A humanidade e a espiritualidade do papa emérito

Pe. Lombardi escreve editorial para a Rádio Vaticano

Roma, (Zenit.org) Federico Lombardi, SJ | 1232 visitas

Os últimos dois dias do pontificado de Bento XVI permanecerão gravados na memória de muitas pessoas e marcarão uma etapa importante, nova e sem precedentes, na história da Igreja peregrina. Para muitos, foi quase uma descoberta da humanidade e da espiritualidade do papa; para outros, uma confirmação da sua humilde e ao mesmo tempo elevadíssima vida de fé.

Se o papa João Paulo II tinha dado ao mundo, com admirável coragem, o testemunho da sua fé ao padecer a enfermidade, o papa Ratzinger, com não menos coragem, nos deu o testemunho da aceitação, perante Deus, dos limites da idade e do discernimento sobre o exercício da responsabilidade que Deus lhe tinha confiado. Ambos nos ensinaram, não só com o magistério, mas também, e talvez ainda mais eficazmente, com a própria vida, o que significa procurar e encontrar a vontade de Deus a cada dia, para nós e para o nosso serviço, mesmo nas mais cruciais situações da existência humana.

Como ele mesmo nos disse, a renúncia do papa não é, de maneira alguma, um abandono nem da missão recebida, nem dos fiéis. É um continuar a confiar a Deus a Sua Igreja, na firme esperança de que Ele continuará a dirigi-la. Com humildade e serenidade, Bento XVI afirma que "tentou fazer" todo o possível para servir bem à Igreja, uma Igreja que não é dele, mas de Deus, e que, pela continuidade da ação do Espírito, "vive, cresce e desperta nas almas".

Neste sentido, o legado do papa Bento é hoje, para todos, um convite à oração e à responsabilidade. Em primeiro lugar, naturalmente, para os cardeais, cujos deveres incluem a tarefa de eleger o sucessor, mas também, e não menos, para toda a Igreja, que deve acompanhar, na oração, o discernimento dos eleitores e também o anúncio do evangelho por parte do novo papa, que dever ser feito de forma eficaz "para o bem da Igreja e da humanidade", para levar a comunidade a uma fidelidade cada vez maior ao mesmo evangelho de Cristo. Nenhum papa pode fazer isto sozinho. Todos faremos isso junto com ele. O papa emérito continuará nos acompanhando e "trabalhando" para este fim. Foram estas as suas últimas palavras públicas: "com o seu coração, com o seu amor, com a sua oração, com a sua reflexão". Obrigado, papa Bento XVI.