A fenomenologia como um instrumento de terapia psicológica

Entrevista com a psicóloga clínica Maria Izabel de Aviz

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 3670 visitas

Em entrevista à ZENIT do dia 9 de novembro de 2012, a Mestre em psicologia, Maria Izabel de Aviz (CRP: 01/10262), também irmã do Cardeal Dom João Braz de Aviz, explicou o seu método terapeutico que usa a fenomenologia como um instrumento de terapia psicológica. Dado que naquele momento a entrevista foi publicada em três partes e resultou de difícil acesso para alguns leitores de língua portuguesa, por petição de vários leitores, republicamos hoje a entrevista na sua íntegra.

A psicóloga clínica Maria Izabel de Aviz mora em Brasília, onde também tem o seu consultório. É graduada em psicologia pela Pontifícia universidade católica do Paraná em 1978. Especializada em recursos humanos pela FAE/ Curitiba e Mestre em Psicologia pela Universidade Católica de Brasília em 2010.

Para maiores informações pode enviar um email para: mabelaviz@gmail.com

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ZENIT: O que é a fenomenologia?

Maria Izabel: Vamos começar entendendo um pouquinho o que é fenomenologia. Fenomenologia é uma escola filosófica fundada por Edmund Husserl, que começou na Alemanha, no fim do século 19 e na primeira metade do século 20; portanto fenomenologia é uma filosofia.

A palavra fenomenologia tem origem grega e é formada de duas partes: “fenômeno” que significa “aquilo que se mostra”; não somente aquilo que aparece, mas aquilo que se manifesta, que se mostra; e “logia” que deriva da palavra “logos”, que para os gregos tinha muitos significados, mas neste caso da fenomenologia, vamos tomar a palavra “logos” comopensamento, como capacidade de refletir”. Então podemos entender fenomenologia como reflexão sobre um fenômeno ou sobre aquilo que se mostra.

Mas nos perguntamos: o que é que se mostra? E como se mostra? Esse é o nosso problema! Quando em fenomenologia dizemos que alguma coisa se mostra, estamos dizendo que essa coisa se mostra para nós, se mostra para o ser humano, se mostra para a pessoa humana;e isso faz toda a diferença e tem grande importância para nós hoje porque as coisas se mostram para nós; isto é, nós é que buscamos o significado, o sentido daquilo que se mostra para nós. Mais do que dizer que ”as coisas se mostram”, precisamos dizer que “percebemos, que estamos voltados para essas coisas” que se mostram para nós, principalmente para aquilo que aparece no nosso mundo físico.

Quando dizemos “coisas” não tratamos apenas do significado de coisas físicas, mas também das coisas abstratas e a um conjunto de situações, como por exemplo, o significado de coisa cultural, eventos, fatos, que não são de ordem estritamente física. Todas as coisas que se mostram para nós as tratamos como fenômenos que conseguimos compreender o sentido. O que mais interessa a nós pessoas humanas é compreender o sentido delas e não o fato delas se mostrarem. Aqui podemos perceber a grande contribuição de Husserl para ajudar a psicologia, (que é uma ciência particular e não uma filosofia) a compreender esse sentido que nem sempre é compreendido imediatamente. Precisamos fazer uma série de operações para podermos identificar o sentido de tudo àquilo que se manifesta a nós; e essas operações estão no campo de pesquisa da psicologia.

O grande desafio da filosofia hoje e também o seu problema é buscar o sentido das coisas, dos fenômenos, tanto de ordem física quanto de caráter cultural, religioso etc., que se mostram á pessoa humana, no seu viver cotidiano.

ZENIT: A fenomenologia pode ser um instrumento de terapia psicológica?

Maria Izabel: Essa foi a descoberta mais importante que fiz na minha vida profissional e para o meu agir psicológico. Quando percebi a riqueza, a segurança e a profundidade do método fenomenológico proposto por Husserl comecei a me entender como um profissional mais responsável e mais capaz de ajudar no sofrimento das pessoas que me procuravam para fazer a psicoterapia.

A fenomenologia não é psicologia, ela é uma filosofia que diz que o ser humano é um inteiro formado por partes, formado por vários âmbitos que não podem ser separados do inteiro. Para podermos ver o ser humano na sua inteireza precisamos alargar os nossos horizontes, caso contrário não compreenderemos o ser humano na sua totalidade e certamente cometeremos erros nos usos que fazemos dos nossos métodos terapêuticos.

ZENIT: Desde quando a senhora se enveredou por esse caminho? Qual é a sua formação psicológica?

Dra. Maria Izabel: Na minha graduação, a formação que me foi transmitida estava fundamentada em métodos interpretativos e em métodos de redução do comportamento humano ao comportamento animal. Isso me fez desacreditar da psicologia e abandoná-la por 18 anos. Comecei a conhecer a fenomenologia no ano de 1997, quando me submeti a uma psicoterapia de bases fenomenológicas, que aplicava ao sofrimento do paciente, uma parte do método fenomenológico proposto por Husserl. Essa psicoterapia e a relação terapêutica vivenciada em cada sessão da terapia com o meu terapeuta, me fez entender qual e como deveria ser o meu agir como um profissional psicólogo. Comecei então a buscar informações, orientações, cursos, livros, pessoas que me ensinassem a fazer a prática do método fenomenológico. Para mim não era mais uma questão só profissional, mas também pessoal. A tal ponto me envolvi com a fenomenologia, que hoje tenho dificuldades para aceitar que ela não seja ensinada e praticada nas escolas e na formação das pessoas; mesmo porque, Husserl propõe o método e a análise fenomenológica como um processo muito simples e natural para se poder perceber, conhecer e entender a pessoa humana na sua totalidade, unicidade e complexidade. Existem coisas que o ser humano não conhece, mas existem coisas que só o ser humano pode e é capaz de conhecer.

ZENIT: Quais são as referências mundiais na utilização dessa metodologia em terapias psicológicas?

Dra. Maria Izabel: Desde o seu começo a psicologia conhece a proposta filosófica da fenomenologia que é de “conhecer como é o ser humano e como o ser humano conhece”. Desde o inicio da psicologia a fenomenologia propõe o “saber como é o ser humano, quais as suas capacidades superiores, para depois poder dizer como o ser humano é feito”; no entanto, a forte influência do positivismo que impôs a jovem ciência da psicologia a demonstração dos estados psíquicos usando os esquemas das ciências físicas, suas medidas e representações, distanciou a fenomenologia da psicologia, e deu grande ênfase aos métodos interpretativos e reducionistas para demonstrar e/ou conhecer o ser humano. Hoje um grande número de profissionais da área de ciências humanas faz um grande esforço para demonstrar que “o ser humano compreende muita coisa, mas não se compreende dentro dessa posição positivista”.

Não existe uma psicologia pura como ciência positiva. A ciência positiva não é a única  base da psicologia, porque a psicologia não nasce só dos fatos. A psicologia precisa aproximar-se da filosofia para que esta lhe diga como é o ser humano. Isso está impulsionando a psicologia a buscar novamente estabelecer com a fenomenologia e a antropologia, uma relação que lhe dê acesso ao conhecimento puro do ser humano e a utilização de instrumentos próprios da fenomenologia para compreender a estrutura da pessoa humana. O agir psicológico hoje se tornou impossível sem a base da filosofia.

Vou citar aqui como minha referência, a filósofa contemporânea Angela Ales Bello que é professora emérita de História da Filosofia Contemporânea na Universidade Lateranense de Roma, e dirige o Centro Italiano de Pesquisas Fenomenológicas, associado ao The World Phenomenology Institute e faz parte do conselho de redação de várias revistas italianas e estrangeiras. As suas publicações são predominantemente voltadas à investigação da fenomenologia alemã do século 20, comparada a outras correntes do pensamento contemporâneo, com especial referência aos temas de Edmund Husserl e Edith Stein.

ZENIT: Quais dificuldades a pessoa pode superar com esse método?
Dra. Maria Izabel: A fenomenologia se preocupa em perceber o sentido do fato e a psicologia se preocupa em conhecer o processo que leva àquele fato. A compreensão dessa relação entre a filosofia fenomenológica que nos dá a estrutura da pessoa humana e o processo psicológico voltado para a subjetividade da pessoa que o vivencia e que só pode firmar-se dentro do si mesmo da pessoa, dá ao psicólogo a possibilidade da epoché (redução fenomenológica, que era o estilo próprio de Husserl fazer sua pesquisa). Entender a passagem de como as vivências que estão dentro de nós transcendem as coisas que estão fora de nós, nos faz compreender: a relação de mim comigo mesmo, de mim com o outro semelhante a mim, de mim com o outro diferente de mim e de mim com as coisas sem vida.
Com esse método todas as vivências humanas podem ser analisadas, sejam elas consideradas positivas ou negativas, boas ou ruins, dificuldades ou possibilidades, porque essa relação permeia os estados corpóreos, os psíquicos e os que transcendem o corpo e o psíquico da pessoa humana. Podemos escolher o que queremos, mas precisamos conhecer o que escolhemos.

ZENIT: Normalmente, qual é a sua proposta? Necessita-se de muito tempo para começar a dar-se conta da melhoria?
Dra. Maria Izabel: A psicoterapia que proponho no meu consultório é uma psicoterapia breve, onde procuro desenvolver da melhor forma que dou conta a epoché, ou redução fenomenológica proposta por Husserl, para conhecer junto com o meu paciente o sentido do seu sofrimento.
È uma psicoterapia de relação; é uma psicoterapia vivencial onde é evidenciada a capacidade da pessoa humana de se explicar e de se entender a si mesma através das suas vivências. Mas tudo isso é feito de um modo muito natural, nada complicado, tudo é muito simples e do jeito que a pessoa dá conta das suas vivências. A postura terapêutica é de aceitação e compreensão dos recursos que nascem da subjetividade do paciente, sem impor ou cobrar dele o que o terapeuta considera, conhece ou quer. Na sessão de terapia se vivencia e se busca juntos, do jeito que tanto o paciente quanto o terapeuta dão conta de chegar a vivência que deu origem ao sofrimento do paciente. O fio condutor é a análise da vivência.Só então o paciente é solicitado a se posicionar em relação àquela vivência.

ZENIT: Há muita procura, em Brasília, para essa terapia?
Dra. Maria Izabel: Há. E impulsionada pela responsabilidade da minha experiência com o sofrimento humano no meu consultório, pretendo aprofundar sempre mais o estudo e a pesquisa da fenomenologia para ajudar a psicologia e a psicoterapia a responderem de maneira mais eficaz e profunda os anseios da pessoa humana. 
Quero poder dar aos meus pacientes e as pessoas que me procuram para desvendar as causas psicológicas dos seus sofrimentos, condições de traçar um caminho próprio no conhecimento de si mesmos, possibilitando o confronto dos dizeres da fenomenologia com os seus empenhos pessoais. Acredito que é partindo das nossas vivências dentro de nós que percebemos e podemos conhecer como somos feitos e o que é verdadeiramente humano.