A decisiva relação de João XXIII com o Leste durante a crise dos mísseis

Entrevista com um pároco romano que trabalha com Igrejas orientais

Cidade do Vaticano, (Zenit.org) Sergio Mora | 398 visitas

Em meio aos preparativos da canonização de João XXIII, o pároco da igreja romana da Transfiguração, pe. Batista Pansa, nascido na cidade de João XXIII e encarregado da pastoral com comunidades de diversas Igrejas cristãs orientais em Roma, recordou nesta quarta-feira, no media center do Vaticano,  alguns particulares sobre João XXIII.

Entrevistado por ZENIT, ele ressaltou a importância da encíclica Pacem in Terris, que, junto com as relações de confiança criadas por aquele papa com os países do Leste, afastou o perigo de uma hecatombe nuclear, em particular durante a crise dos mísseis em Cuba.

Qual é a sua relação com João XXIII?

Padre Battista Pansa: Eu sou de Bérgamo, a terra onde ele nasceu, e tive uma relação pessoal com a família Roncalli. Quando o papa Roncalli foi eleito, eu tinha 9 anos, mas me lembro que, quando ele ainda era patriarca de Veneza, veio até Bérgamo e eu o vi de longe. Sempre tive alguma relação com a família dele, particularmente com o irmão dele, Saverio, e, quando fui ordenado sacerdote, na quarta-feira santa de 1974, celebrei uma das primeiras missas na casa natal de João XXIII, na localidade de Sotto il Monte, onde os irmãos de João XXIII estavam me esperando, Saverio e Assunta.

Qual foi o ponto mais importante da sua exposição no media center da Santa Sé?

Padre Battista Pansa: Destacar a encíclica Pacem in Terris. Ela ajudou a melhorar as relações entre o Leste e o Oeste, evitando um confronto que não ia ter vencedores nem vencidos, porque seria a destruição de tudo. A Pacem in Terris foi definida por Bento XVI, uma pessoa de grande profundidade, como a Rerum Novarum para o próximo século. A encíclica de Leão XIII marcou a doutrina social da Igreja durante cem anos.

A Pacem in Terris realmente conseguiu afastar o perigo de uma terceira guerra mundial?

Padre Battista Pansa: A Pacem in Terris não nasceu por acaso. João XXIII tinha tido uma série de relações e de contatos. Não vamos esquecer que ele foi visitador apostólico na Bulgária em 1925 e, oito anos depois, foi delegado apostólico na Turquia e na Grécia. Ele tinha um tecido de relações com o mundo do Leste, fazia amizades e, através das amizades, tecia relações de confiança. Ele foi o homem do diálogo com o Oriente e deixou uma porta aberta de diálogo inclusive com a União Soviética, mesmo no tempo de Stalin. Ele procurava a paz.

E na crise dos mísseis em Cuba?

Padre Battista Pansa: O apelo à paz que ele fez na Rádio Vaticano conseguiu deter os mísseis que os navios soviéticos estavam transportando para Cuba, quando estava preparado o bloqueio naval dos EUA para interceptá-los. O conselheiro de João XXIII, o cardeal Pietro Paván, que participou da redação da Pacem in Terris, foi um ponto de apoio nos Estados Unidos, junto com um dominicano de Massachussets que participava das reuniões com os soviéticos e mantinha o papa informado sobre o que eles pensavam do outro lado da cortina de ferro. Atenção: o papa João XXIII é apresentado como “o Papa Bom”, mas ele não era um bonachão simplório. Ele era um homem que tinha uma enorme rede de relações internacionais.