A importância política da verdadeira noção de liberdade.

Criar um país de libertários não instaura uma sociedade de pessoas livres, se a liberdade não é mais do que a possibilidade irresponsável de cada um fazer o que quer.

Brasília, (Zenit.org) Paulo Vasconcelos Jacobina | 621 visitas

Há um desânimo cidadão em curso no país. Muita gente está sentindo fortemente a impressão de que não há mais sonhos a serem sonhados em comum, porque todas as utopias que nos são apresentadas são, na verdade,“distopias”, ou seja, utopias ao contrário, pesadelos de um futuro que não parece valer a pena viver.

Isto ocorre quando os projetos políticos que são apresentados aos cidadãos, mesmo quando aparentemente decorrentes de um sincero desejo de mudanças e avanços, estão fundamentados em noções equivocadas, falsas mesmo. Falo especificamente da noção de “liberdade” que se coloca como fundamento para a construção dos sonhos políticos do povo brasileiro.

Há duas maneiras básicas de encarar o precioso dom da liberdade, uma falsa e uma verdadeira. Estas concepções têm uma influência fundamental na conformação política da sociedade. São elas:

1) A maneira falsa, na qual a liberdade se relaciona pura e simplesmente com uma vontade ilimitada e incondicionada, e que portanto mais livre é aquele que pode exercer incondicionalmente sua vontade para escolher indiferentemente todas as alternativas que se lhe apresentam num determinado momento. Mais livre, para os que pensam assim, é aquele que tem mais alternativas à sua disposição a cada momento. Por isto, para os que pensam assim, nem sequer o fato de ter escolhido alguma coisa pode vir a limitar o direito irrestrito de escolher de novo, e de novo e a cada vez.

Para os que entendem assim a liberdade, o compromisso é a antítese da liberdade. Vale dizer, tão mais livre é um ser humano quanto mais ele não precise nem explicar as razões de uma determinada escolha, nem tampouco enfrentar nenhuma consequência por ter escolhido algo, em especial a consequência de comprometer-se com os resultados da sua escolha e com as renúncias das alternativas.

Aqui, a relação com o outro, que é inevitavelmente atingido por qualquer escolha humana, é sempre vista como um limite, um estorvo para que se alcance a liberdade plena. Porque cada vez que alguém percebe que sua capacidade de escolher se limita, de qualquer modo, pela liberdade do outro, percebe imediatamente o outro como um opressor, alguém que, caso fosse eliminado ou subjugado, tornaria a minha própria liberdade mais ampla.

2) A outra noção, a única verdadeira e sadia, é a de que a liberdade se relaciona essencialmente com a capacidade de discernir, dentre todos os fins propostos ao ser humano, aquele que vale a pena eleger e, elegendo-o, ser capaz de enfrentar todas as consequências de sua escolha a fim de alcançar o resultado escolhido, aceitando inclusive a renúncia das alternativas em nome da possibilidade de construir o fim pretendido. Mais livre, portanto, é aquele que é capaz de começar e terminar o que escolheu, sem ser a cada momento desviado para um novo começo que o faça abandonar tudo, como um Sísifo adolescente, para começar tudo de novo, deixando para outros o dever de arcar com as consequências daquilo que começou e não terminou.

Aqui, neste segundo modelo, a liberdade relaciona-se com a razão, com a possibilidade de enxergar fins e valorá-los, de escolher os meios adequados para alcançá-los e, principalmente, de renunciar a alternativas atraentes e desviantes e de arcar completamente com as consequências do que escolheu, mesmo quando venha a discernir que fez uma escolha mal feita e precisa recomeçar. Mas recomeça sabendo sempre do preço a pagar. Para este segundo modelo de liberdade, tão mais livre é uma pessoa quanto mais seja capaz de discernir adequadamente os fins de suas ações e escolher os meios adequados, renunciando a tudo que atrapalhe a conquista do fim pretendido e assumindo pessoalmente as responsabilidades pelas inevitáveis consequências, boas e ruins, que advêm de qualquer escolha – sabendo que todo caminho concentra inevitavelmente vantagens e desvantagens, que devem ser suportadas –e colhidas –por aquele que livremente escolheu caminhar determinado caminho.

Neste modelo, o outro é exatamente a condição da liberdade. Uma vez que se pode discernir fins e estabelecer responsabilidades pelos meios, caminhar junto é sempre poder atingir mais facilmente os fins propostos e dividir mais justamente tanto as dificuldades quanto as vitórias do caminho. Não é difícil perceber que o conceito de “liberdade” descrito no item 01 acima é aquele que se infiltrou profundamente na nossa cultura contemporânea: o conceito voluntarista e libertário, no qual a responsabilidade não é uma consequência, mas uma opressão, um limite à liberdade. E que o outro, aquele que cobra a responsabilidade, é, para estes, um opressor. Há uma pulverização da política em grupelhos alinhados com seus interesses estritamente individuais, que se tornam bandeiras libertárias contra uma maioria silenciosa que busca viver sua vida sob a égide da noção de liberdade descrita no item 02 supra. Esta "liberdade" do item 01 é a que tem movido grupos que consideram condutas como depredações, ocupações e destruição de patrimônio público e privado, pichações, fechamento de vias e agressão física à autoridade pública, a permissividade sexual e a desconstrução do modelo natural de "família", como meios justos e legítimos ao seu intento de "avançar o país" até eliminar os "entraves opressivos" da responsabilidade pressuposta no modelo verdadeiro de liberdade, descrita acima no item 02.

De fato, no entanto, nunca se gozou de tanta permissividade social e sexual. Nunca se tratou com mais tolerância a dissolução das famílias, o uso indiscriminado de drogas, a sexualidade fugaz e descomprometida, a desconstrução de quaisquer modelos de estabilidade e confiança comportamental, a substituição da formação educacional e profissional pela doutrinação ideológica e sexual, como pela ideologia do gênero e a promoção da pansexualidade.

E nem por isto as pessoas estão mais felizes. Ao contrário, sentem-se cada vez mais inseguras e ansiosas, e, se as mais pobres se desesperam pela perda total da perspectiva de ter um lar estruturado, serviços públicos minimamente razoáveis e um trabalho decente para viver e sustentar seus filhos, os mais ricos já não têm pudor de, após ter adotado o discurso libertário para consumo interno, declarar em seus círculos mais íntimos que seu sonho mais secreto é sair do país com a prole para morar e educá-los no exterior. Querem mudar-se para os países que levam a sério a visão de liberdade expressada no número “2” supra.

Todos estes conterrâneos, ricos e pobres, têm a intuição de que a liberdade voluntarista é uma liberdade que não leva a lugar nenhum, senão à impossibilidade de realização humana verdadeira. Criar um país de libertários não instaura uma sociedade de pessoas livres, se a liberdade não é mais do que a possibilidade irresponsável de cada um fazer o que quer. Esta é uma liberdade de escravos, porque não faz caminhar. Ao contrário, paralisa.