A cruz de Jesus é a nova "árvore da vida"

Bento XVI reflete sobre a natureza da criação de Deus

Roma, (Zenit.org) | 1360 visitas

Deus, como "Pai na criação", foi o tema da catequese do papa Bento XVI na audiência geral desta manhã. O credo, disse o Santo Padre, nos recorda em primeiro lugar a Sagrada Escritura (cf. Gn 1,1). Deus é, portanto, "a origem de todas as coisas e é na beleza da criação que se revela a sua onipotência de pai que ama".

"Como pai bom e poderoso, ele toma conta do que criou com amor e lealdade que nunca falham", continuou o papa.

Conforme apontado por São Paulo (cf. Hb 11,3), tendo sido o mundo criado por Deus, é a partir do invisível que toma forma o que é visível, e, assim, a fé significa "ser capaz de reconhecer o invisível mediante as suas marcas no mundo visível".

A inteligência humana pode encontrar na bíblia, à luz da fé, “a chave de interpretação para compreender o mundo”. Os primeiros seis dias da obra da criação divina do mundo são todos finalizados pela afirmação "Deus viu que isso era bom" (Gn 1,4.10.12.18.21.25).

No sétimo dia, dedicado à criação do homem, a afirmação do autor bíblico é reforçada: "Deus viu tudo o que tinha feito, e eis que era muito bom" (Gn 1,31).

"Tudo o que Deus cria é bom e belo, cheio de sabedoria e de amor. A ação criadora de Deus traz ordem, harmonia e beleza", ressaltou o papa.

Qual é o sentido, porém, "na era da ciência e da tecnologia, de ainda falarmos da criação?", questionou Bento XVI. "A bíblia não pretende ser um manual de ciências naturais; sua intenção é ajudar a entender a verdade genuína e profunda das coisas", respondeu.

Do Gênesis, portanto, aprendemos que "o mundo não é um conjunto de forças contrastantes, mas que a sua origem e estabilidade estão no Logos, na razão eterna de Deus, que continua a sustentar o universo".

Acreditar que o agir racional de Deus está na base da criação "ilumina cada aspecto da vida e nos dá a coragem de enfrentar com confiança e esperança a aventura da vida", acrescentou o papa.

O ser humano, por sua vez, na sua pequenez e limitação, é "capaz de conhecer e amar seu Criador" (constituição pastoral Gaudium et Spes, 12). A fragilidade humana, disse o papa, convive com "a magnitude do que o eterno amor de Deus quis para nós".

O Gênesis diz que o homem foi criado por Deus do "pó da terra" (cf. Gn 2,7), que torna todos iguais, sem distinções culturais nem sociais. O homem, portanto, não é deus, nem foi criado por si mesmo, mas tem originem "da terra boa, por obra de um Criador bom".

Todo homem é criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 2,7), de quem carregamos o "sopro de vida". "Esta é a razão mais profunda da inviolabilidade da dignidade humana perante qualquer tentação de avaliar a pessoa de acordo com critérios utilitários e de poder", reforçou Bento XVI.

Do Gênesis, prosseguiu ele, emergem duas imagens significativas. A primeira é "a árvore do conhecimento do bem e do mal" (cf. Gn 2,15), ponto de referência em Deus por parte do homem, que deve "reconhecer o mundo não como propriedade a ser saqueada e explorada, mas como um dom do Criador".

E há também a imagem da serpente demoníaca (cf. Gn 2,8-15), que insinua ao homem "a desconfiança de que a aliança com Deus seja como uma corrente que o prende, que o priva da liberdade e das melhores coisas da vida". Daí a origem de todas as tentações: da pretensão de "construir o próprio mundo, de não aceitar as limitações da criatura, os limites do bem e do mal, da moralidade".

Se o homem "perverte a relação com Deus com a mentira, colocando-se no seu lugar, todas as outras relações acabam alteradas" e o outro "se torna um rival, uma ameaça", a ponto de "a inveja e o ódio pelo outro entrarem no coração do homem" e Caim chegar a matar o próprio irmão Abel (Gn 4,39).

Caindo no pecado original, o homem se rebela não apenas contra Deus, mas "contra si mesmo", originando assim "todos os pecados da história". O primeiro pecado é a destruição da "relação com Deus", que, juntamente com as relações humanas, é o ponto de partida para o homem ser ele mesmo.

O homem não pode "redimir-se sozinho". Só Deus pode restaurar as "relações corretas". Se Adão tinha a pretensão de tomar o lugar de Deus, Jesus Cristo reconstrói o "relacionamento filial perfeito com o pai", rebaixando-se, tornando-se "servo" e percorrendo "o caminho do amor, humilhando-se até a morte de cruz"; a mesmo cruz que, assim, se torna "a nova árvore da vida".

Viver de fé, concluiu Bento XVI, significa, portanto, "reconhecer a grandeza de Deus e aceitar a nossa pequenez, a nossa condição de criaturas, deixando que Nosso Senhor a preencha com o Seu amor".