A criação continua

Fala o padre Sabino Maffeo, membro da “Specola Vaticana”

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Por Antonio Gaspari e Maurizio Tripi

ROMA, segunda-feira, 29 de novembro de 2010 (ZENIT.org) – É verdade que Deus não existe? Só os que professam uma religião monoteísta abraâmica creem na hipótese de que exista um criador? Pode-se ser cientista e crente?

Trata-se de perguntas cada vez mais frequentes e, apesar da tentativa da Igreja Católica de explicar de maneiras diversas e articuladas que religião e fé discorrem por linhas paralelas e em muitos pontos convergentes, ressoam intervenções de ateus militantes que insistem na incompatibilidade absoluta entre ciência e fé.

Para aprofundar no debate aberto, ZENIT entrevistou o padre Sabino Maffeo, sacerdote jesuíta e membro da Specola Vaticana, o observatório astronômico dependente da Santa Sé.

ZENIT: Em seu último livro, Stephen Hawking afirma que Deus não serve para explicar o nascimento do universo. Que o senhor opina?

Padre Maffeo: A razão humana pode se enriquecer com conhecimentos de diferentes graus, quer dizer, em três níveis: em base à experiência sensível mediante os instrumentos proporcionados pela física, a química, a biologia e a matemática; em base ao raciocínio filosófico, que não utiliza instrumentos materiais, mas que argumenta sobre a realidade com base nas exigências inatas da razão; e em base à revelação por parte de Deus. Tem-se assim o conhecimento de coisas novas, devido à fé sobrenatural que é um dom que Deus quer dar a todos.

Nota importante: esses três níveis não são compartimentos fechados no sentido de que quando a mente humana trabalha no primeiro nível, e estuda por exemplo o olho humano, ou a estrutura de um favo de mel, ou a ordem geométrica de uma teia de aranha e tantas outras coisas maravilhosas, não pode deixar de maravilhar-se perante a ordem que há na natureza e passar ao nível superior de conhecimento para se perguntar como explicar esta ordem, com o caso ou com a finalidade devida a uma mente ordenadora, e daqui passar ao terceiro nível para encontrar confirmação na fé pelo que a revelação nos diz.

Permanecendo no primeiro nível, não se pode dizer nada sobre Deus, nem que existe nem que não existe. A busca de Deus, sua existência, sua criação do mundo, etc., não entra no primeiro nível enquanto realidade não suscetível de ser experimentada pelos sentidos.

O erro de Hawking é duplo: raciocina sobre Deus como se fosse uma realidade que se pode descobrir com argumentos de física e matemática, que são instrumentos de primeiro nível; tem um conceito errôneo de criação enquanto que fala de um Deus considerado pelos crentes como necessário para dar início ao mundo, que uma vez criado, vai adiante por si só (Deus relojeiro).

Na realidade, a criação é um ato contínuo de Deus, que deu início ao mundo do nada e o mantém no ser (continua criando-o) em todo instante para que continue existindo (criação contínua). Tudo isso podemos dizer que o sabemos pela razão, mas não só, porque está ajudada muitíssimo pela fé. Só pela fé sabemos que o mundo não foi criado ab aeterno, mas no tempo.

ZENIT: Pode nos indicar quais são as razões pelas quais crê na existência de um criador?

Padre Maffeo: Convencem-me as Vias de São Tomás, que, em princípio, deveriam bastar para convencer só a razão, mas de fato, dada a debilidade causada pelo pecado original, não convencem como que dois mais dois são quatro.

Neste sentido, o Catecismo da Igreja Católica, nos números 36 e 37, sustenta que “Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza com a luz natural da razão humana, partindo das coisas criadas”, citando o Concílio Vaticano I.

ZENIT: Nosso planeta é o único que tem vida no sistema solar. E não tem só flora e fauna, mas também está povoado de seres humanos. Como explica esta unicidade?

Padre Maffeo: Ninguém sabe como a vida se originou. Nasceu por si só ou foi necessária uma intervenção de Deus? Os ateus devem dizer que nasceu por si só, mas não têm provas. Estas se terão só no dia em que a vida se realizar no laboratório a partir de matéria não viva.

Eu, crente, tenho duas possibilidades: a vida apareceu por si só, ou por intervenção de Deus. Mas no que diz respeito ao ser humano, a fé me diz que na transição do não homem para o homem, é necessária a intervenção de Deus, quer dizer, a alma de todo ser humano está criada por Deus.

A respeito da vida em outro corpos do sistema solar, parece demonstrado que suas condições físicas e químicas não permitem a vida que conhecemos. Talvez foi possível em Marte em tempos muito remotos, o que se poderá demonstrar com futuras explorações do planeta. Permanece sempre, no entanto, o problema de saber se a vida veio por si só ou por intervenção de Deus.

ZENIT: Algumas pessoas pensam que um crente não pode fazer nem falar de ciência. Pode dar algum exemplo de cientista crente e católicos em particular?

Padre Maffeo: Quase todos os observatórios astronômicos italianos tiveram sua origem em seminários e ordens religiosas e estavam dirigidos por astrônomos que eram também sacerdotes. Pode-se ver informação sobre isso no site http://www.disf.org/altriTesti/Chinnici.asp. Um exemplo atual é a Specola Vaticana, onde os astrônomos são todos padres jesuítas. Pode-se ver também o livro de Ivan Tagliaferri e Elio Gentili: Scienza e Fede - I Protagonisti (De Agostini), de cerca de 300 páginas, com centenas de cientistas crentes. Vêm-me à mente alguns dos cientistas de fama mundial: Nicola Cabibbo, físico; Ennio de Giorgi, matemático; Max Plank, físico; Johan Gregor Mendel, geneticista; e depois Galileo Galileo; Isaac Newton; Kepler; Copérnico; Lemaître; Antonio Stoppani, e Angelo Secchi.