A Igreja no Camboja e os ensinamentos da história

Entrevista com o vigário apostólico de Phnom Penh

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ROMA, domingo, 5 de junho de 2011 (ZENIT.org) - Os regimes comunistas do Camboja não apenas tiraram a vida de dois milhões de pessoas, como também roubaram da nação a sua cultura e sua história: hoje os jovens formam famílias sem laços com seu patrimônio nacional.

Esta é uma das razões pelas quais a educação é uma prioridade para a Igreja católica no país, afirma Dom Olivier Schmitthaeusler, vigário apostólico de Phnom Penh desde outubro passado.

O programa de televisão Deus chora na Terra, da Catholic Radio and Television Network (CRTN), em colaboração com Ajuda à Igreja que Sofre, conversou com este bispo francês de 40 anos sobre a sua vida na terra missionária do Camboja.

- O senhor foi nomeado bispo Phnom Penh há pouco tempo. Como foi a sua reação? Foi uma surpresa?

Dom Schmitthaeusler: Uma surpresa e um susto, porque eu sou muito jovem. Tinha 39 anos, talvez fosse naquele momento o bispo mais jovem do mundo. Era como Jeremias: "Senhor, eu sou muito jovem. O que é que eu posso fazer?". Então eu me lembrei de Maria, que disse: "Eis aqui a escrava do Senhor". E aceitei.

- O senhor já vive no Camboja há treze anos. Escolheu o Camboja ou foi uma proposta da Sociedade de Missões Estrangeiras?

Dom Schmitthaeusler: Eu sou membro das Missões Estrangeiras de Paris e recebi o meu destino quando me ordenei diácono. Depois da minha ordenação, o superior geral anunciou: “O padre Olivier vai para o Camboja”.

- O senhor sentiu medo?

Dom Schmitthaeusler: Eu fiquei surpreso. E ao mesmo tempo aquilo me deixou muito feliz. Eu já tinha ficado no Japão durante três anos, quando era seminarista. Eu amo a Ásia, e, quando recebi esta missão, me encheu de felicidade ir para o Camboja.

- O senhor trabalhou durante mais de dez anos em paróquias rurais. O que o senhor aprendeu do povo cambojano?

Dom Schmitthaeusler: Para mim foi uma experiência maravilhosa, principalmente por causa dos lugares onde eu estive. Era uma Igreja muito pequena. Quando eu cheguei, só existia um cristão. Nós começamos do nada. Construímos a igreja e organizamos um grupo de jovens. Fizemos o primeiro batismo em 2003 e agora temos um total de 98 pessoas batizadas e 35 catecúmenos que vão ser batizados no ano que vem. Também começamos uma pequena escola, que é uma creche e uma escola de ensino médio. Temos um centro de teares de seda, também. O povo khmer é muito acolhedor e me deu as boas-vindas de braços abertos. Foi uma experiência magnífica para a minha vida sacerdotal. Vai ser bem difícil eu ir embora.

- O povo cambojano tem 96% de budistas. Como é que as aldeias próximas reagiram quando o senhor começou a evangelizar?

Dom Schmitthaeusler: Nesta aldeia nós temos muita sorte. Deus está conosco. As pessoas nos aceitaram muito bem porque nós temos uma creche, e os pais, todos budistas, mandam os filhos para a nossa escola. Também temos um programa parecido com os escoteiros, e todo domingo de manhã temos mais de 300 crianças que participam de uma hora de formação.

- E os pais não têm medo que os filhos se convertam?

Dom Schmitthaeusler: Faz 6 anos que nós estamos fazendo isso, e todo ano aumenta o número, então eu acho que é um bom sinal. Começamos uma nova paróquia a uns 40 quilômetros e no começo tivemos problemas, especialmente com os jovens.

- Por quê?

Dom Schmitthaeusler: Porque durante dois anos, com auto-falantes, os pagodes budistas divulgaram informações errôneas sobre a Igreja católica, dizendo que se as crianças frequentassem a Igreja católica, elas não iam ser autorizadas a se casar, nem iriam conseguir ajudas das ONGs. No Natal de 2006, nós convidamos todos os avós da aldeia. Eles ficaram muito felizes e viram que a Igreja católica é muito aberta e acolhe a todos. Viramos bons amigos. É interessante também que, nesta aldeia, todos os  domingos temos de dez a vinte pessoas da comunidade budista que vêm para a igreja ver o que nós fazemos. Eles assistem à missa e escutam a homilia. A relação é muito interessante.

- A cultura é muito budista. Ser khmer é ser budista, e abraçar outra fé equivale a rejeitar a cultura e a identidade khmer. Isto é verdade?

Dom Schmitthaeusler: Eu acho que no Camboja, durante os quatro anos do reinado de terror de Pol Pot, foi destruído tudo. A cultura e toda forma de religião, como o budismo e o catolicismo. Depois, nos dez anos de ocupação comunista vietnamita, depois do khmer vermelho, continuou sem ser permitida nenhuma forma de religião. Durante os últimos vinte anos, os cambojanos começaram a reconstruir as suas tradições, assim como as práticas religiosas, e agora, acredito eu, as pessoas são mais abertas do que antes. Isso é um grande benefício, principalmente para a Igreja católica.

Quando os jovens viram cristãos, por exemplo, durante o batismo, nós convidamos os pais deles e os avós para participar. Faz dois anos, tivemos um funeral. O funeral é muito importante para os budistas. E eles têm a impressão de que os católicos não têm muito interesse pela morte, não têm respeito pelos mortos, especialmente pelos pais mortos. Todos eles estavam esperando para ver o que é que nós íamos fazer durante a cerimônia do funeral. E depois eles ficaram muito impressionados. Eu segui a tradição deles para os funerais, que inclui os sete dias de velório da tradição budista. Procurei convencê-los de que nós, católicos, não desprezamos os mortos, que temos orações pelos mortos e acreditamos e esperamos a ressurreição. Foi uma oportunidade para sermos testemunhas de Cristo e uma oportunidade para os budistas verem o que nós fazemos.

- O que atrairia um budista a abraçar o cristianismo e se tornar cristão?

Dom Schmitthaeusler: Nós começamos com os jovens. Os jovens são missionários muito eficazes: porque o meu amigo vai na igreja, eu também gostaria de ir, mesmo sem entender bem o que é a Igreja. Esta é a primeira fase. A segunda fase é o descobrimento da caridade. Nós temos mostras de caridade em todas as nossas igrejas. É a caridade dos católicos com todos, não só com os outros católicos, mas com todos sem preconceitos, especialmente com os pobres. É disto que eles são testemunhas, e é o que vai atraí-los: abrir o coração para amar a todos. A terceira fase, que é muito importante, é o encontro com Jesus. Mas é claro que isso leva o seu tempo, porque é uma experiência nova, mas, através da oração e da leitura da Escritura, eles se encontram com Jesus. É um processo passo a passo. Normalmente recebemos muitos jovens, na minha igreja temos cerca de cem todo domingo, mais de sessenta budistas. Desses sessenta, vinte ou trinta vão continuar na formação.

- Vamos voltar ao tempo do khmer vermelho. Houve uma destruição massiva de igrejas e a proibição absoluta da prática religiosa. Como vocês encaram este problema hoje?

Dom Schmitthaeusler: Esse período de 1975 a 1979 foi marcado pela destruição massiva das propriedades da Igreja e pela morte de padres e religiosos. Tivemos dois bispos mortos; um foi assassinado e o outro morreu doente. O primeiro bispo khmer da história do Camboja. E não vamos esquecer os dois milhões de khmeres mortos. Os missionários começaram a voltar em 1989; o primeiro, depois de 30 anos. A primeira celebração foi na Páscoa e participaram 1.500 pessoas. Alguns eram neo-conversos, porque os missionários eram muito ativos nos campos de refugiados da fronteira tailandesa, e alguns que eram católicos antes do regime de Pol Pot. A nova Igreja católica no Camboja começou com 1.500 pessoas.

- Você está começando a reconstruir não só a comunidade, mas também a infraestrutura. Como vai esse processo?

Dom Schmitthaeusler: Em Phnom Penh só temos uma igreja, que antes de Pol Pot era o seminário menor. Nós a compramos faz vinte anos e ela vai ser a principal igreja de Phnom Penh. Temos outra que construímos há quatro anos, mas eu sou um bispo sem catedral, porque a catedral de Phnom Penh foi destruída uma semana depois da ocupação do khmer vermelho, em 1975. Então está tudo em processo. Existe ainda uma revitalização dos cristãos. No ano passado nós fizemos uma análise dos últimos vinte anos de evangelização, de 1989 até 2009, e existe um desejo nas pessoas de ter uma igreja, uma catedral, e isto é um sinal de esperança. E mostra que a presença física é importante.

- Que cicatrizes ainda restam nas pessoas depois de Pol Pot?

Dom Schmitthaeusler: As cicatrizes começaram antes de Pol Pot. Houve uma guerra civil nos setenta, durante a época de Lon Nol, e a ocupação vietnamita depois de Pol Pot. Foi um período muito longo. Não houve transmissão da tradição cultural, dos valores e da história durante aquele tempo todo, e a transmissão de uma geração à seguinte é muito importante. A preocupação principal naquele período era simplesmente sobreviver! Procurar comida, procurar refúgio. Ninguém tinha tempo para transmitir as tradições culturais, os valores e a história. Para os jovens é um desafio começar uma família, porque eles perderam o nexo e o conhecimento do patrimônio deles. No Camboja, 60% da população tem menos de 20 anos. Eles não conheceram a guerra civil, o regime de Pol Pot, nem a sua própria cultura. Isso é um desafio para o governo e também para a Igreja.

- Qual é a prioridade nesta situação?

Dom Schmitthaeusler: A educação é a prioridade no Camboja. Os recursos humanos foram destruídos e agora temos que reconstruir tudo. É prioridade para a Igreja também, porque a educação faz parte da formação, e, para mim, começando uma nova missão na diocese de Phnom Penh, a educação é uma prioridade porque agora nós convivemos com a primeira geração de cristãos. Eles foram batizados há vinte, dez ou cinco anos, e a educação é o caminho para eles aprofundarem as raízes cristãs e culturais, para virarem líderes na Igreja e nas famílias deles e para construírem melhor uma família cristã. Nós temos hoje dois seminaristas, o que é muito, já que só existem 14.000 cristãos. Dois seminaristas é uma boa proporção. Precisamos formar boas famílias para fomentar as vocações. Então, o primeiro objetivo é a formação e a educação em geral. Começamos com uma creche e agora temos 25 na diocese. Também temos uma escola técnica segundo a tradição de Dom Bosco.

- Como está sendo a reconciliação depois desse período terrível, com dois milhões de assassinados?

Dom Schmitthaeusler: A maior parte das pessoas nem pensa nisso, ou não está interessada nisso. A reconciliação é um conceito só nosso. A vida é difícil para a maioria do povo khmer e eles se concentram em correr atrás. Eles olham para o futuro, não para o passado.

- Então a Igreja não tem o objetivo de encarar este problema?

Dom Schmitthaeusler: Nós tratamos desse problema com os nossos serviços de comunicação social. No ano passado fizemos um encontro com um dos juízes internacionais e focamos em reunir os católicos que sobreviveram àquele período. No ano passado, na nossa escola católica, tivemos uma jornada para falar sobre o período do khmer vermelho. Convidamos os sobreviventes para falar. Depois fomos para um lugar que é um local para a memória, os chamados campos da morte. Fizemos orações com os monges e os padres. Tentamos pouco a pouco manter a memória daquela época negra, porque eu acho que é importante recordar, e isso é um desafio para o país, porque não podemos esquecer.

- O rei assistiu à missa de exéquias do papa João Paulo II. Como é a relação hoje com o governo?

Dom Schmitthaeusler: A relação é especialmente boa entre o governo e a Igreja católica. Temos um Ministério de Culto e Religião, como em todos os outros países comunistas. Eu fui vigário geral da diocese de Phnom Penh durante três anos e tenho uma boa relação com o governo. Somos sempre bem-vindos.

- Mas não é fácil. O senhor não pode fazer visitas de porta em porta. Como isso afeta o seu trabalho de evangelização se existem limites para visitar as famílias das aldeias?

Dom Schmitthaeusler: Não é bem assim. Nós não vamos de porta em porta como os mórmons nem temos permissão para usar sistemas de microfones e megafones para fazer proselitismo. E eu entendo isso. Alguns protestantes usaram grandes cartazes para citar passagens bíblicas e isso não é permitido. Eu posso visitar as famílias das aldeias sem restrição nenhuma. Explicamos para o governo o que é a fé católica e sempre usamos o termo católico, e não cristão.

- O que provoca uma reação tão negativa do governo ao se estabelecer uma seita cristã ou protestante?

Dom Schmitthaeusler: Há muitas seitas cristãs no Camboja e para o governo é difícil saber quem é quem. Estão contentes conosco porque temos uma estrutura clara: o Papa, os bispos e os sacerdotes.

- Quais são atualmente as necessidades de seu país e da Igreja Católica?

Dom Schmitthaeusler: A necessidade de formação e ajudar nosso povo a se encontrar com Deus, isso é muito importante. Ter tempo para rezar em silêncio, para se relacionar com Jesus e com Deus – este é um grande desafio em um país budista.

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Esta entrevista foi realizada por Mark Riedemann para "Deus chora na terra", um programa rádio-televisivo semanal produzido por ‘Catholic Radio and Television Network', (CRTN), em colaboração com a organização católica Ajuda à Igreja que Sofre.

Mais informação em www.aisbrasil.org.br, www.fundacao-ais.pt.