A cor do trigo

São Paulo, (Zenit.org) Vanderlei de Lima | 682 visitas

Elisa Hulshof, autora de A cor do trigo (Cultor de livros, 2013, 224p.) é uma jovem de 18 anos, católica, estudante de Design Gráfico na Universidade Federal do Paraná, que escreve crônicas demonstrando, de modo muito criativo, suas experiências do dia a dia sob vários ângulos, especialmente o da fé (cf. p. 17 e 21).

Embora não seja um livro acadêmico, nem sempre é simples e fácil acompanhar o raciocínio de Elisa, pois ao mesmo tempo em que ele se revela metafórico, é também lógico e profundo. Aliás, é isso que ela mesma parece definir ao escrever que “O mundo tem uma disponibilidade de analogias e comparações infinitas. Explicar-se usando de metáforas e parábolas é a coisa mais divertida do universo. Misturá-las em níveis insanos sem perder o tênue fio da lógica e da moral como pano de fundo é a minha especialidade” (p. 152).

Afinal, tem horas que aparece na obra a lógica incontestável da Disney na qual – em oposição à clássica Lógica de Aristóteles – algo pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Assim, seu príncipe é também princesa sem deixar de ser príncipe e a bruxa parece não existir para fazer o mal (p. 197; ver também p. 23).

Contudo, esses pressupostos da autora presentes no livro fazem dele uma fonte de reflexões sob vários temas da nossa fé católica, conforme podemos notar nos exemplos que a seguir apresentamos a fim de que o leitor conheça melhor a obra em foco.

Diz Elisa, num brado contra a mediocridade: as pessoas que falam muito, também dizem muito, ainda que sejam bobagens, mas não deixam de dizer, mesmo que hoje se prefiram informações curtas e rápidas, conforme as apresentadas pela internet, TV ou outros meios de comunicação. Essa gente “espera que a Bíblia seja resumida em uma ou duas frases, que o Decálogo seja enxugado em dois ou três mandamentos bem simples”.

“Mas como já foi dito, não posso negar a presença dos astros só porque alguns míopes presunçosos não conseguem vê-los. Negam então a existência de miríades de estrelas nos céus. Da mesma forma, o mundo gigante e complexo das minhas palavras não deixa de existir porque alguns patetas invertebrados (e pessoas que inclusive eu adoro) não conseguem enxergá-lo” (p. 86).

A autora reflete, como uma católica que sente dentro de si o que São Felipe Neri descrevia como o fogo do amor de Deus presente em nosso interior, os sentimentos em torno da renúncia do Papa Bento XVI com as seguintes palavras: “Sua amada Igreja estava vacante, a pessoas começaram a falar da sua amada Igreja, do seu santo Papa, as pessoas ficaram chocadas, as pessoas começaram a especular. E a brasa em seu peito ardia, e a sua alma se remexia, inquieta, sedenta! Afora a surpresa, não foi nenhum sentimento de dúvida, de decepção, de angústia – como seria para alguns católicos – o que a renúncia do Papa surtiu nela, mas sim um inexplicável desejo de se manter de pé, um farejar de mudanças, uma sensação de que seria preciso, finalmente, defender sua Igreja com unhas e dentes, de que seria preciso, finalmente, sofrer mil martírios, que seria finalmente preciso o extremo!”.

“Ela tinha um fogo dentro de si, que estava acordando, e que agora crepitava” (p. 121).

É inegável que, num mundo cada vez mais medíocre e materialista, as pessoas são chamadas a, interiormente, tentarem olhar aquilo que é invisível, mas existe. Tal é o caso, por exemplo, da dor interior, segundo reflete a autora: “A paixão de Cristo não foi outra coisa senão um festival de dores. Não só as dores da carne, que já são sozinhas uma quantidade absurda que eu fecho os olhos só de imaginar, mas ninguém jamais vai conseguir fazer ideia daquelas que Ele sentiu na alma, de ser rejeitado e crucificado por aqueles que Ele amava. De ser incompreendido, de não receber gratidão. De ter sido envergonhado e humilhado” (p. 209).

O livro termina justificando o seu título com o excelente convite a valorizarmos o efêmero a partir do Eterno, mas, se as lembranças do que se passou ou de quem se foi são dolorosas é “Porque somos seres humanos frágeis e solitários, somos apegados a tudo aquilo que nos faz felizes, e ainda mais apegados às nossas paixões. Mas, para aqueles que amam de verdade, para aqueles que veem partir aquela pessoa de quem verdadeiramente gostam... Não há como não lucrar com a cor do trigo. Não há como deixar de sorrir” (p. 222).

E continua Elisa a dizer que “Nem o fato de que a história chegou ao fim, pode tirar-me a cor do trigo”.

“A morte não vence o amor. Ela não venceu, e não vencerá nunca.”

“Uma história de amor não precisa ser uma história em que todos os amores são correspondidos. A maior de todas as histórias de amor, a de Cristo, é a menos correspondida da face da terra, e, no entanto é a mais poderosa e verdadeira.”

“Morte, você não tem a sua vitória, e eu lucro! Eu lucro por causa da cor do trigo!” (p. 223).

Chama atenção ainda a oportuna reflexão a respeito do valor da nossa consciência bem orientada, descrito na p. 122, de A cor do trigo que acreditamos ser de grande proveito aos adolescentes e aos jovens em idade e em espírito.

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