A cor para cobrir a cruz na Sexta-Feira Santa

Quem explica é o pe. Edward McNamara, LC, professor de teologia e diretor espiritual

Roma, (Zenit.org) Pe. Edward McNamara, L.C. | 2055 visitas

Um leitor dos EUA apresentou a seguinte pergunta ao padre Edward McNamara:

“No Novo Missal Romano, a cor para cobrir a cruz é o roxo, mas a cor dos paramentos é o vermelho. Notei que várias igrejas usam o vermelho, inclusive o Vaticano. Qual é a cor correta para se cobrir a cruz na Sexta-Feira Santa?”  M.P., St. Petersburg, Flórida

Publicamos abaixo a resposta do padre Edward McNamara.

O Missal Romano diz textualmente o seguinte para o quinto domingo da quaresma:

"O costume de cobrir as cruzes e as imagens da igreja pode ser observado se a conferência episcopal assim decidir. As cruzes permanecem cobertas até o fim da celebração da Paixão do Senhor, na Sexta-Feira Santa, mas as imagens permanecem cobertas até o início da Vigília Pascal".

Nenhuma cor específica é mencionada, mas é razoável assumir que seja o roxo, porque é a cor tradicional e corresponde ao tempo litúrgico.

O missal é mais específico no tocante ao primeiro modo de mostrar a cruz na Sexta-Feira Santa: "O diácono, acompanhado por ministros idôneos, vai à sacristia e, acompanhado por dois ministros com as velas acesas, parte em procissão carregando a cruz, coberta por um pano roxo, pela nave central da igreja".

Na forma extraordinária, o roxo é prescrito tanto para a Sexta-Feira Santa quanto para cobrir todas as imagens e cruzes expostas à veneração pública, antes das vésperas que precedem o primeiro domingo da Paixão (quinto domingo da quaresma no calendário atual). Imagens como as da via-crúcis, bem como pinturas, mosaicos e outras obras de arte colocadas em áreas das paredes, não precisam ser cobertas.

Como apontado pelo nosso leitor, no entanto, o Santo Padre tem usado um pano vermelho, nos últimos anos, durante a celebração da Sexta-Feira Santa. Este pode ser considerado um uso especial da liturgia papal, semelhante à tradição que indica os paramentos vermelhos para serem usados no funeral de um papa. 

De acordo com o grande historiador da liturgia, mons. Mario Righetti, a origem da prática de ocultar as imagens deriva provavelmente de um costume, em uso na Alemanha a partir do século IX, de estender um grande pano diante do altar no início da quaresma. Esse tecido, chamado Hungertuch (“pano da fome”), escondia o altar inteiramente durante a quaresma e só era removido durante a leitura da Paixão, na Quarta-Feira Santa, com as palavras "o véu do templo se rasgou em dois".

Alguns autores acreditam que havia uma razão prática para este costume: os fiéis, muitos deles analfabetos, precisavam de um modo para saber que se estava na quaresma. Outros argumentam que era um resquício da antiga prática da penitência pública, durante a qual os penitentes eram ritualmente expulsos da igreja no início da quaresma. Quando o ritual da penitência pública caiu em desuso e toda a congregação entrou simbolicamente na ordem dos penitentes ao receber as cinzas, deixou de ser possível “expulsá-los” do recinto da igreja. Em vez disso, o altar ou "Santo dos Santos" passou a ser escondido da vista de todos até a reconciliação com Deus na Páscoa.

Por razões semelhantes, mais tarde, na Idade Média, as imagens de cruzes e santos também começaram a ser cobertas desde o início da quaresma. A regra de limitar o costume ao tempo da Paixão veio mais tarde e não apareceu antes da publicação do Cerimonial dos Bispos, no século XVII.

Depois do Vaticano II, houve movimentos para abolir a cobertura das imagens, mas a prática tem sobrevivido, ainda que de forma mitigada.