A derrota do " primogênito da morte"

Evangelho do VI Domingo do Tempo Comum

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ROMA, sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012 (ZENIT.org)

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Lv 13,1-2.45-46

"O Senhor falou a Moisés e a Arão e disse: Se alguém tem um tumor na pele ou uma pústula ou mancha branca que faça suspeitar de uma praga de lepra, será levado até o sacerdote Arão ou a algum dos sacerdotes, seus filhos. O leproso ferido de chagas se vestirá de trapos e andará de cabeça descoberta; velado até o lábio superior, gritará: ‘Impuro! Impuro!’. Será impuro enquanto lhe durar a doença; é impuro, ficará só e habitará fora do acampamento".

Mc 1,40-45

"Naquele tempo, um leproso se aproximou de Jesus e lhe implorou de joelhos, dizendo: ‘Se quiseres, podes tornar-me limpo’. Jesus lhe teve compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse: ‘Quero. Sê limpo’. E, imediatamente, desapareceu dele a lepra e ficou limpo. E Jesus severamente o admoestou, mandou-o partir e lhe disse: ‘Não digas nada a ninguém, mas vai, mostra-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que Moisés ordenou como testemunho para eles’. Mas eis que o leproso curado afastou-se e começou a proclamar e a divulgar a notícia, de modo que Jesus já não podia entrar abertamente numa cidade, mas permanecia fora, em lugares desertos, e as pessoas vinham a ele de toda parte".

"A calamidade devorará a sua pele, o primogênito da morte roerá seus membros" (Jó 18,13): com esta impressionante expressão, Jó define a lepra como "a primeira criatura" da morte.

Esta doença devastadora, então incurável, foi considerada a filha primogênita da morte pelo duplo motivo de fisicamente devorar os membros humanos e ainda obrigar o doente a viver sem relacionamentos, como um cadáver. "Tanto que a tradição judaica igualava o leproso à criança natimorta, e a sua cura eventual era considerada como uma verdadeira ressurreição"(G. Ravasi).

A palavra "primogênito", referindo-se à morte, indica um "filho" mortífero, uma mortal desgraça que ocupa o primeiro lugar em importância, o filho mais letal de todos e o verdadeiramente capital, capaz de gerar e comandar muitos outros males entre os homens.

Tal geração perversa leva assim a pensar na ação escondida do Maligno, o inimigo número um da vida do homem e o principal responsável pela sua pior morte, a da alma, devida ao pecado.

Os leprosos do tempo de Jesus viviam como não-pessoas, totalmente excluídos da vida da comunidade, declarados "impuros" pelo sacerdote. Este diagnóstico infausto privava o paciente antes de tudo da possibilidade de acesso ao templo e à oração, alienando-o da comunhão filial com Deus e o separando da relação com os irmãos. Criado à imagem do Deus da vida, aquele homem ou mulher se via forçado a viver à imagem da morte, que representa em si o fim irreversível de toda relação humana.

Voltemos agora para o nosso tempo.

A compaixão de Jesus pelo leproso, com a sua afirmação absoluta de querê-lo curar ("Quero, sê limpo"), revela uma única e permanente vontade de Deus para com cada ser humano: a vontade de deixá-lo saber a verdade de si mesmo como pessoa criada à imagem do amor trinitário, para a alegria de uma vida baseada na experiência do amor recíproco e da providência divina.

Desde o primeiro instante da concepção, de fato, o ser humano é um sujeito único em seu gênero: "Recorrendo a imagens, poderíamos dizer que a pessoa, como sujeito, se distingue dos animais, mesmo dos mais completos, pela sua interioridade e pela vida concentrada nela, uma vida que lhe é própria, a sua vida interior. A vida interior é a vida espiritual. Ela se concentra em torno do verdadeiro e do bom. A pessoa se comunica, assim, não só com o mundo visível, mas também com o mundo invisível e especialmente com Deus" (K. Wojtyla, Amor e Responsabilidade, Introdução).

Voltando ao leproso curado, talvez estejamos pensando que o mundo antigo bíblico seja muito distante de nós, que estamos lidando aqui com problemas climáticos, com a crise econômica no mundo, com problemas concretos do trabalho e da família.

Mas se isto é verdadeiro quanto à lepra do corpo, embora muitas doenças e injustiças ainda marginalizem hoje o homem do próprio homem, certamente não é quanto à lepra de consciência, que é o pecado pessoal, e, em particular, o pecado do aborto.

Podemos assim dizer, de fato, que o aborto voluntário da nossa época, no nosso mundo, em nossa sociedade, é o "primogênito da morte".

Ele é o primogênito da morte em todos os níveis: no nível dos direitos humanos, no da paz, no da justiça, no da educação, no da família e até mesmo no da atual crise econômica mundial. Ele é esse primogênito da morte a partir de todo ponto de vista humano: moral, psicológico, espiritual.

O aborto é o primogênito da morte no coração da mãe da criança assassinada. Ao destruir a relação com o filho, o aborto voluntário arranca do seu âmago a alegria de viver, comprometendo, por conseguinte, todos os seus relacionamentos pessoais, começando pela relação fundamental consigo mesma e com Deus.

O aborto é o primogênito da morte em todas as nações que o legalizaram, introduzindo nas próprias instituições o princípio destruidor da paz e da verdadeira civilização, baseada na justiça e no acolhimento dos mais frágeis.

O aborto é o primogênito da morte na alma de quem decide praticá-lo e de quem o executa, mesmo que seja com a desculpa da chamada "contracepção de emergência" ou da inseminação artificial, porque é um pecado grave que interrompe o relacionamento vital com Deus, até que o perdão sacramental o regenere, com a purificação da alma na água viva da sua misericórdia.

Só o Primogênito dentre os mortos pode derrotar no coração e no mundo inteiro o primogênito da morte.

A este respeito, quero recordar as seguintes palavras significativas de Bento XVI: "A oração não é um acessório, um opcional, mas uma questão de vida ou morte. Só quem reza, quem se confia a Deus com amor filial, pode entrar na vida eterna, que é o próprio Deus".

Pe. Angelo del Favero 

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O pe. Angelo del Favero, cardiologista, co-fundou em 1978 um dos primeiros Centros de Ajuda à Vida nos arredores da Catedral de Trento, na Itália. Tornou-se carmelita em 1987, ordenou-se sacerdote em 1991 e foi conselheiro espiritual no santuário de Tombetta, perto de Verona. Atualmente se dedica à espiritualidade da vida no convento carmelita de Bolzano, na paróquia de Nossa Senhora do Monte Carmelo.