A fascinante vida da beata Mary Mackillop

A Fundadora das Irmãs de São José será canonizada no próximo dia 17 de outubro

| 1236 visitas

Por Carmen Elena Villa

ROMA, sexta-feira, 16 de julho de 2010 (ZENIT.org) - Audaz, intrépida e à frente de seu tempo. Ao mesmo tempo doce, bondosa e muito espiritual. Assim era Mary Mackillop (1842-1909), a primeira australiana a ser reconhecida como santa.

Bento XVI irá canonizá-la no próximo dia 17 de outubro na Praça de São Pedro, no Vaticano. Para conhecer mais detalhes de sua vida, ZENIT entrevistou a postuladora da causa de canonização, a Ir. Mary Casey, das Irmãs de São José do Sagrado Coração, congregação religiosa fundada pela futura santa.

ZENIT: Como Mary Mackillop viveu em sua infância e juventude?

Irmã Mary Casey: Mary MacKillop, filha de imigrantes, nasceu em Scotland (Melbourne), uma cidade que tinha somente sete anos de existência. A Austrália havia sido colonizada por europeus cerca de 100 anos atrás. Seus pais, Alexander e Flora, chegaram de forma separada, mas talvez tenham se conhecido na Escócia, seu local de procedência.

Mary nasceu em 15 de janeiro de 1842, foi a primeira dos 8 filhos. Seu pai não tinha um emprego estável e, por isso, eles mudavam muito. Muitas vezes dependiam de seus familiares para poder viver. Desde muito nova Mary teve de trabalhar, primeiro em uma papelaria, depois como professora e como instrutora de seus primos. Mary amava a natureza e tinha um grande afeto por sua família.

ZENIT: Como sentiu o chamado para fundar as “Filhas de São José”?

Mary Casey: Quando Mary era instrutora no sudeste da Austrália, deu-se conta de que havia muitas crianças na área rural que não tinham educação, especialmente as crianças católicas. Ela sonhava em ser religiosa, mas deixou de lado este sonho para ajudar sua família. Enquanto trabalhava como instrutora, conheceu um sacerdote, o Pe. Julian tenison Woods, cuja paróquia era muito grande, tinha praticamente a mesma extensão que a Inglaterra. Ele a apoiou em seu sonho. Ela não quis entrar em nenhuma congregação religiosa que estava presente na Austrália, cujo trabalho estava mais focado nas cidades. Em 1866, ela e sua irmã abriram o primeiro colégio em um estábulo desativado que fica em Penola. Assim nasceu a congregação das Irmãs de São José do Sagrado Coração.

Aconselharam Mary que se mudasse para Adelaide, onde a nova congregação se expandiu tão rápido quanto as outras colônias da Nova Zelândia. Pediram seu apoio. Logo Mary definiu algumas casas para as moças solteiras grávidas, para as mulheres que saíram da prisão e para idosos carentes.

ZENIT: Quais são suas principais virtudes?

Irmã Mary Casey: Lembramos de Mary tanto pelas obras que fez como pela pessoa que foi. Ela viveu o Evangelho, o imperativo de amar o próximo como a si mesma. Ela deu dignidade aos pobres, especialmente para as mulheres que estavam num ambiente de grandes dificuldades. Tratava os indígenas com o respeito que até esse momento ninguém havia tratado. Como instrutora, se fez amiga das crianças indígenas e lhes ensinou a ler e escrever.

ZENIT: De onde vinha tanta bondade?

Irmã Mary Casey: Mary recebeu de sua mãe uma profunda fé na Providência de Deus. Ela viveu como muitos crentes e contagiava suas irmãs pela fé. Sua fé viva, sua ativa esperança, caridade e abertura para a ação da graça nutriam sua vida diária e se faziam evidentes no exercício de suas virtudes.

Com valentia, doçura e compaixão, viveu isolada nas zonas rurais com os habitantes das favelas e com as pessoas de classe trabalhadora. Ela foi leal à Igreja e teve um carinho especial pelos sacerdotes e pelo apostolado deles. Nunca permitiu que suas irmãs de comunidade falassem mal de um sacerdote ou bispo. Seu dom em maior destaque foi a bondade.

Depois de sua beatificação, o primeiro-ministro da Austrália dirigiu-se ao Parlamento, reiterando sua contribuição. “As qualidades que ela consagrou – abertura e tolerância, valentia, persistência, fé e amor pelos demais – são qualidades que as nações devem viver, seja pessoal ou comunitariamente” (Paul Keating, 21 de janeiro de 1955).

Há dois anos, durante sua visita a Sydney para a Jornada Mundial da Juventude, o Papa Bento XVI, referindo-se a Mary MacKillop, disse: “conheço sua perseverança em momentos de adversidade, sua pregação pela justiça em nome dos que são tratados injustamente e seu exemplo prático de santidade, virtudes que se converteram em uma fonte de inspiração para todos os australianos”.

ZENIT: Por que dizem que era uma mulher com uma mentalidade avançada para seu tempo?

Irmã Mary Casey: Por várias razões. Em primeiro lugar, na Austrália, ela queria que suas irmãs estivessem sob o comando de uma religiosa que era a superiora geral, e que tivesse a liberdade de enviá-la onde fosse necessário. Naquela época, as religiosas estavam sob a jurisdição do bispo local. Ela queria que suas irmãs vivessem como os pobres, em pequenas comunidades de duas ou três irmãs e em lugares distantes, onde tanto a missa como os sacramentos nem sempre estavam ao alcance delas. Além disso, ela tinha uma visão da Austrália como um todo, quando esta era apenas um país formado por colônias individuais.

ZENIT: Um acontecimento insólito ocorreu em sua vida: a excomunhão pelo bispo de Adelaide, por que isso aconteceu?

Irmã Mary Casey: As razões de sua excomunhão são complexas. Mas o problema final foi que um dos conselheiros do bispo disse a Mary que o bispo queria que ela voltasse imediatamente para a zona rural. Mary respondeu que ela necessitava vê-lo antes de retornar para lá. Sua resposta foi comunicada ao bispo como uma rejeição a seu pedido. Seus conselheiros lhe recomendaram excomungá-la e assim ele procedeu.

ZENIT: O que ela fez?

Imrã Mary Casey: Quando Mary foi excomungada, as outras irmãs foram proibidas de falar com ela e muitas foram afastadas da congregação. Mary foi acolhida por seus amigos e por comerciantes judeus, que proporcionaram para ela uma casa. Os padres jesuítas perceberam esta injustiça e continuaram a ministrar-lhe os sacramentos. Cinco meses depois da excomunhão, o bispo percebeu seu erro e em seu leito de morte enviou um dos sacerdotes para que cancelasse a sentença. Durante o tempo de excomunhão, Mary nunca pronunciou uma palavra contra o bispo e continuou orando por ele.

ZENIT: Qual foi o milagre para sua canonização?

Irmã Mary Casey: Foi a cura de uma mulher que sofria de um grande câncer que na teoria não tinha cura nem tratamento algum. Tinham dado a ela poucas semanas de vida, no tardar alguns meses. Sua família, seus amigos e as irmãs de São José oraram por meio da intercessão da beata Mary MacKillop para sua rápida recuperação. Passaram-se dois anos e ela está viva, bem e conforme as mais estritas provas de evidência médica, livre do câncer.