A contribuição da vida monástica ao mundo de hoje é a gratuidade

Entrevista com a abadessa Ir. Martha Lúcia Ribeiro Teixeira, OSB, do mosteiro Nossa Senhora da Paz, de Itapecerica da Serra, SP

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 1751 visitas

A vida religiosa é uma “consagração particular ao Senhor”, com afirma o decreto Perfectae Caritatis do Concílio Vaticano II. Um chamado de Deus com esse “desejo de viver uma vida de união profunda com Deus e com os irmãos e irmãs através da oração”, afirmou à ZENIT a Ir. Martha Lúcia.

Nessa série de várias entrevistas com superiores de diversos mosteiros do Brasil, de diferentes ordens religiosas, hoje ZENIT entrevistou a abadessa Ir. Martha Lúcia Ribeiro Teixeira, OSB, do mosteiro Nossa Senhora da Paz, de Itapecerica da Serra, SP.

O mosteiro Nossa Senhora da Paz (www.mosteironossasenhoradapaz.org.br)  é uma comunidade de monjas beneditinas, fundado em 21 de Julho de 1974, como priorado dependente da Abadia de Santa Maria, e erigido em Abadia a 23 de  maio de 1983.

Publicamos a entrevista a seguir:

***

ZENIT: O que faz com que uma pessoa entre na vida monástica? Qual é o sentido da vida monástica hoje?

Ir. Martha: Toda vocação é sempre um chamado, um chamado de Deus para aquela determinada escolha. No caso da vida monástica é um desejo de viver uma vida de união profunda com Deus e com os irmãos e irmãs, através da oração.

O sentido da vida monástica hoje é o mesmo do início do monaquismo: é o desejo de procurar, de buscar, verdadeiramente a Deus; de viver o ideal dos primeiros cristãos, como nos narra o Livro dos Atos dos Apóstolos:  “Eles mostravam-se assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações”(At 2,42)

A contribuição da vida monástica ao mundo de hoje e de sempre é a gratuidade, o sentido da gratuidade. A beleza e a alegria da gratuidade. A gratuidade não se compra: talvez o mundo secularizado tenha perdido esse bem, perdendo, por conseguinte, a fonte da alegria genuína. Mas existe também outra mensagem que a vida monástica oferece ao mundo com sua mera existência: a vida dos monges e monjas, tão simples, aparentemente insignificante, é memória viva daquilo que é essencial para o homem: o amor do Pai que nos é dado em Jesus através do Espírito. Podemos viver sem outras coisas, mas não sem esse amor, que é precisamente a condição necessária e suficiente para viver e desfrutar a vida.

ZENIT: Fale-nos um pouco do seu mosteiro. Vida, número de membros, fundação...

Ir. Martha: Somos monjas beneditinas e seguimos a Regra de São Bento, o pai dos monges do Ocidente e padroeiro da Europa, que viveu no século VI, na Itália.

O nosso Mosteiro chama-se Mosteiro Nossa Senhora da Paz, e estamos localizadas na Cidade de Itapecerica da Serra, SP,  Diocese de Campo Limpo. Foi fundado em 1974 e é a última fundação da Abadia de Santa Maria , em São Paulo,  que foi o primeiro Mosteiro de monjas beneditinas das Américas; ele celebrou em 2011 o seu primeiro centenário, tendo suas raízes na Abadia de Stanbrook, Inglaterra.

Vieram 9 monjas fundadoras e 2 já se encontram na vida eterna. Atualmente ainda temos entre nós 5 das monjas fundadoras; a mais antiga, nossa primeira Abadessa, Madre Dorotéia Rondon Amarante, está com quase 97 anos e já celebrou seus 75 anos de profissão monástica.

Hoje, a nossa comunidade consta de 30 membros: 21 monjas de votos solenes, 5 monjas de votos temporários, 1 noviça, 2 postulantes e 1 religiosa em tempo de provação.

Vivendo em comunidade o mistério da vocação cristã, que nos torna filhas de Deus e irmãs em Cristo, as monjas têm um profundo relacionamento fraterno. Cada irmã tem o seu trabalho determinado e põe em comunhão seus talentos, habilidades e esperanças, a serviço de todas, na alegria da doação.

Juntas rezamos, juntas trabalhamos, juntas estudamos e temos nossos momentos de recreação; aceitamos, reciprocamente, as nossas limitações e nos ajudamos mutuamente a superar nossas dificuldades caminhando juntas para  Deus.

A comunidade não é apenas um meio humano para o crescimento das irmãs, mas possibilita comungar da vida de Deus, de Quem ela assegura, a seu modo, a presença e a ação.

A vida monástica beneditina é uma vida cenobítica (comunitária), caracterizada pela vivência da caridade fraterna. A monja deve participar de todos os atos comunitários: oração, trabalho, estudos, refeições, recreios. A caridade é o vínculo profundo que une toda a família monástica e a torna uma comunidade de fé, de oração e de trabalho, exemplo para a reconciliação universal em Cristo.

Vivemos  a espiritualidade beneditina segundo a Regra de São Bento. Essa espiritualidade alimenta-se em três mananciais da vida no Espírito: a Liturgia, a lectio divina (Sagrada Escritura) e a Regra de São Bento.

A comunidade, consciente de que a Eucaristia é o ápice da Liturgia e da vida cristã, reúne-se diariamente para a Celebração Eucarística.

ZENIT: Para o mundo vocês estão presas e estão perdendo a vida. É assim mesmo?

Ir. Martha: Absolutamente. Nossa vida é  fruto de um perpétuo diálogo entre Deus que nos chama e nossa liberdade. Ela é uma resposta livre a um apelo permanente que Deus nos faz, tanto de fora, pela voz da abadessa e da Santa Regra como interiormente, pelas solicitações íntimas do Espírito Santo, que são a Lei nova inscrita em nossos corações; ela nos liberta de toda coação exterior, de toda servidão da lei, fazendo-nos concordar, no mais profundo de nós mesmas, com todas as vontades divinas.

Nossa vocação só pode ser entendida numa perspectiva de mistério de amor. E  a resposta diária, que damos no início de cada Celebração Eucarística, nos ajuda a entender esse mistério: “o amor de Cristo nos uniu”!

ZENIT: Temos um Papa que escolheu um nome monástico para o seu pontificado, Bento XVI. O que tem significado Bento XVI para a espiritualidade monacal?

Ir. Martha: O Papa Bento tem sido para toda a Igreja de Deus o que ele mesmo disse, ao iniciar o seu Pontificado: “simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor”. Sua lucidez e sua interiorização da Palavra de Deus nos apontam o caminho para que todo o Povo de Deus caminhe sempre mais na direção do Senhor.

Para nós, beneditinos, ele confirma, com o testemunho de sua vida toda de doação, que a humildade é o caminho que nos aproxima sempre mais de Deus. Ele nos ensina e vive, o que é o lema dos beneditinos: uma vida de “ora et labora”, “nada antepondo ao amor do Cristo” (Regra de São Bento, cap 4,21),  “para que em tudo seja Deus glorificado”(RB 57,9).

Nesse sentido os seus escritos têm sido de transcendental importância para a nossa espiritualidade: o aprofundamento e o conhecimento da pessoa de Jesus Cristo.

ZENIT: A vida de oração é muito complicada?

Ir. Martha: Não, a vida de oração só fica complicada quando nós a complicamos, ou seja, fazemos inúmeras pregas no nosso relacionamento com Deus.

A vida de oração é simples: consiste em um encontro e um diálogo com o Senhor.

Uma comunidade é um ser vivo e deve respirar para viver, e agir para fazer o bem. A oração é a respiração vital da comunidade e de cada membro. É o sinal de nossa vida,  que a Regra invoca nas célebres  palavras que nenhum monge e monja pode esquecer: “Nada se anteponha ao Opus Dei”(RB 43,3).

Na vida beneditina, ela é dividida em dois momentos fortes do dia: a oração pessoal, chamada “lectio divina”, que consiste na leitura orante e ruminada da Sagrada Escritura, e a oração comunitária da Liturgia das Horas, o “Opus Dei”em que nos reunimos 7 vezes na Igreja para cantar os louvores do Senhor através dos hinos, salmos e leituras, específicos para cada hora do dia. Esse aspecto da nossa vida faz-nos já antecipar, aqui e agora, o que faremos na eternidade, concedendo-nos viver as realidades escatológicas. Quando nos reunimos para rezar o Ofício divino, já participamos da liturgia da Cidade celeste.

ZENIT: Há paz, detrás dessas grades ou muros? Qual é a essência de um consagrado?

Ir. Martha: A paz é sempre uma conquista diária. É um dos desejos mais profundos do coração do homem, juntamente com o amar e ser amado, com o ser feliz. E foi para isso mesmo que Deus nos criou. Para nós, na vida beneditina, fica claro  o convite que nos apresenta São Bento no Prólogo da sua Regra: “Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes”? Se, ouvindo, responderes “Eu”, dir-te-á Deus: “Se queres possuir a verdadeira e perpétua vida, guarda a tua língua de dizer o mal e que teus lábios não profiram a falsidade, afasta-te do mal e faze o bem, procura a paz e segue-a”.

Eis a questão decisiva. Aqui não se pode tratar senão de uma vida mais sublime que a terrena, a verdadeira e eterna vida que é equiparada à paz. Essa paz que almejamos e da qual jamais devemos abrir mão, é uma harmonia interior, reconciliação consigo mesmo, com Deus e com o próximo. Paz significa unidade, ausência de qualquer oposição. Só está apto para a vocação monástica, quem busca esta paz.

A paz decorre da experiência de vivermos na “Via do Senhor”. A Via é esse clima criado pelo senso agudo e entusiástico da presença ativa do Senhor ressuscitado, em cada um e na comunidade como um todo, incitando ao fervor de caminhar em seu Espírito, em pleno coração da história, construindo dia a dia o “já agora” do Reino no “ainda não”do tempo inaugurado pela Ressurreição do Senhor e pela efusão do seu Espírito.

A essência da vida consagrada é viver uma vida de total comunhão e intimidade com o Senhor, de total doação aos irmãos e irmãs, de, a exemplo de Jesus, amar de uma forma incondicional, e de passar por essa vida fazendo o bem, construindo, o Reino de Deus, de amor e de paz.

 ZENIT: Vocês fazem algum trabalho apostólico? Como está a preparação para a Jornada Mundial da Juventude 2013?

Ir. Martha: A vida monástica se distingue das outras formas de vida religiosa pela ausência de um fim “secundário”, como ter escolas, hospitais, missões, etc.; tem como única finalidade a busca de Deus. Mas dentro do nosso carisma próprio vivemos concretamente a solidariedade com as pessoas. Temos a hospedaria, onde partilhamos com as pessoas de fora a nossa riqueza: a vida de silêncio e de oração; atendemos quem vem aqui pedir a preparação de criança ou de adultos para o batismo, primeira comunhão, crisma, matrimônio. Damos assistência semanal a cerca de 70 famílias carentes, de nossa região, graças a doações de nossos amigos, benfeitores e familiares. E carregamos no coração toda a Igreja, apresentando na oração a necessidade e os pedidos de tantos que nos procuram por telefone, por e-mail, por cartas, e em nossos parlatórios.

Estamos acompanhando ainda mais com nossas orações, toda a preparação para a Jornada Mundial da Juventude, desde que soubemos que seria, pela primeira vez no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. Tivemos ainda a grande alegria de sermos indicadas por nosso amigo e oblato, o artista sacro, Cláudio Pastro, que também está envolvido na preparação da Jornada Mundial da Juventude, para prepararmos os livros da Liturgia das Horas, que serão distribuídos para cada jovem (em torno de 4 milhões de exemplares, em duas línguas: português e inglês). Assim nos vimos mergulhadas no coração da Jornada Mundial da Juventude, através desses momentos de oração dos jovens.

ZENIT: Qual é a espiritualidade que vocês seguem?

Ir. Martha: Seguimos a espiritualidade beneditina, que tem como elementos essenciais:

 O “renunciar-se a si mesmo para seguir o Cristo”, como condição  indispensável para buscar verdadeiramente a Deus, em Jesus Cristo e por ele.

O segundo elemento essencial é uma íntima vida de comunidade, dentro da qual se torna viável a realização desse despojamento. A Regra de São Bento define o mosteiro como uma “escola de serviço do Senhor”, uma vida cenobítica, comunitária.

O terceiro elemento essencial é a comunidade em torno de Cristo: esta se reúne, com “humilde e sincero amor”em torno de uma pessoa, a abadessa, que tem o lugar do Senhor e através da qual se manifesta às irmãs o amor com que Deus as ama.

O quarto elemento essencial da vida Beneditina é a oração e o trabalho, como duas realidades do Opus Dei. A vida beneditina é, muitas vezes, expressa pelo lema “ora et labora”. O trabalho aparece na Regra em harmoniosa alternância com o Ofício, a lectio divina e a oração particular.

E , finalmente, o quinto elemento essencial da nossa vida é o viver em Cristo, caracterizado por um dinamismo de saber-se caminhar, guiada pelo Evangelho, trilhando os seus caminhos.

ZENIT: Como os leitores de ZENIT podem ajudar o mosteiro de vocês?

Ir. Martha: Penso que uma primeira forma de ajudar o nosso mosteiro é rezarem por nós, para que possamos ser fiéis a esse grande carisma que nos foi confiado e assim sermos verdadeiras testemunhas da ressurreição de Cristo e do seu amor por  cada ser criado.

E se puderem colaborar de alguma forma para os trabalhos de nossa comunidade, podem entrar em contato conosco pelo e-mail:  contato@mosteironossasenhoradapaz.org.br .

Nosso site: WWW.mosteironossasenhoradapaz.org.br

Obrigada!