A "Lista de Schindler" do papa Bergoglio

Descoberta de jornalista italiano: o então provincial dos jesuítas salvou uma centena de pessoas

Roma, (Zenit.org) Sergio Mora | 894 visitas

Seu nome é Nello Scavo. É jornalista e cronista do jornal Avvenire, da Conferência Episcopal Italiana.

Quando Francisco foi eleito pontífice, levantaram-se algumas vozes que o acusavam de cumplicidade com a ditadura argentina, calúnias que, pouco depois, foram desmentidas por pessoas que tinham conhecido Bergoglio e que sabiam como as coisas realmente tinham acontecido.

Entre elas, o Nobel da Paz argentino Pérez Esquivel, defensor dos direitos humanos considerado como um homem acima de qualquer suspeita em seu país, e a advogada Alicia Oliveira, secretária de Direitos Humanos da chancelaria argentina em tempos do ministro Rafael Bielsa e do presidente Néstor Kirchner. A campanha contra o papa Francisco chegou ao cume (e ao cúmulo) com uma foto falsa, uma montagem na qual Bergoglio aparecia supostamente dando a comunhão ao ditador e ex-chefe da junta militar do país, Rafael Videla.

Assim que escutou todas essas acusações, o jornalista italiano começou a investigá-las. Nello entrou em contato com pessoas a quem o então superior provincial dos jesuítas, Bergoglio, tinha ajudado a fugir da ditadura. Eram cerca de 20 pessoas, cujos testemunhos levam a calcular que a lista de pessoas salvas pelo atual papa cheguem a cem. O livro “A lista de Bergoglio”, com lançamento previsto na Itália para o fim deste mês, recopila as suas histórias.

O jornal La Provincia, da cidade italiana de Como, onde vive o cronista de Avvenire, informa: “Ana e Sergio estão na Itália há 30 anos, desde que conseguiram escapar das torturas e da perseguição da ditadura argentina graças à ajuda do papa Francisco. Jorge Mario Bergoglio agiu como Oscar Schindler, o empresário que salvou centenas de judeus dos nazistas”.

Com a permissão do editor para investigar o caso, Nello começou a entrevistar pessoas e viu surgirem aos poucos novos testemunhos.

“O papa talvez não vá confirmar nunca, mas descobrimos que naquela época ele tinha criado uma rede de solidariedade para salvar os dissidentes e perseguidos, uma corrente em que cada elo não sabia do outro”.

A investigação não foi fácil, porque muitos amigos de Bergoglio não contaram quase nada sobre as pessoas salvas pelo papa e porque o então provincial dos jesuítas nunca se vangloriou da sua obra humanitária.

O cronista italiano indica dois motivos para essa discrição. O primeiro, contado por um amigo de Bergoglio: “O papa não quer espetáculos de marketing em volta da imagem dele”. E o segundo, deduzido pelo autor: “Por causa da dor diante de tudo o que aconteceu naqueles anos, em particular pelos desaparecidos, pelas crianças arrancadas das mães assassinadas, pelas torturas...”. Para Bergoglio, “ter salvado alguém não é nada diante da dor dessas pessoas”.

Os relatos de Nello evocam de alguma forma o dia 10 de abril deste ano, em que Francisco enviou uma carta à Associação das Mães de Praça de Maio, assinada pelo número dois do equivalente ao ministério de Assuntos Exteriores do Vaticano: “O santo padre participa da sua dor e da de tantas mães e familiares que padeceram e padecem a perda trágica de entes queridos naqueles momentos da história argentina”.

Uma das testemunhas, um homem que não era batizado nem crente e que na época trabalhava em uma revista, declara: “Bergoglio me protegeu, e, graças aos jesuítas, eu consegui escapar, primeiro para o Uruguai e depois para o Brasil”. Finalmente, ele zarpou “num barco mercante para a Itália”.