A formação dos padres

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Edson Sampel*

SÃO PAULO, quinta-feira, 29 de novembro de 2012 (ZENIT.org) - Formar padres é um problema vital no Brasil e no mundo. Sem dúvida, nossa sociedade adoecida precisa de padres bem preparados, na medida do possível. Costumo dizer aos meus alunos seminaristas que num futuro não remoto o padre será um tipo de divisor de águas; o papel dele transcenderá o ministério religioso. De fato, a realidade parece estar de ponta-cabeça: o que antigamente era errado é correto hoje! Como se costuma dizer: depois de uma longa época de mudanças, enfrentamos agora uma mudança de época.

Cada país tem suas características educacionais. O Brasil, por infelicidade,  parece ter malogrado principalmente na educação básica. Resultado disso é que boa parte dos jovens vocacionados têm sérias dificuldades de aprendizado, vale dizer, encontram-se incapacitados para frequentar um curso universitário.

São João Maria Vianney, o padroeiro dos presbíteros, teve enorme dificuldade intelectual de acompanhar os estudos teológicos. Padrou-se mesmo assim, por beneplácito das autoridades eclesiásticas. Esse santo era exceção no seu tempo. No momento atual, em nosso país, tudo leva a crer que a exceção virou a regra.

Certa feita, quando os fariseus pediram a Jesus que calasse os discípulos, qual foi a resposta do divino fundador da Igreja católica?: “Digo-vos que se estes se calarem, as pedras gritarão” (Lc 19,40). Ora, se na contemporaneidade, não podemos contar com os recursos humanos qualificados que, sob o influxo do hedonismo, preferem os pseudovalores do dinheiro e do prazer aos valores do evangelho, temos de imputar o ministério sacerdotal àqueles que não são intelectualmente tão brilhantes. Em minha opinião, só não se deve transigir com as deficiências morais dos candidatos ao presbiterado.

Lembro-me de que em determinada oportunidade o eminente teólogo Francisco Catão externou a necessidade de os professores se perguntarem a respeito do tipo de teologia que desejam ensinar, tendo em vista os destinatários. Justíssima preocupação desse conspícuo docente do Instituto Teológico Pio XI.  Um padre não precisa ser um intelectual. No fundo, o padre é uma espécie de operário do evangelho e dos sacramentos. Com efeito, reza o cânon 276, parágrafo 2.º, n.º 1, que os clérigos têm de cumprir fiel e incansavelmente os deveres do ministério. Eis a substância do múnus de padre.

Por fim, em vista das problemáticas mencionadas neste artigo, as quais um dia, se Deus quiser, serão superadas por uma educação fundamental de alto nível, no meu modo de ver, por ora, o máximo que o padre houver aquilatado ao longo da faculdade de teologia deverá torná-lo intelectualmente apto para o atendimento das necessidades do povo de Deus. Caso contrário, ouviremos as pedras a predicarem o evangelho.

Edson Luiz Sampel é Doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma. Professor do Instituto Teológico Pio XI (Unisal). Membro da Academia Marial de Aparecida (AMA) e da Sociedade Brasileira de Canonistas (SBC)