“A Europa tem de mudar sua política sobre família e vida”

Entrevista a Luca Volontè, da Comissão de Assuntos Sociais do Conselho da Europa

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Por Antonio Gaspari

ROMA, quarta-feira, 27 de janeiro de 2010 (ZENIT.org).- Apesar da queda demográfica, que está criando enormes problemas de caráter econômico e social, na União Europeia há grupos que sustentam uma constante redução dos nascimentos.

Uma política ainda mais favorável ao aborto e às teorias malthusianas será defendida no dia 29 de janeiro no Conselho da Europa por Christine McCafferty, durante a apresentação do informe “Quinze anos depois do programa de ação da Conferência internacional sobre população e desenvolvimento”.

Em 1994 realizou-se no Cairo a conferência das Nações Unidas sobre população e desenvolvimento. Outra conferência sobre este tema deveria ter acontecido dez anos depois, mas os grupos a favor do aborto preferiram deixar passar, porque a administração norte-americana, então guiada por George Bush, se faria contrária às políticas anti-vida.

Agora, com a nova administração americana, os mesmos grupos malthusianos estão convencidos de que conseguirão fazer passar suas políticas sobre temas de vida e família.

Para compreender melhor os termos do debate, ZENIT entrevistou Luca Volontè, membro da Comissão de Assuntos Sociais do Conselho da Europa.

–Em que consiste o Informe “Quinze anos depois do programa de ação da Conferência internacional sobre população e desenvolvimento”? 

–Volontè: O Informe tem como objetivo introduzir o “direito ao aborto” como direito humano. O texto declara, de acordo com a opinião dos Socialistas europeus e da conferencista, McCafferty, membro da International Planned Parenthood Federation (IPPF), que a redução da população mundial é fundamental para o desenvolvimento e o bem-estar das nações (ideologia malthusiana). Ademais, apresenta aspectos ulteriores e muito preocupantes, convidando os governos dos 47 países europeus a introduzir, desde a primeira infância escolar, uma educação sexual e uma introdução aos métodos de “saúde sexual reprodutiva”. Em uma palavra, quer-se transformar a ocasião dos 15 anos da conferência do Cairo num passo para estas ideologias anti-humanas que não encontram até agora nenhum consenso internacional.

–O Foro das associações familiares italianas e outras associações como a ECLJ (European Center for Law & Justice) criticaram fortemente este Informe, afirmando que promove o aborto como um meio de planejamento familiar, e que defende o controle da população segundo uma mentalidade malthusiana. Qual é seu parecer a esse respeito? 

–Volontè: Tenho colaborado muito ativamente com os Foros das famílias italianas e europeias, trabalho assiduamente com diversos institutos europeus e americanos que atuam na defesa e promoção dos valores da família fundada no matrimônio heterossexual e na vida humana. Portanto, e disso dão testemunho minhas emendas concretas, firmadas por representantes de muitas nacionalidades, estamos nos empenhando com muitos amigos para modificar radicalmente o Informe McCafferty ou, ao contrário, para rejeitá-lo na Assembleia.

–A Europa sofre uma gravíssima crise demográfica. Atualmente, na UE se pratica um aborto a cada 25 segundos e um divórcio a cada 30. Sobre a base destes dramáticos dados, lhe parece necessário discutir planos de alargamento da possibilidade de aborto? Não seria o caso de discutir como ajudar as mulheres a limitar o número de ‘interrupções voluntárias da gravidez’? 

–Volontè: Estou absolutamente de acordo. A crise demográfica europeia, ademais de ser inaceitável no plano leigo e religioso (basta aqui recordar a grande tradição judaico-cristã e a lúcida batalha de Norberto Bobbio e Pier Paolo Pasolini na Itália), é totalmente irracional para quem se importa com o futuro da Europa. O inverno demográfico terá consequências devastadoras no bem-estar de todos os países, reduzirá a riqueza e diminuirá a força de trabalho e a inovação do continente europeu. Disso deveríamos discutir e sobre estes problemas deveríamos trabalhar na Assembleia e no Comitê dos Ministros dos 47 países do Conselho da Europa.

Com relação ao segundo aspecto, o desejo de paternidade e maternidade dos jovens europeus e das famílias europeias é altíssimo. Os governos estão trabalhando para avaliar estes desejo positivo dos cidadãos europeus, enquanto que a Assembleia parece distraída e vinculada em uma mentalidade cega e surda. Confio em que, também graças a um Informe meu aprovado na Comissão de Assuntos Sociais, possa-se empreender o caminho correto de investimento na coesão familiar para produzir coesão social e capital humano.

–Não acredita que chegou o tempo de adotar políticas econômicas e sociais em apoio da cultura da vida e da família? 

–Volontè: Todos os indicadores e os estudos estatísticos e sociais nos empurram a investir na coesão familiar, na família como célula e fator de educação, responsabilidade, virtudes civis e portanto “bons cidadãos”. Os dados sobre a decadência dos jovens que viveram condições de rupturas familiares são dramáticos, a dispersão de capital humano e de custos para o bem-estar dos países está levando nações inteiras ao colapso. Esta década, tão dramática, é a maior ocasião que a Providência nos dá para relançar com força, como recordava João Paulo II e nos diz Bento XVI, a Doutrina Social da Igreja e a centralidade da vida e da família. Nós estamos convencidos desde sempre. Agora que a história confirma, seria paradoxal que os cristãos comprometidos, na vida pública se fechassem, temerosos, no silêncio. 

–Sobre estes temas, como se definiram os grupos políticos presentes no Conselho da Europa? 

–Volontè: No Conselho da Europa (47 países, dos quais 27 são membros da UE), enfrentam-se duas grandes posições. A Popular, geralmente favorável, mas demasiadamente tímida na defesa destes valores, com amplos setores conservadores (GDE), e a guiada pelos Socialistas, com alianças significativas com setores Liberais e de Esquerda radical, ligados às velhas ideologias de origem marxista leninista, malthusiana, eugenésica e libertária. Em resumo, um perene capricho irracional de 68. É cada vez mais urgente responder de modo concreto ao chamado do cardeal Ratzinger em 2004, quando convidava todos os crentes, não só os políticos, a formarem uma “minoria criativa” e, acrescento eu, “combativa”. Não perdemos a esperança, oremos uns pelos outros para ser testemunhos dignos neste tempo terrível e fecundo que o Senhor nos dá, seguros da verdade das palavras do Papa Bento XVI, “Deus se faz carne e nos acompanha em nossa vida”.