A guerra e São Josemaría Escrivá, segundo Roland Joffé (1)

Entrevista com o diretor de cinema ante a estreia de "There Be Dragons"

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Por Jesús Colina 

ROMA, sexta-feira, 7 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) – O mundo do cinema e o mundo católico estão ansiosos para ver o filme que o diretor Roland Joffé apresentará neste semestre, There Be Dragons (http://www.therebedragonsfilm.com), no qual tem um papel protagonista São Josemaría Escrivá de Balaguer, fundador do Opus Dei.

Trata-se de um drama épico, escrito e dirigido pelo cineasta britânico conhecido por filmes como “A Missão” (1986, com Robert De Niro) e “Os gritos do silêncio” / “Terra sangrenta” (vencedor de 3 prêmios Oscar em 1985). O novo filme é ambientado na guerra civil espanhola, onde se enfrentam questões como santidade, traição, amor, ódio, perdão, assim como a busca do sentido da vida.

A trama mescla as histórias de soldados revolucionários, um jornalista, sei pai e o próprio Josemaría, chamado de santo da vida cotidiana.

Neste início de 2011, quando se celebram os 75 anos do estouro da guerra civil espanhola, Joffé partilhou com ZENIT as experiências deste filme. 

ZENIT: A que alude o título do filme, There Be Dragons?

Roland Joffé: Os mapas medievais qualificavam os territórios desconhecidos com as palavras Hic sunt dragones, "aqui há dragões". Quando comecei a pesquisar sobre o tema e a escrever o roteiro, dado que realmente não sabia o que me esperava nem como acabaria, “Encontrarás dragões” [tradução livre] me pareceu um título apropriado. Era como se saísse do meu mapa e me entrasse em um território inexplorado, ao tocar temas como a santidade, religião e política do século XX, o passado de outro país. Havia marcado a afirmação de Josemaría: Deus é encontrado na vida cotidiana, e essa vida comum, em seu caso, foi a guerra civil espanhola. Perguntei-me: como é possível encontrar o divino na guerra? Mas a mesma pergunta se pode fazer sobre todos os desafios fundamentais da vida, e sobre a maneira em que os enfrentamos: como respondemos ao ódio e à rejeição, ou ao desejo de vingança e justiça. Todos esses dilemas aumentam em tempo de guerra. Esses dilemas são, em certo sentido, os “dragões” do filme, momentos de inflexão em nossas vidas, em que enfrentamos opções decisivas. Opções que afetarão nosso futuro. “Encontrarás dragões” fala das diferentes opções que as pessoas assumem nesses momentos de inflexão – tentações, se preferir – e o difícil que é – e necessário – fugir dos ciclos de ódio, ressentimento e violência.

ZENIT: O filme se passa no contexto da guerra civil espanhola, que em certo sentido é o paradigma da violência que gera violência, a violência sem sentido. Neste cenário de violência fratricida há espaço para a esperança?

Roland Joffé: Sim, mas é sumamente difícil. Entre as pessoas há muitos fatos abomináveis, horrendos, que parecem impossíveis de perdoar, de resgatar, impossíveis de superar. Mas o perdão é possível. Os ciclos de violência podem-se deter, como demonstrou o presidente Nelson Mandela na África do Sul. O perdão foi possível para muitos heróis em Ruanda, e foi oferecido e aceito por muitos valorosos palestinos e israelenses. Josemaría assegurou que as pessoas comuns são capazes de ser santas, e creio que se referia a esta classe de perdão heróico. A inesgotável possibilidade de perdoar deixa espaço à esperança. Mas o preço é alto: exige um profundo sentido do que é plenamente humano, um profundo sentido de compaixão, e uma resolução firme, e sim, heróica, para não ficar atolado em ódios, sem lutar contra eles com um amor inquebrantável.

Boa parte da trama do filme se desenvolve durante a guerra civil espanhola, mas se desprende entre esse pano de fundo e o ano de 1982. Há muitas gerações envolvidas nesta história: o passado projeta uma sombra sobre o presente. O que os une é Robert, um jornalista a quem se pediu uma pesquisa sobre Josemaría Escrivá em tempos de sua beatificação. Pouco a pouco se descobre que seu pai, Manolo, foi na infância amigo de Josemaría, e que esteve no seminário com ele, ainda que depois suas vidas tenham tomado caminhos diferentes. Robert e Manolo tinham-se distanciado, mas o filme os une segundo vai revelando a terrível verdade sobre o passado. Portanto, é também a história de um pai e um filho, e a história da verdade que precisam enfrentar para superar o que os espera. É sobretudo um filme sobre o amor, sobre a força de sua presença e sobre o árido e aterrador mundo onde vivemos, quando de sua ausência.

As guerras civis são muito mais atrozes porque se enfrentam irmãos contra irmãos, família contra família. Ao final da guerra civil espanhola, contava-se meio milhão de mortos. Uma guerra civil é uma poderosa metáfora de uma família. Como nas guerras civis, os membros da família tomam partido e se desgarram; os antigos ressentimentos convertem-se em mananciais de ódio. Não perdoamos nossa tia pelo que fez, não falamos como nosso pai porque ele abandonou nossa mãe, não falamos com nossa mãe porque ela se foi com outro, ou não falamos com nossos filhos porque eles escolheram uma profissão diferente da que esperávamos. Essas são as guerras civis de nossa vida ordinária. O filme fala deste tipo de guerra civil.

Fundamentalmente, todos temos de optar entre nos deixarmos vencer por nossos ressentimentos ou encontrar a maneira de conquistá-los. Pode-se ver a vida como uma série de injustiças, de rejeições e feridas, ou como uma série de oportunidades, de ocasiões para vencer esses dragões, através do poderoso desejo de substituir o ódio pelo amor e a unidade. Muitos abrigam em seu interior esse amor para tomar esta heróica opção. Dão-se conta de que podem tomar essa opção e ser livres. Têm a força de caráter para compreender que o ódio é uma prisão. Quem odeia não pode ser livre. Não temos visto tantos exemplos disso nos anos transcorridos desde a Primeira Guerra Mundial? Por outro lado, quando as pessoas optam pelo amor, o observador imparcial pode ver nelas o sentimento de liberdade, de compaixão, de generosidade. 

Ao final, todos nos encontramos perante estas opções. Inclusive Robert, o agnóstico e o materialista, que deve eleger entre o amor e o ódio. Para mim, o filme fala disso. O perdão desgela o que estava congelado. Toca o humano no interior de quem perdoa. 

ZENIT: O filme dirige a crentes e não crentes?

Roland Joffé: “There Be Dragons” leva a fé a sério; leva a santidade a sério. Mas seu interesse vai muito além de um público religioso. Sua pergunta pressupõe uma separação que, na realidade, é falsa. Todos vivemos em um mundo perturbado, todos temos que enfrentar a dor e a alegria da vida cotidiana e, ainda que recorramos a diferentes interpretações da realidade sobre esta experiência, ao final todos moramos no mesmo mundo desgarrado e perturbado. 

É um filme sobre crentes e não crentes. Fiquei profundamente interessado pela convicção de Josemaría de que todos somos santos em potencial, por sua fé em que cada um é em última instância capaz de acabar com seus próprios dragões. Espero que as pessoas que vejam o filme o descubram em suas próprias lutas com seus dragões e que compreendam que nenhum santo chegou ao seu lugar sem ter lutado.

O filme também fala de muitas formas de amor. Ao final, todos os laços de amor, que parecem tão diferentes, convergem para um ponto fundamental: “Este amor é maior que o amor próprio?” Essa é uma pergunta importante. A ela se dedicou boa parte da política dos inícios do século XX. De todos os modos, estabelece outra questão de uma grande complexidade. Se este amor apaixonado se baseia em um ideal, ou em uma idealização, se consiste na aceitação de um só modelo de comportamento humano, como pode evitar cair no fanatismo ou na demonização? Desde os tempos do Iluminismo este tem sido uma questão fundamental. Em nome do amor de um bem maior quantos atos inumanos se cometeram. Parece-me que só se for compreendida a falibilidade de todos os seres humanos e de todos os comportamentos humanos podemos encontrar o caminho do entendimento e dessa profunda empatia, esse sentido de identificação com o outro, que liberta da demonização e das espirais de violência sem esperança.

Não se trata de um filme católico, mas de um tema chave na teologia cristã e em todas as igrejas cristãs, assim como em muitas outras religiões. Todas as religiões compreendem que os seres humanos, em suas relações uns com outros, tomam opções divinas, opções que afetam profundamente a vida dos demais e o mundo que os cerca. Esta interconexão constitui o fundamento do amor: o que fazemos a favor ou contra os demais afeta a nós e a eles, porque todos estamos unidos uns aos outros.

ZENIT: Até que ponto seu personagem de Josemaría Escrivá, que hoje é um santo da Igreja Católica, baseia em fatos reais?

Roland Joffé: De todos os personagens do filme, Josemaría é o único que existiu historicamente, o único o qual abundam testemunhos e provas. Creio que a representação que oferecemos de Josemaría, de sua sensibilidade, seu senso de humor, que indubitavelmente tinha, surge dos acontecimentos de sua vida e é na realidade muito próxima do que ele foi na realidade. Quis encontrar um ponto de vista honesto ao traçar seu perfil e tomar sua fé a sério, como ele o fez. De fato, a história de Josemaría é a de um homem que alcança o êxito extraordinário de simplificar sua vida entorno a um amor a Deus autêntico e poderoso. Este amor a Deus converte-se em um princípio organizador que lhe dá forma, assim como uma espécie de simplicidade e força. Por isso não faz que seja chato ou insosso, pois este amor se deu no mundo real, e o fruto desta existência no mundo real, com frequência cruel, é em todo homem honesto a dúvida. Duvidar de Deus e duvidar da bondade. Essa dúvida é sumamente fecunda. O amor não é algo caído do céu, como algo sine qua non. Há que lutar por ele. É o que, como seres humanos, devemos levar à mesa. Temos de encontrar este amor profundo em nós mesmos, compreendendo a beleza escondida de nossa fragilidade e da fragilidade dos demais. Em um sentido profundo que, me parece, a história de Cristo ilustra. Se somos crentes, temos de continuar buscando esse amor profundo em nós mesmos e oferecê-lo a Deus e a sua criação. Se não somos crentes, temos de seguir buscando-o e o oferecendo aos demais, sem levar em conta sua política, raça ou religião.

[A segunda parte desta entrevista será publicada no domingo]