A Igreja ao lado dos georgianos
Entrevista com Dom Giuseppe Pasotto, administrador apostólico do Cáucaso dos latinos
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Por Serena Sartini
TIBLISI, sexta-feira, 23 de julho de 2010 (ZENIT.org) – A Igreja Católica na Geórgia constitui uma minoria: há cerca de 50 mil católicos espalhados por todo o país, divididos em três ritos, o latino (25 mil), o armênio (20 mil) e o caldeu (cerca de 5 mil). Dom Giuseppe Pasotto, bispo originário de Verona, na Itália, é há 16 anos administrador apostólico do Cáucaso dos latinos.
Nesta entrevista a ZENIT, ele ilustra a situação atual das diversas confissões no país, as mudanças ocorridas com as guerras de 1992 e de 2008, que envolveram a Geórgia, a Ossétia e a Abcásia, e analisa a situação do diálogo inter-religioso e ecumênico na região.
“A Igreja Católica constitui uma pequena minoria – explica Dom Pasotto. Historicamente, a Igreja católica latina sempre esteve presente na Geórgia. Em 1.200, já contava com um bispo. Durante o período comunista, a igreja de São Pedro e São Paulo de Tblisi foi um das poucas a permanecer abertas. Mais tarde, em 1991, após a queda do muro de Berlim e o colapso da URSS, o núncio deu novo fôlego à Igreja Católica, recomeçando do zero. Era necessário ensinar tudo, até mesmo o sinal da cruz. Fez-se nascer uma Igreja do zero.”
“Por minha experiência pessoal – acrescentou o bispo –, penso que a Igreja Católica na Geórgia foi ‘salva’ pelo rosário. Neste anos, retomamos todas as atividades – formação de catequistas, reabertura dos seminários – visando a reestruturar a Igreja, bem como as instituições de caridade. Um momento significativo foi a realização do primeiro Sínodo da Igreja Católica Georgiana, em 2005-2006. O evento definiu a direção a ser seguida pela Igreja Católica no país. Do ponto de vista da formação, houve a reestruturação do seminário, onde hoje convivem católicos, muçulmanos, ortodoxos e protestantes, tanto como estudantes como professores”.
ZENIT: Como tem sido a atuação da Cáritas na Geórgia desde a guerra até os dias de hoje?
Dom Giuseppe Pasotto: No que se refere à atuação humanitária, somos muito ativos. A Cáritas está presente desde 1994 e sua atuação tem sempre crescido. A Cáritas conduz hoje algo em torno de 70 a 80 projetos, alguns de grande envergadura, priorizando três frentes: pronta intervenção, formação e projetos de desenvolvimento. Mas houve também uma ampla campanha de auxílio e apoio psicológico para os jovens no período pós-guerra.
A Cáritas na Geórgia trabalha nas regiões onde sua presença é mais necessária, mas não tem permissão para entrar na Abcásia. Mesmo assim, há atividades humanitárias e de auxílio na região, graças à atuação de uma paróquia local.
ZENIT: O senhor tem permissão para entrar em território abecásio sem problemas?
Dom Giuseppe Pasotto: Sim, inclusive estive lá recentemente; meu título me permite circular sem maiores problemas, uma vez que sou bispo de todo o Cáucaso.
ZENIT: Como evoluiu a situação após o conflito de 2008?
Dom Giuseppe Pasotto: Para a comunidade católica, não houve maiores repercussões. Para os georgianos, porém, foi um grande golpe na esperança e confiança que depositavam no futuro. Se encontram mais empobrecidos e mais isolados, e com um território bastante reduzido, porque perderam duas grandes regiões. O povo georgiano está desmoralizado. Em nível político, permanece a questão de qual rumo tomar a partir de então. Provavelmente se compreendeu que a intervenção militar não resolve os problemas, ao contrário, cria problemas novos, e afasta possíveis soluções. Aqueles que defendem um diálogo com a Rússia são tachados traidores; os que rejeitam o diálogo são considerados separatistas. É preciso restabelecer o diálogo.
ZENIT: Esta é uma responsabilidade que cabe somente à Geórgia?
Dom Giuseppe Pasotto: Para além da responsabilidade da Geórgia, há uma responsabilidade compartilhada por toda a comunidade internacional. Os georgianos não poderão fazê-lo sozinhos. O povo georgiano está desiludido, porque esperava ser melhor amparado nos momentos difíceis. Acredito haver muitos interesses políticos e econômicos por trás das divisões.
ZENIT: Como é a situação do diálogo ecumênico?
Dom Giuseppe Pasotto: A situação na Geórgia é difícil. O diálogo com outras confissões vai bem. O diálogo com os ortodoxos, porém, é difícil. Quando João Paulo II esteve aqui, não pudemos sequer rezar o Pai Nosso juntos. Não podemos orar juntos; nosso batismo não é reconhecido pelos ortodoxos. Somos de fato reconhecidos como Igreja, mas sob o ponto de vista jurídico não somos reconhecidos.
ZENIT: Por quê?
Dom Giuseppe Pasotto: Porque durante séculos não houve um trabalho voltado para o desenvolvimento desta comunhão. Precisamos aprender a dialogar. Precisamos alcançar uma liberdade de confiança, sem a qual o diálogo é impossível. Nós, como Igreja Católica, estamos empenhados, e há sinais de que as coisas caminham nesta direção. Há que trabalhe contra. Precisamos encontrar pontos em comum, como a caridade e a cultura, sem abordar os aspectos teológicos. Quando cheguei à Geórgia, na primeira vez que usei o termo “ecumênico” me disseram que havia dito uma heresia.
ZENIT: Como é a situação religiosa na Abcásia?
Dom Giuseppe Pasotto: É complicada, uma vez que o Patriarca não pode ir à Abcásia. É preciso encontrar uma solução, e o Patriarcado da Geórgia tem mantido um diálogo com o Patriarcado de Moscou em Abcásia.
ZENIT: Como são as relações Estado-Igreja?
Dom Giuseppe Pasotto: A separação entre Igreja e Estado é ainda muito difícil. Há algum tempo, um bispo ortodoxo me confidenciou: a Igreja Ortodoxa jamais foi politicamente tão forte como é hoje.
ZENIT: Tem observado mudanças desde a guerra de 2008?
Dom Giuseppe Pasotto: As pessoas estão vivenciando a experiência de passar de uma condição econômica boa para uma ruim, na medida em que os presidentes vão e vêm.


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