A fraternidade

Olhar a história através dos olhos da fé é realmente algo único

Roma, (Zenit.org) Carmine Tabarro | 1068 visitas

Quando há dois anos foi convocada a Jornada (Semana) Mundial da Juventude por Bento XVI, somente o Espírito Santo poderia ter imaginado que isso coincidiria com o primeiro vôo intercontinental de um Papa latino-americano em seu continente de origem, que este novo Papa seria o primeiro Papa jesuíta da História, e que pela primeira vez na História da Igreja um Papa seria chamado pelo nome de Francisco (um “santo que incomoda”).

Da mesma forma, totalmente inesperado, embora o local fosse o coração (numericamente falando) do mundo católico, foi o fato deste Papa, que veio "do fim do mundo", ter atraído mais de 3 milhões de jovens de 178 países, ter visitado uma favela, ser aquele que se deixa abraçar pelo povo, que demonstra ternura pelos ex-viciados em drogas, que contou com a presença de 1.500 bispos e 60 cardeais, etc.

Dessas maravilhas o Senhor fez-nos testemunhas e espectadores, graças aos antigos e novos meios de comunicação.

Entre os muitos encontros maravilhosos, um que recebeu pouca atenção da mídia foi o encontro com os Bispos responsáveis pelo Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), por ocasião da reunião geral de coordenação, realizada no Centro de Estudo do Sumaré, no Rio de Janeiro em 28 de julho de 2013, que eu pude acompanhar ao vivo, graças aos novos meios de comunicação.

A reunião contou com a presença de 45 bispos da Comissão de Coordenação do CELAM, mas o assunto tratado diz respeito à Igreja universal.

Antes de falar sobre o discurso do Papa (que na minha opinião contêm as prioridades do Papa Francisco seja para assegurar a renovação da Igreja, seja para melhorar o diálogo com o mundo – sendo assim, é uma "encíclica"), eu gostaria de destacar apenas um aspecto pouco comentado nos dias sucessivos.

Papa Francesco quer uma Igreja sinodal.

Nós tivemos evidências a esse respeito quando da sua saudação após a eleição, e quando chegou ao Brasil em 22 de julho, acenando para os bispos das "Igrejas particulares", como bispo de Roma, enviado às dioceses de outros bispos, e não como chefe da Igreja universal.

Da mesma forma, quando, no sábado 27 e domingo 28 de julho ao dirigir-se aos seus "irmãos" Bispos do Brasil, ele não o fez de maneira ex cathedra, mas de modo sinodal, com um convite ao diálogo, lançando uma série de questões e propostas e, ouvindo os testemunhos dos bispos seus "irmãos".

Esta "forma" de Igreja o Papa Francisco retoma do Concílio Vaticano II, da Lumen Gentium, onde o Papa é o primeiro (primus), entre outros (inter pares).

Nesta visão, o Papa tem o primeiro lugar em um colegiado de bispos, de quem se espera a responsabilidade conjunta na tarefa do governo da Igreja. Ele não decide sozinho de maneira arbitrária ou monárquica.

Esta descoberta é a chave fundamental da eclesiologia do Papa Francisco.

O discursos do Papa coloca no centro a conferência de Aparecida (2007), após fazer memória de Medellín, Puebla e Santo Domingo. Ele lembrou a forma original com a qual a América Latina encarnou o Concílio Vaticano II.

Dito em estilo sinodal e retomando a metodologia do Concílio, reiterado na V Conferência de Aparecida, Para Francisco falou do "ver", "julgar", "agir” (Gaudium et Spes, n. 19). Para o Papa Francesco "ver", no entanto, "nunca é algo estéril, mas é influenciado pelo olhar”.

A questão era, então, a mesma que se faz hoje: "Com que olhar veremos a realidade? Aparecida nos respondeu: “com o olhar de discípulo."

O Papa ao falar sobre a missão continental, que foi o grande compromisso que a Igreja da América Latina e do Caribe assumiu em 2007, retorna à importância da mudança de estruturas "uma mudança de estruturas (de caduca à nova) que não é fruto de um estudo sobre "a organização do sistema funcional eclesiástico”.

O que faz cair por terra as estruturas caducas, o que leva o corações dos cristãos à mudança, é precisamente a misionariedade"

A missão continental, tanto programática quanto paradigmática, requer a consciência de uma Igreja que se organiza para atender a todos os batizados e os homens de boa vontade, começando pelos mais pobres ("Ah, como eu queria uma Igreja pobre para os pobres").

Este (o segundo ponto tocado), é o que o Papa pede à Igreja: para converter em ação missionária as atividades habituais das igrejas e pede que cada "reforma das estruturas eclesiais não seja o resultado de um estudo sobre "organismos eclesiais, mas seja conseqüência da dinâmica da missão".

Por esta razão o Papa interroga aos seus irmãos, sublinhando novamente o seu papel como bispo, e pede que eles se perguntem: "Nos organizamos de um jeito que o nosso trabalho e dos nossos sacerdotes seja mais pastoral que administrativo? Quem é mais beneficiado pelo trabalho da Igreja, a Igreja como organização ou o povo de Deus em sua totalidade?

E ainda: "Participamos da missão dos fiéis leigos? É um critério habitual o discernimento pastoral, servindo-se dos Conselhos Diocesanos? Tais conselhos, e aqueles dos assuntos pastorais e econômicos das paróquias são espaços reais para a participação dos leigos na consulta, no planejamento e na organização pastoral? ".

Nessa ótica de renovação da Igreja, o Papa faz perguntas precisas sobre os leigos e como eles são valorizados: "Na prática, fazemos participar da missão os fiéis leigos?" Nós, como bispos e padres damos aos leigos “a liberdade para que sigam discernindo, conforme o caminho próprio de discipulado, a missão que o Senhor confia a eles? Os acompanhamos e apoiamos, superando qualquer tentação de manipulação indevida ou submissão? ".

Ele faz isso colocando o dedo na ferida do que ainda está atrasando a implementação, a plena participação dos leigos nos conselhos pastorais diocesanos, sobre uma certa tendência clerical que levou tantos a privilegiarem os dogmas e as diretrizes em vez da proximidade com as pessoas e a compreensão dos trabalhos.

O que o Papa Fracisco faz é uma lista com itens sobre os quais trabalhar para que a Igreja possa dar resposta "às questões existenciais de hoje, especialmente à geração mais jovem, prestando atenção à sua linguagem", para que não ceda à tentação.

São palavras que captam a realidade da Igreja em diversos países do mundo, até mesmo no velho continente.

O próximo tema tocado pelo Papa diz respeito ao relacionamento com o mundo, e Francisco cita o Concílio Vaticano II (cf. n.1) para explicar que o fundamento do diálogo com a sociedade contemporânea: "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e daqueles que sofrem são, por sua vez, as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo".

É preciso prestar atenção – explica o Papa – às novas linguagens, aos “cenários e areópagos mais variados". "Se nós permanecermos dentro dos parâmetros da ‘cultura de sempre’, o resultado será a anulação da força do Espírito Santo. Deus está em todas as partes: é preciso saber descobri-Lo para poder anuncia-Lo no idioma de cada cultura. Cada realidade, cada língua tem um ritmo diverso”.

Aqui, também, Papa Francisco chama os homens e as mulheres da Igreja a não serem auto-referência, mas  a refletirem sobre essas palavras.

Outro ponto tocado por Bergoglio, de importância crucial para toda a Igreja diz respeito a algumas "tentações" que cercam os missionários.

A primeira é a "ideologização da mensagem do Evangelho", que se apresenta de quatro modos diferentes. O "reducionismo socializante”, uma "pretensão interpretativa" com base nas ciências sociais, que abarca os campos mais diversos: "do liberalismo de mercado às categorizações marxistas."

A ideologização "psicológica", uma tentação da elite, baseada principalmente na espiritualidade e nos retiros espirituais, que "gera uma atitude imanente e de auto-referencial."

Depois, há a “proposta agnóstica”: grupos ou elites com “uma proposta de espiritualidade superior, desencarnada da História. Normalmente são chamados de "católicos esclarecidos". Por fim, existe a “proposta pelagiana” que aparece disfarçada como "restauração."

Diante dos desafios difíceis e dolorosas que a Igreja é chamada a viver no seu interior, “se procura uma solução apenas disciplinar, na restauração das condutas e formas superadas, que nem mesmo culturalmente, têm ainda capacidade de serem significativas."

Na América Latina, "se verifica em pequenos grupos, em algumas novas congregações religiosas, a tendências à segurança doutrinária ou disciplinar."

Papa Francisco propõe, sem hesitar em usar a palavra "sedução" ou a "astúcia do Evangelho”, uma Igreja mais "pastoral", que saiba acolher antes de julgar, uma Igreja de misericórdia e não de julgamento ou regras.

Com estas palavras, mostra a visão inaciana, que consiste em caminhar ao lado das pessoas a partir da situação em que elas vivem, e não a partir de uma moral estabelecida a priori. (Papa Francisco e "a revolução de ternura").

Outras duas tentações sublinhadas pelo Papa Francesco (que dizem respeito a toda a Igreja) são representadas pelo "funcionalismo", isto é, de uma concepção que “que não tolera o mistério" e se "guia pela eficácia”. "Elea reduz a realidade da Igreja a de  uma ONG. O que vale são os resultados verificáveis e as estatísticas.

Daqui se parte para todas as modalidades empreendedoras e de negócios da Igreja".

Para o Papa Francisco, muitos dos fiéis deixaram a Igreja porque ela não foi capaz de alcança-los onde eles estavam. "Lhes pareceu muito alta a medida da Grande Igreja", e é em parte por isso que eles foram seduzidos pelos movimentos pentecostais...

A última tentação – essa também não confinada somente aos parâmetros da América Latina – é o "clericalismo". Trata-se, diz o Papa, "de uma cumplicidade pecaminosa: o pároco clericaliza-se e o leigo deixa-se clericalizar.

O fenômeno do clericalismo explica, em grande parte, a falta de maturidade e liberdade cristã em grande parte do laicato latino-americano".

"O leigo ou não cresce (a maioria), ou se encolhe sob máscaras de ideologizações como aquelas já apontadas, ou em participação parcial ou limitada. Existe em nossa terra uma forma de liberdade dos leigos através da experiência de povo: o católico como povo."

O Papa pede o empenho no hoje tendo o passado como memória e o futuro como uma promessa, mas sabendo que o convite para o discípulo é o compromisso na realidade cotidiana.

A partir das periferias: "O discípulo vive em tensão em direção às perferias... incluidas as de eternidade no encontro com Jesus Cristo. No anúncio do Evangelho, falar de "periferias existenciais" descentraliza e geralmente temos medo de sairmos do centro. O discípulo missionário é um "descentralizado": o centro é Jesus Cristo, que chama e envia. O discípulo é enviado às periferias existenciais"...

"O discípulo de Cristo não é uma pessoa isolada em uma espiritualidade intimista, mas uma pessoa em comunidade que se doa aos outros."

Francisco explica sobre a autonomia dos leigos: "Aqui se ve uma maior autonomia, geralmente saudável, que se exprime fundamentalmente na piedade popular. O capítulo de Aparecida sobre a piedade popular descreve esta dimensão em profundidade. A proposta de grupos de estudo bíblico, das comunidades eclesiais de base e dos Conselhos Pastorais seguem a linha da superação do clericalismo e de um crescimento da responsabilidade dos leigos".

O Papa depois de ter alertado sobre a "projeção utópica" com relação ao futuro e a projeção "restauracionista" sobre o passado, explicou que "Deus é real e se manifesta no hoje." A Igreja, quando se “posiciona no centro se torna funcional e se transforma em uma ONG", e ao pretender assim, ter luz própria, torna-se mais auto-referencial e "se enfraquece na sua necessidade de ser missionária." Acaba por tornar-se "administradora”, de serva torna-se "controladora". Existem, acrescenta Francisco, pastorais "distantes", pastorais disciplinantes que privilegiam os “princípios, as condutas, os processos organizacionais... obviamente sem proximidade, sem ternura, sem afeto. Ignora-se a teologia da ternura, a "revolução da ternura" que gerou a encarnação do Verbo. Para o Papa uma via para a construção de pontes, para ir ao encontro do outro, são as homilias. "Nos aproximemos do exemplo de Nosso Senhor, que falava como quem tem autoridade, ou o que falamos são meros preceitos, distantes e abstratos? ".

O Papa concluiu seu discurso aos núncios em junho passado, reiterando que os bispos devem "ser pastores próximos do povo", pacientes e misericordiosos. Eles devem amar a pobreza, também aquela exterior, com "simplicidade e austeridade da vida", sem ter a "mentalidade de príncipes" e sem ambição. 

(Traduçao: Elena Arreguy Sala)