A criação não exclui a evolução, nem o contrário, diz cardeal

Dom Odilo Scherer comenta polêmica em torno de Darwin

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SÃO PAULO, quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009 (ZENIT.org).- O aniversário dos 200 anos do nascimento de Charles Darwin fez aparecer na opinião pública uma polêmica entre criacionismo e evolucionismo, vistos muitas vezes como opostos e excludentes, quando não é assim, afirma o arcebispo de São Paulo.

«A criação não exclui a evolução, nem o contrário», destaca o cardeal Odilo Scherer, em artigo publicado na edição desta semana do jornal arquidiocesano «O São Paulo».

Segundo o arcebispo, «a evolução é um fato evidente e não pode ser posta em dúvida; porém, se ela explica como as coisas se diferenciam e mudam, por diversos fatores, ela, contudo, não explica a origem absoluta dessas coisas». 

«É um fato que somente evolui e se transforma aquilo que já existe. Donde, ou de quem cada ser recebeu a existência e a ordem interna para ser aquilo que é, e não outra coisa?»

«Do nada? –prossegue Dom Odilo–. Do nada, nada surge, a não ser que algum agente “crie”, isto é, dê origem, tire do nada e faça existir algo. O acaso poderia ser este fator determinante? Como seria inteligente este acaso! A teoria do acaso é absurda. É melhor crer em Deus criador, isso não é absurdo.»

O arcebispo afirma que a evolução «explica “como” as coisas chegaram a ser aquilo que são, mas não explica o fato mesmo da existência das coisas, nem sua ordem interna e seu significado».

De acordo com Dom Odilo, também a hipótese da “explosão inicial” (Big bang), para explicar a origem do universo, «poderia ser apenas uma explicação parcial».

«É preciso explicar como passou a existir anteriormente um “algo”, que pudesse explodir; e explicar também a existência de uma lógica maravilhosa na origem do universo, que foi capaz de organizá-lo e de torná-lo a maravilha que ele é, em vez de ser o caos infinito e permanente.»

Decididamente –prossegue o cardeal Scherer–, a evolução «também não explica a própria existência do universo».

«Mas ela, como a ciência no seu todo, procura explicar “como” as coisas existem, são feitas, funcionam e interagem. E nisso não precisam estar contra a fé em Deus; nem precisa a fé em Deus negar a ciência. O verdadeiro cientista também pode ser profundamente religioso», afirma.

Dom Odilo explica que neste debate ressurge a questão antiga da relação entre fé e razão, entre ciência e religião.

«Trata-se de duas formas diversas de aproximação da realidade: a razão requer argumentos controlados por ela e convincentes para ela mesma; daí decorre o conhecimento científico moderno, que submete tudo ao seu método próprio e verifica a possibilidade de comprovar, com instrumentos que lhe são próprios, as afirmações sobre as realidades deste mundo.»

«Aquilo que o método científico não verifica e comprova, também não pode ser afirmado pela ciência; mas seria falso concluir logo: portanto não existe. A realidade existente é maior que o método e nem tudo cabe dentro dos limites que o método científico impõe a si mesmo», explica.

De sua parte, o conhecimento pela fé «faz afirmações baseando-se na revelação divina e vai além daquilo que a ciência pode controlar. A fé não é contra a ciência, mas vai além da ciência».

«Não é preciso abandonar a fé em Deus criador para aceitar o fato da evolução, que faz parte da sabedoria criadora de Deus; é um dinamismo interno nas coisas, que faz com que o mundo não seja estático e morto, mas cheio de vitalidade, esperança e futuro», afirma o arcebispo.