A experiência do perdão

Reflexão de Dom Orani João Tempesta, O. Cist.

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RIO DE JANEIRO, domingo, 6 de junho de 2010 (ZENIT.org).- Publicamos o artigo de Dom Dom Orani João Tempesta, O. Cist., arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro, sobre o perdão de Deus.

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Dias atrás ao escutar uma experiência da época da infância de uma cristã que, em sua cidade natal, ouvia na Semana Santa passar as pessoas batendo as portas e chamando o povo para se converter pensei em nossa caminhada nestes últimos tempos: passamos de uma tradição cristã que nos chama a uma nova vida para esta época em que pouco a pouco se foi destruindo a noção de pecado. Essas idéias entraram em nós com tanta força que até mesmo a celebração penitencial deixou de ser o grande momento de alegria da graça de Deus na vida do pecador - basta ver a diminuição da frequência da confissão.

É claro que muitas situações antigas dependiam da cultura e situação da época. Cabe a nós hoje discernirmos os caminhos para que esse chamado seja uma presença que interesse às pessoas: que experimentem que vivendo uma vida de conversão é que serão verdadeiramente felizes. Conversão significa a mudança de vida e de mentalidade. Isso supõe arrependimento, contrição, coragem de voltar ao Pai e pedir perdão! O grande desejo de Deus é que todos busquem a perfeição de vida e se convertam, tendo em vista a vida nova em Cristo agora e na eternidade. Deus não quer que o homem pereça no seu pecado. Ele providenciou um "remédio". Na pessoa do seu Filho Eterno, Ele tomou a nossa natureza sobre si (em outras palavras, tornou-se homem), e então, como Deus e como Homem, tornou-se o mediador entre Deus e os homens, e, ao morrer na cruz pelos pecados do homem, redimiu o homem e lhes deu uma "Nova Vida".

Converter-se é deixar de viver longe de Deus. Sair do estado de infelicidade, deixar o pecado. Conversão consiste em voltar para o Senhor com todo coração, retomar o caminho das suas veredas. A conversão significa uma profunda mudança de coração sob o influxo da Palavra de Deus. Essa transformação interior exprime-se nas obras e, por conseguinte, na vida inteira do cristão. A conversão significa a vitória sobre o "homem velho" que está enraizado no mal (a existência carnal) e o começo de uma vida nova (a vida no Espírito) criada e governada pelo Espírito Santo de Deus. Converter-se é deixar de viver na mentira. Quem se converte afasta-se da mentira. O pecado é mentira. Por isso, a conversão requer uma mudança total de mentalidade, um espírito novo, o Espírito da Verdade. A conversão é um ‘sim' à verdade.

Conversão é à volta à casa do Pai e a entrada no Reino. É a passagem das trevas do pecado para a luz da Graça. O caminho que Deus aponta, conduz a uma conversão séria e autêntica do coração. Deus apela para a liberdade humana e a íntima conversão desta liberdade é obra Sua. Muitos pensam que a misericórdia e o perdão fariam da pessoa alguém que não muda de vida, o que é exatamente o contrário: o verdadeiro arrependimento já é uma mudança radical para uma nova vida. Outros acreditam que apenas a vingança resolve as amarguras e revoltas que gritam nos corações dos homens.

A conversão culmina - é próprio da sua essência - em um novo nascimento, num renascimento do alto, de Deus. A volta à casa do Pai é a reintegração nos direitos de filho. Não é algo que se processa unicamente no exterior, mas é uma ação interior, uma modificação vital, um nascimento pelo Espírito. Para o homem, a conversão é, pois, infinitamente mais que o simples fato negativo de se livrar da escravidão do pecado, porque, para Deus, converter-se é infinitamente mais que perdoar pecados, é fazer o dom de uma vida nova. O homem torna-se filho de Deus.

Se no passado algumas atitudes penitenciais marcaram a nossa história, no entanto, a conversão permanece como necessidade da pessoa humana que precisa respirar uma nova vida e ser feliz! Hoje, como ontem, a pessoa é chamada a fazer a experiência de uma nova vida segundo os planos de Deus. A alegria que brota do interior do coração que busca a Deus faz com que a pessoa seja transparente e coerente em sua existência. Eis o grande dom que ainda hoje necessitamos!

Quando encontramos com Cristo e vivemos uma vida de conversão, as atitudes, comportamentos, conceitos sobre a vida e a dignidade humanas são também novos em nossa vida - aquilo que parece impossível à pessoa humana, na realidade é possível na vida de quem crê. Mais do que proibições, as normas, mandamentos do Evangelho são indicações da verdadeira liberdade e felicidade da pessoa humana.

No Santo Evangelho narrado segundo São Lucas, capítulo 15, vemos que o amor do Pai é o fundamento da atitude de Jesus diante dos homens. Respondendo à crítica daqueles que se consideram justos, cheios de mérito e se escandalizam com a solidariedade para com os pecadores, Jesus narra três parábolas. Refletindo sobre a terceira parábola lucana, vemos que ela tem dois aspectos: o processo de conversão do pecador e o problema do "justo" que resiste ao amor do Pai. Popularmente, nós a conhecemos como "A parábola do filho pródigo ou do Pai misericordioso". Ela nos ensina a destacar a conversão na iniciativa de Deus. Em Sua Misericórdia, Ele prepara e aceita os primeiros sintomas de arrependimento. Como sempre, o Senhor está de mãos estendidas para nós. Quase nos toca, só falta um pequeno gesto nosso para que Ele nos abrace carinhosamente em Seu amor. Seu perdão é completo e sem reprovações. O Reino de Deus exulta de alegria quando um pecador é convertido. Portanto, reconheçamo-nos necessitados de perdão para colhermos as incontáveis graças do Senhor, pois Deus não quer que nenhum dos seus se perca, mas que tenha a vida plena em abundância.

+ Orani João Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ