A enculturação na Igreja

Populações com ritos ancestrais: bispo de San Cristóbal de las Casas reflete sobre como oferecer a elas a plenitude que Jesus nos trouxe

San Cristóbal de las Casas, (Zenit.org) Felipe Arizmendi Esquivel | 347 visitas

Um grupo de assessores do CELAM está reunido em Bogotá para tratar de um tema delicado da pastoral, que é a teologia indígena. Estamos preparando o nosso V Simpósio, a realizar-se na Bolívia em maio próximo, com o objetivo de prosseguir no caminho do aprofundamento a propósito dos conteúdos doutrinais dessa teologia, para avançar no seu esclarecimento à luz da Palavra de Deus e do Magistério da Igreja.

Preocupa-nos que alguns menosprezem e satanizem as culturas originárias sem conhecê-las a fundo; gostariam, esses, que tudo o que é indígena desaparecesse da história social e eclesial. Nestes simpósios tenta-se discernir, em costumes, ritos e mitos indígenas, o que o amor do Pai semeou neles por meio do seu Espírito, para oferecer a eles a plenitude que Jesus nos trouxe.

Em paralelo, ainda existem resistências ao uso do termo “Igreja autóctone”, como se implicasse um apartar-se da eclesiologia do concílio Vaticano II, quando em realidade é um esforço, certamente fronteiriço, de se viver o que o Espírito disse e diz a este respeito às Igrejas. É o que entendemos quando falamos de Igreja enculturada nas culturas indígenas, mestiças, urbanas e modernas.

O decreto Ad gentes, do Vaticano II, ordena: “Devem crescer da semente da Palavra de Deus em todo o mundo Igrejas particulares autóctones suficientemente fundamentadas e dotadas de energias próprias e maduras, que, providas suficientemente de hierarquia própria, unida ao povo fiel, e de meios adequados para viver uma vida plenamente cristã, contribuam, conforme lhes corresponde, para o bem de toda a Igreja. O meio principal para esta plantação é a pregação do evangelho de Cristo. Para anunciá-lo, o Senhor enviou os seus discípulos ao mundo todo, a fim de que os homens, renascidos pela Palavra de Deus, ingressem pelo batismo na Igreja, a qual, como corpo do Verbo Encarnado que é, se alimenta e vive da Palavra de Deus e do pão eucarístico” (6). Isto, que o Espírito pede, é o que procuramos viver.

Segundo João Paulo II, a enculturação é “a encarnação do evangelho nas culturas autóctones e, ao mesmo tempo, a introdução dessas culturas na vida da Igreja” (Slavorum Apostoli, 21). “Ao entrar em contato com as culturas, a Igreja deve acolher tudo o que, nas tradições dos povos, é compatível com o evangelho, a fim de lhes comunicar as riquezas de Cristo e enriquecer a si mesma da sabedoria multiforme das nações da terra” (Ao Pontifício Conselho para a Cultura,17 de janeiro de 1987).

Diz o concílio que a penetração do evangelho num determinado meio sócio-cultural, por um lado, “fecunda a partir de dentro as qualidades espirituais e os próprios valores de cada povo..., os consolida, os aperfeiçoa e os restaura em Cristo” (GS 58); por outro, a Igreja assimila esses valores, na medida em que compatíveis com o evangelho, “para aprofundar melhor a mensagem de Cristo e expressá-la mais perfeitamente na celebração litúrgica e na vida da multiforme comunidade de fiéis” (Ibid).