A crise que atinge a Europa: é uma crise espiritual e moral

64° Assembleia Geral da Conferência Episcopal Italiana

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CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 25 de maio de 2012(ZENIT.org) - O Santo Padre Bento XVI fala aos participantes da 64° Assembleia Geral da Conferência Episcopal Italiana.

Venerados e queridos irmãos,

É um momento de graça este vosso encontro anual em Assembleia, no qual vivem uma profunda experiência de confronto, de partilha e de discernimento para o caminho comum, animado pelo Espírito do Senhor Ressuscitado; é um momento de graça que manifesta a natureza da Igreja.

Agradeço o Cardeal Angelo Bagnasco pelas cordiais palavras com as quais me acolheu, fazendo-se interprete dos vossos sentimentos: ao senhor, eminência, dirijo os melhores votos para um novo mandato como presidente da Conferência Episcopal Italiana

O afeto colegiato que vos anima nutre sempre mais a vossa colaboração a serviço da comunhão eclesial e do bem comum da nação italiana, na interlocução frutuosa com as suas instituições civis. Neste novo quinquênio, prossigam juntos com o renovação eclesial que nos foi confiado no Concílio Vaticano II; que o 50º aniversário de seu início, que celebraremos no outono [no hemisfério norte], seja motivo pra aprofundar os textos, condição para uma recepção dinâmica e fiel. 

“O que mais importa ao Concílio Ecumênico é o seguinte: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz”, afirmava o beato Papa João XXIIIno discurso de abertura. E vale a pena meditar e ler estas palavras. O Papa empenhava os Padres a aprofundar e a apresentar tal perene doutrina em continuidade com a tradição milenar da Igreja: “transmitir pura e íntegra a doutrina, sem atenuações nem subterfúgio”, mas de modo novo, “tendo em conta os desvios, as exigências e as possibilidades deste nosso tempo” (Discurso da Solene Abertura do Concílio Vaticano II, 11 de outubro de 1962). 

Com esta chave de leitura e de aplicação - certamente não uma visão inaceitável de hermenêutica da descontinuidade e da ruptura, mas uma hermenêutica da continuidade e da reforma –, escutar o Concílio e fazer nossas as competentes indicações, constitui a estrada para individualizar as modalidades com as quais a Igreja pode oferecer uma resposta significativa às grandes transformações sociais e culturais de nosso tempo, que têm consequências visíveis também sobre a dimensão religiosa.

A racionalidade científica e a cultura técnica, de fato, não somente tendem a uniformizar o mundo, mas às vezes vão além dos respectivos âmbitos específicos, na pretensão de traçar o perímetro das certezas da razão apenas com o critério empírico de suas realizações.

Assim, o poder da capacidade humana termina por considerar-se a medida da ação, livre de todas as normas morais. Justamente, em tal contexto, não deixam de reemergir, às vezes de maneira confusa, um singular e crescente questionamento sobre a espiritualidade e o sobrenatural, sinal de uma inquietude que habita no coração do homem que não se abre ao horizote crescente de Deus.

Esta situação de secularismo caracteriza, sobretudo, as sociedades de antiga tradição cristã e corrói aquele tecido cultural que, até um recente passado, era uma referência unificadora, capaz de abraçar toda a existência humana e marcar os momentos mais significativos, do nascimento à passagem pela vida eterna. 

O patrimônio espiritual e moral no qual o Ocidente aprofunda suas raízes e que constitui sua força vital, hoje não mais é mais um valor profundo, a ponto que não está mais contido na instância da verdade. Também uma terra fecunda corre o risco de se tornar um deserto inóspito e a boa semente está sendo sufocada, pisoteada e perdida. 

Isso se reflete na diminuição da prática religiosa, visível na participação à Liturgia Eucarística e, ainda mais, ao Sacramento da Penitência. Tantos batizados perderam a identidade e a afiliação, não conhecem os conteúdos essenciais da fé ou pensam ser capazes de cultivá-la sem a mediação eclesial. 

E enquanto muitos olham com dúvida as verdades ensinadas pela Igreja, outros reduzem o Reino de Deus a alguns grandes valores, que têm certamente a ver com o Evangelho, mas que ainda não são o núcleo central da fé cristã. O Reino de Deus é dom que nos transcende. Como afirmava o beato João Paulo II, “o Reino de Deus não é um conceito, uma doutrina, um programa sujeito à livre elaboração, mas é, acima de tudo, uma Pessoa que tem o nome e o rosto de Jesus de Nazaré, imagem do Deus invisível” (Carta Encíclica Redemptoris missio [7 de dezembro de 1990], 18). 

Infelizmente, o próprio Deus foi excluído do horizonte de muitas pessoas; e quando não encontramos indiferenças, fechamento ou recusa, o discurso sobre Deus ainda está relegado no âmbito subjetivo, reduzido a um fato íntimo e privado, marginalizado pela consciência pública. Passa por este abandono, por esta falta de abertura ao Transcendente, o coração da crise que atinge a Europa, que é uma crise espiritual e moral: o homem pretende ter uma identidade composta simplesmente de si mesmo.

Neste contexto, como podemos corresponder à responsabilidade que nos confiada pelo Senhor? Como podemos semear com confiança a Palavra de Deus, para que cada um possa encontrar a verdade sobre si mesmo, a própria autenticidade e esperança? 

Estamos conscientes que não bastam novos métodos de anúncio evangélico ou de ação pastoral para fazer com que a proposta cristã possa encontrar maior colhimento e partilha. Na preparação do Vaticano II, a questão predominante e que a Sessão conciliar queria responder era: “Igreja, o que diz de si mesma?”.

Aprofundando tal questionamento, os Padres conciliadores foram, por assim dizer, reconduzidos ao coração da resposta: se tratava de partir novamente de Deus, celebrado, professado e testemunhado. Exteriormente por acaso, mas fundamentalmente não por acaso, de fato, a primeira Constituição aprovada foi aquela sobre a Sagrada Liturgia:o culto divino orienta o homem em direção à Cidade futura e para retornar a Deus, sua primazia, forma a Igreja, incessantemente convocada da Palavra, e mostra ao mundo a fecundidade do encontro com Deus.

A nossa volta, enquanto devemos cultivar um olhar grato pelo crescimento do bom grão também num terreno que se apresenta muitas vezes árido, sentimos que nossa situação requer um novo impulso, que aponta para aquilo que é essencial da fé e da vida cristã.

Num tempo no qual Deus se tornou para muitos o grande Desconhecido e Jesus simplesmente uma grande personagem do passado, não haverá um relançamento da ação missionária sem o renovamento da qualidade da nossa fé e da nossa oração; não sermos capazes de oferecer respostas adequadas sem um novo acolhimento do dom da Graça; não saberemos conquistar os homens pelo Evangelho sem tornar nós os primeiros a aprofundar a experiência com Deus.

Queridos irmãos, o nosso primeiro, verdadeiro e único dever permanece aquele de empenhar a vida por aquilo que vale a pena e permanece, por aquilo que é realmente confiável, necessário e duradouro. Os homens vivem de Deus, Daquele que muitas vezes inconscientemente ou somente tateiam buscando dar um sentido pleno a existência: nós temos o dever de anunciá-Lo, de mostrá-Lo, de guiar ao encontro com Deus. 

Mas é sempre importante recordar-nos que a primeira condição para falar de Deus é falar com Deus, tornar-se sempre mais homens de Deus, nutrir-se de uma intensa vida de oração e ser moldados por Sua Graça. 

Santo Agostinho, depois de um caminho desgastante, mas de sincera busca da Verdade encontrou-a finalmente em Deus. Então, se dá conta de um aspecto singular que enche de admiração e alegria seu coração: entende que ao longo todo seu caminho era a verdade que estava buscando e que o havia encontrado. Gostaria de dizer a cada um: deixamo-nos ser encontrados e capturados por Deus, para ajudar cada pessoa que encontramos a ser alcançado pela Verdade. 

É da relação com Ele que nasce a nossa comunhão e vem gerada a comunidade eclesial, que abraça todos os tempos e todos os lugares para constituir um único povo de Deus.

Por isso, quis instituir um Ano da Fé, que iniciará no dia 11 de outubro deste ano, para redescobrir e acolher novamente este dom precioso que é a fé, para conhecer de modo mais profundo a verdade que são as essências de nossa vida, para conduzir o homem de hoje, muitas vezes distraído, para um encontro renovado com Jesus Cristo “caminho, verdade e vida”. 

Em meios às transformações que afetam grande parte da humanidade, o Servo de Deus Paulo VI indicada claramente aquele dever da Igreja, aquele de “atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação” (Exort. Ap. Evangelii nuntiandi [8 de dezembro de 1975], 19). 

Queria aqui recordar como João Paulo II, em sua primeira visita como Pontífice em sua terra natal, visitou um bairro industrial de Cracóvia tida como uma “cidade sem Deus”. Somente a obstinação dos operários fez erguer a primeira cruz e depois uma igreja. Com estes sinais, o Papa reconheceu o início daquilo que pela primeira vez foi chamado de “nova evangelização”, explicando que “a evangelização do novo milênio deve referir-se à doutrina do Concílio Vaticano II. Deve ser, como ensina este Concílio, obra comum dos Bispos, dos sacerdotes, dos religiosos e dos leigos, obra dos pais e dos jovens”. E conclui: “Construístes a igreja; edificai a vossa vida com o Evangelho!” (Homilia no Santuário da Santa Cruz, Mogila, 9 de junho de 1979).

Queridos irmãos, a missão antiga e nova que está diante de nós é aquela de introduzir os homens e as mulheres do nosso tempo à relação com Deus, ajudá-los a abrir a mente e o coração àquele Deus, que buscá-os e quer estar próximo a eles, guiá-los a compreender que cumprir Sua vontade não é um limite à liberdade, mas ser realmente livres, realizar o verdadeiro bem da vida. 

Deus é grande, não é concorrente da nossa felicidade, e ao encontrar o Evangelho – e aqui a amizade com Cristo – o homem experimenta ser objeto de um amor que purifica, aquece e renova, e torna capaz de amar e servir o homem com amor divino.

Como evidencia oportuna, o tema principal desta vossa Assembleia, a nova evangelização necessita de adultos que sejam “maduros na fé e testemunhas de humanidade”. A atenção ao mundo dos adultos manifesta a vossa consciência do papel decisivo daqueles que são chamados, nos diversos âmbitos da vida, a assumir uma responsabilidade educativa nos relacionamentos com as novas gerações.

Assistam e operem para que a comunidade cristã saiba formar pessoas adultas na fé, porque encontraram Jesus Cristo, que se tornou a referencia fundamental de vida deles; pessoas que O conheçam porque O amam e O amam porque O conheceram; pessoas capazes de oferecer razões sólidas e confiáveis de vida. 

Neste caminho formativo é particularmente importante o Catecismo da Igreja Católica, que completa 20 anos de publicação, subsídio precioso para um conhecimento sistemático e completo dos conteúdos da fé e para guiar ao encontro com Cristo. Também graças a este instrumento, o assentimento da fé pode se tormar critério de inteligência e de alão que envolve toda a existência.

Encontramo-nos na novena de Pentecostes, gostaria de concluir esta reflexão com uma oração ao Espírito Santo:

Espírito de Vida, que em princípio pairava sobre o abismo,
ajude a humanidade do nosso tempo a compreender 
que a exclusão de Deus a leva a ferir-se no deserto do mundo,
e que somente onde entra a fé florescem a dignidade e a liberdade
e a toda sociedade se edifica na justiça.
Espírito de Pentecostes, que faz da Igreja um só Corpo,
restitui nós, batizados, em uma autentica experiência de comunhão;
torna-nos sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo,
comunidade de santos que vivem a serviço da caridade.
Espírito Santo, que nos torna hábeis para a missão,
concede-nos reconhecer que, também no nosso tempo,
tantas pessoas estão em busca da verdade sobre sua existência e sobre o mundo.
Faça-nos colaboradores da alegria deles com o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo,
grão de trigo de Deus, que torna bom o terreno da vida e assegura a abundancia da colheita.
Amém.