucessores dos Apóstolos e membros do Colégio Episcopal. Partícipes da solicitude de todas as Igrejas, exercem-na em comunhão e sob a autoridade do Sumo Pontífice, no que se refere ao magistério e regime pastoral, unidos todos em Colégio ou corpo, com relação à Igreja universal de Deus. Cada um toma o cuidado da Igreja Particular que lhe foi confiada (CD.3)[2]. Assim, para desempenharmos um fecundo ministério episcopal, nós somos chamados a nos identificarmos com Cristo de forma muito especial em nossa vida pessoal e no exercício do ministério apostólico, de modo que o "pensamento de Cristo" (1Cor2, 16) penetre totalmente as nossas ideias, nossos sentimentos e nossos comportamentos, e que a luz que irradia da face de Cristo ilumine nossa missão.

O Bispo, é o princípio visível de unidade na sua Igreja, é chamado a edificar incessantemente a Igreja particular na comunhão de todos os seus membros, e destes com a Igreja universal, vigiando para que os diversos dons e ministérios contribuam para a comum edificação dos crentes e para a difusão do Evangelho[3].

Vigário do "grande Pastor das ovelhas" (Heb13, 20), o Bispo deve manifestar com a sua vida e com o seu ministério episcopal a paternidade de Deus, a bondade, a solicitude, a misericórdia, a doçura e a autoridade de Cristo, o qual veio para dar a vida e para fazer de todos os homens uma só família, reconciliada no amor do Pai, e a perene vitalidade do Espírito Santo que anima a Igreja e a apoia na sua debilidade humana. Esta índole trinitária do ser e do agir do Bispo tem a sua raiz na própria vida de Cristo, que é toda ela trinitária. Cristo é o Filho eterno e unigênito do Pai desde sempre no seu seio (Jo1, 18) e o ungido do Espírito Santo, enviado ao mundo (cf. Mt11, 27 ; Jo15, 26 ; 16, 13-14)[4].

Entre as diversas imagens, a do pastor ilustra com particular eloquência o conjunto do ministério episcopal, na medida em que manifesta o seu significado, o seu fim, o seu estilo, o seu dinamismo evangelizador e missionário do ministério pastoral do Bispo na Igreja. Cristo Bom Pastor indica a quotidiana fidelidade à própria missão, a plena e serena dedicação à Igreja, a alegria de conduzir até o Senhor o Povo de Deus que lhe é confiado, e a felicidade por acolher na unidade da comunhão eclesial todos os filhos de Deus dispersos (cf. Mt15, 24; 10, 6). Na contemplação do ícone evangélico do Bom Pastor, o Bispo descobre o sentido do constante dom de si mesmo, recordando que o Bom Pastor ofereceu a vida pelo rebanho (cf. Jo10, 11) e veio para servir e não para ser servido (cf. Mt 20,28), como também aí encontra a fonte do ministério pastoral para o qual as três funções de ensinar, santificar e governar devem ser exercidas com os traços característicos do Bom Pastor.[5]

A colegialidade afetiva faz do Bispo um homem que nunca está só porque está sempre e continuamente com os seus irmãos no episcopado e com aquele que o Senhor escolheu como sucessor de Pedro. A colegialidade afetiva exprime-se como colegialidade efetiva no Concílio Ecumênico ou com a ação conjunta dos bispos espalhados pelo mundo, promovida pelo Pontífice Romano ou aceite por ele, de modo que aconteça um verdadeiro ato colegial. O afeto colegial, que não é um mero sentimento de solidariedade, efetua-se em graus diferentes, cujos atos possam ter consequências jurídicas. Este afeto concretiza-se de várias formas como, por exemplo, o Sínodo dos Bispos, a Visita ad limina, a inserção dos Bispos diocesanos nos Dicastérios da Cúria Romana, a colaboração missionária, os concílios particulares, as conferências episcopais, o empenho ecumênico ou o diálogo inter-religioso[6].

Com a consagração episcopal, o Bispo recebe uma especial efusão do Espírito Santo que o configura de forma muito especial com Cristo, Chefe e Pastor. O mesmo Senhor, "bom mestre" (Mt 19, 16), "sumo sacerdote" (Hb 7, 26) "bom pastor que oferece a vida pelas ovelhas" (Jo 10, 11), gravou o seu rosto humano e divino, a sua semelhança, o seu poder e a sua virtude no Bispo.

O Bispo terá sempre presente que a sua santidade pessoal nunca se fixa a um nível apenas subjetivo, mas transborda na sua eficácia em benefício dos que foram confiados ao seu cuidado pastoral. O Bispo deve ser uma alma contemplativa, além de homem de ação, de modo que o seu apostolado seja um "contemplata aliistradere". O Bispo, convencido de que nada pode fazer sem o "estar com Cristo", deve ser um apaixonado do Senhor. Além disso, não esquecerá que o exercício do ministério episcopal, para ser credível precisa da autoridade moral e da respeitabilidade que procede da santidade de vida, que sustentam o exercício do poder jurídico.[7]

Essas reflexões nesta semana particularmente preciosa para nossa unidade, pois as conferências e partilhas nos ajudam ainda mais em uma vivência fraterna e de comunhão, nos animam a nos apoiar mutuamente e a caminharmos com coragem neste tempo de tantos desafios para a missão a nós confiada pelo Senhor.

Que em atenção ao Ano da Fé, da Juventude, das conclusões do Sínodo dos Bispos e às portas da Quaresma e Campanha da Fraternidade possamos viver a fidelidade de nosso ministério episcopal no favorecimento e fortalecimento da colegialidade episcopal.

Que tenhamos a luz do Divino Espírito e a intercessão da Virgem Maria, a Senhora Aparecida, em nossa missão.

† Orani João Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

[1]LODI, E. Verbete: Bispo. In. Dicionário de Liturgia, pg. 154.

[2] Com. Vaticano II. Decreto “Christus Domini”, nº 3.

[3] Congregação para os Bispos. Diretório para o ministério pastoral dos Bispos: “Apostolorum Successores”, nº 8.

[4]  Cf. Hummes, Cláudio Card. Prefeito da Congregação do Clero. A Paternidade do Bispo.

[5] Cf. Congregação para os Bispos. Diretório para o ministério pastoral dos Bispos: “Apostolorum Successores”, nº 2.

[6] Idem, nº 12.

[7] Idem, nº 33.