A livre empresa e a Igreja Católica

Como a moralidade na empresa faz progredir a humanidade

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Por Pe. John Flynn, L. C.

ROMA, sábado, 10 de dezembro, 2011 (ZENIT.org) - A recente nota do Pontifício Conselho de Justiça e Paz, juntamente com o protesto que eclodiu em várias cidades do mundo, nos fizeram refletir sobre os limites do capitalismo, e levantou novamente a questão do que exatamente a Igreja Católica ensina sobre questões de Economia e de Doutrina Social.

A publicação na Austrália do livro "Empreendedorismo na Tradição Católica", publicado pelo Connor Court; (anteriormente publicado nos EUA pela Lexington Books), é uma boa contribuição para o debate sobre estes temas.

Assinado pelo Padre Anthony G. Percy, reitor do Seminário do Bom Pastor em Sydney, na Austrália, o livro examina o desenvolvimento do pensamento da Igreja sobre trabalho e negócios.

A partir da óbvia necessidade e aspiração de fazer um trabalho conforme os ensinamentos dos Padres da Igreja chegando até as encíclicas sociais dos últimos séculos, o livro sintetiza o desenvolvimento da reflexão teológica sobre estas questões.

O livro centra-se em particular sobre a figura do empreendedor, e Percy diz na sua introdução que a Igreja tem manifestado um profundo apreço por este papel. A Sagrada Escritura condena a ganância por dinheiro, mas não condena o lucro.

Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento afirmam que o trabalho e a cooperação da humanidade com Deus é demonstrada no sucesso e no progresso do mundo criado.

Várias parábolas de Jesus refletem as atividades de negócio. O homem que busca um tesouro no campo, o comerciante que vai procurando pérolas finas, a parábola dos talentos e a comparação entre o administrador honesto e desonesto, são apenas algumas delas.

O livro argumenta que o significado fundamental dessas parábolas é espiritual, mas ao mesmo tempo, há um reconhecimento do trabalho humano envolvido nessas atividades.
Na parábola dos talentos, aqueles que conseguiram multiplicar a riqueza são elogiados por sua energia e perseverança, enquanto que o administrador preguiçoso, que para evitar os riscos e os obstáculos esconde o talento, é criticado.

Segundo o autor, o espírito empresarial não figura muito na reflexão dos Padres da Igreja, e é claro que essa atividade não é considerada incompatível com os cristãos. O empresário é chamado, como todos os outros, para uma melhor utilização dos recursos naturais do planeta para contribuir ao bem comum.

Parte do livro está dedicada a um breve resumo do que Tomás de Aquino e outros teólogos têm escrito sobre o empresário. No geral, a tradição teológica católica vê esta figura cheia de algumas virtudes, como a criatividade e o desejo de trabalhar com os outros, e também a moderação no uso e na posse do dinheiro.

A partir de uma reflexão mais profunda sobre as encíclicas sociais, começando com a publicação em 1891 da "Rerum Novarum" de Leão XIII, conclui-se que o socialismo é rejeitado e o direito à propriedade privada é defendido.

A Rerum Novarum insiste no fato de que o Estado não deve absorver nem o indivíduo e nem a família. Ambos deveriam ser livres para operar e desenvolver a iniciativa privada na esfera econômica.

Com a encíclica "Quadragesimo anno", o Pontífice Pio XI teve que enfrentar uma situação mundial muito difícil. Em 1931 estava-se logo após a Primeira Guerra Mundial e no meio da Grande Depressão.

Nesta encíclica, o Papa defendeu a propriedade privada, sublinhando o ensino tradicional segundo o qual as atividades econômicas devem ser usados ​​para o bem comum. Ainda que defendendo o livre mercado, Pio XI criticou o excessivo individualismo que ignora a dimensão social e moral da atividade econômica.

Em relação à liberdade, numa mensagem de rádio para celebrar o décimo aniversário da "Quadragesimo ano", Pio XII disse que as pessoas têm o direito fundamental de fazer uso dos bens materiais para o desenvolvimento comercial por meio da troca.

Num discurso dirigido aos banqueiros em 1950, Pio XII descreveu o trabalho como necessário desenvolvimento social fazendo notar que deve ser orientado para o bem comum. Se feito corretamente o trabalho pode ser uma maneira de servir a Deus e alcançar a santificação pessoal.

Em outro discurso, dirigido aos representantes das Câmaras de Comércio, Pio XII levantou a questão da vocação para o comércio. Defendeu a importância da iniciativa privada e seu papel na criação de riqueza. E pediu para ser fiel ao ideal de serviço, evitando concentrar-se exclusivamente no lucro, para não trair a vocação ao serviço.

Em outras intervenções, Pio XII renovou o seu convite às empresas para servirem o bem comum. A liberdade das atividades econômicas - disse - é justificada se promove uma maior liberdade para a humanidade.

Dois capítulos do livro foram dedicados aos ensinamentos de João Paulo II e às suas contribuições para a doutrina social da Igreja. No primeiro capítulo, Percy aprofunda a questão do trabalho humano de acordo com o beato papa polonês.

Na primeira encíclica sobre questões económicas, "Laborem Exercens", João Paulo II estabelece três idéias: o trabalho tem um significado objetivo, um significado subjetivo e um significado espiritual.

O trabalho tem um significado objetivo externo quando envolve o esforço de criar algo. João Paulo II pôs este conceito no contexto do dom da criação. Portanto, - disse Percy - a criatividade de um empreendedor é um dom que não é totalmente autônomo, pois está sujeito a uma ordem estabelecida por Deus

Na dimensão subjetiva, uma pessoa trabalha para realizar a sua humanidade na realização da ação humana universal.

Falando a homens de negócio em Buenos Aires em 1987, João Paulo II disse que o empreendedor desempenha um papel vital na sociedade para produzir bens e serviços. Durante esta atividade os empreendedores deveriam realizar-se como pessoas ao serviço dos outros para criar uma sociedade mais justa e pacífica.

Sobre a dimensão espiritual do trabalho, de acordo com Percy, o pontífice polonês na "Laborem Exercens", diz que o nosso trabalho é uma forma de participação individual na obra redentora de Cristo. Por esta razão, é também uma atividade salvífica.

Para o autor do livro a "Centesimus Annus", contém uma análise detalhada da economia de mercado. Nesta encíclica, o Papa reiterou que o fator humano e o desenvolvimento das habilidades e da tecnologia desempenham um papel decisivo para o desenvolvimento e para a criação da riqueza. Neste sentido, o trabalho dos empreendedores é uma fonte de riqueza.

Os empresários trabalham e colaboram livremente com os outros para satisfazer suas exigências. João Paulo II enfatizou a importância dessa orientação para as necessidades dos outros. O trabalho envolve a pessoa numa comunidade, e o trabalho gerado também serve para os outros.

Percy afirma que a "Centessimus Annus " expande e desenvolve a doutrina católica, e não é a mudança radical que alguns temiam. O Papa aprovou a economia livre, mas de nenhum modo assumiu a visão liberalista.

Na encíclica em questão são expressos alguns conceitos inovadores, como por exemplo a idéia de que uma empresa pode ser e agir como uma comunhão de pessoas.

Em conclusão, o livro diz que a Igreja tem em alta consideração, tanto a iniciativa privada como o trabalho empreenditorial.

Essas atividades, no entanto, são chamadas a reconhecer a dignidade da pessoa humana e a obrigação de servir o bem comum.