A família de um presidenciável: lições de generosidade e fé

Discreta em virtude da atividade política de seu pai, essa família vem, agora, ao conhecimento de toda a nação e mostra que ser numerosa é algo possível também no mundo de hoje, quando amparada pela fé.

São Paulo, (Zenit.org) André Parreira | 879 visitas

Muitas lições podemos tirar da uma tragédia como a que ocorreu com o presidenciável Eduardo Campos e sua equipe. Mas, quero apenas comentar e agradecer à esta família pelo belo exemplo que deram ao povo brasileiro. Discreta em virtude da atividade política de seu pai, essa família vem, agora, ao conhecimento de toda a nação e mostra que ser numerosa é algo possível também no mundo de hoje, quando amparada pela fé.

À medida que as imagens exibiam a família logo após o desastre, muitas pessoas se mostravam admiradas positivamente e se comoviam pelo fato de terem 5 filhos. Mas não é só isso, também o exemplo de fé me chama a atenção.

Numa sociedade onde se casar jovem parece ser coisa de gente sem instrução e sem perspectivas,  Eduardo e Renata mostram o contrário, em sintonia com a Igreja que vê o contínuo adiamento do casamento como um estilo de vida que desvaloriza a dimensão humana, com desastrosas consequências para a família[1] . Se casaram ainda jovens para construírem uma vida juntos, o que tem mais profundidade de se apenas juntarem duas vidas já construídas.  

A abertura à vida foi nítida, mesmo numa sociedade onde parece que somente tem muitos filhos quem não sabe evitá-los. O Papa Francisco, há dois meses, criticou a cultura do bem-estar que faz pensar ser melhor não ter filhos para poder ter uma casa de campo e ficar tranquilo e até disse que há quem troque ter filhos por ter cachorrinhos e gatos. Assim, muitos casais que criam barreiras e colocam em patamar superior aos filhos a carreira, o patrimônio, seus títulos acadêmicos ou simplesmente as noites de sono. 

A família Campos faz parte de uma minoria no mundo atual. Os pais foram generosos. E a generosidade não se refere apenas à questão financeira, mas também a repartir o tempo, os finais de semana, as noites de sono e a abrir mão de tantas outras coisas em favor de se colaborar com Deus na obra da criação.  No caminho inverso, hoje, criam-se tantas necessidades, frutos da mentalidade consumista que levam à conclusão que não se é possível mais ter filhos

E com 23 anos de matrimônio receberam com alegria o quinto filho. Este, nascido em janeiro de 2014, diagnosticado no ventre com síndrome de Down, foi acolhido com a expressão de um de seus irmãos, reforçada pelo seu pai no Facebook:  “Como disse seu irmão, você chegou na família certa! Agora, todos nós vamos crescer com muito amor, sempre ao seu lado”. E acrescentou sobre o nome escolhido para o menino: "Tem o nome do bisavô e de São Miguel Arcanjo. Seu significado em hebraico ("Quem será como Deus?"), lembra da nossa humildade diante do Senhor."

Nestes dias de sofrimento, à espera do cadáver de seu pai, a família se amparou também na fé. Duas missas foram celebradas em sua casa, além da missa de corpo presente com uma multidão no dia de seu enterro. E mesmo na dor, como certeza de fé e em um momento no qual muitos católicos diriam "não ter cabeça para isso", a mãe Renata fez questão que seu filho de oito anos fizesse a primeira Eucaristia. Isso com o apoio espiritual de um sacerdote que já era conhecido da família e há tempos os atendia em confissões e aconselhamentos. 

Eduardo usava medalhas que expressavam sua fé e que foram encontradas nos escombros do acidente. Ainda que com alguma mesclagem de superstição (um trevo de quatro folhas no meio das medalhas),  predominavam imagens de Nossa Senhora e de São Francisco.  Simplicidade franciscana refletida no seu túmulo, em uma área popular do cemitério.

Reforço que não faço julgamento de sua eficiência como político, profissional ou qualquer outro panorama que não seja a simples reflexão de ver nesta família um contraponto à cultura predominante. Quero apenas refletir que viver em uma bela família é possível para todos, seja qual for a classe social ou a profissão. O projeto de Deus é para todos e, na fé, ele se concretiza.

Também agradeço a este casal, Eduardo e Renata, que fortalece o coro do qual fazemos parte minha esposa e eu. Não são raras as vezes que comentários e olhares nos fazem parecer ter vindo de outro planeta por termos seis filhos (por enquanto) e buscarmos educá-los na fé católica e na simplicidade! Até mesmo pessoas próximas e de "fé" não conseguem disfarçar o espanto sempre que comunicamos, com alegria, mais uma gravidez. Influenciadas por uma cultura que tem medo dos filhos, ainda não abriram os olhos para a beleza de se dizer sim ao chamado de Deus para serem generosos cooperadores Dele na criação da vida. 

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André Parreira (alparreira@gmail.com), da diocese de São João del-Rei-MG, é autor de livros sobre a preparação para o Matrimônio e responsável no Brasil pelo DVD "Sim, Aceito!", lançado em parceria com a Pastoral Familiar da CNBB. Empresário, casado e pai de 6 filhos, colabora na formação de jovens e casais e é colunista colaborador de ZENIT.

[1] Preparação para o sacramento do Matrimônio, parágrafo 12,

http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/family/documents/rc_pc_family_doc_13051996_preparation-for-marriage_po.html