A mão de Deus conduzindo a história das pessoas

Entrevista com mons. Valdir Mamede, nomeado recentemente bispo auxiliar da arquidiocese de Brasília (DF)

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 1163 visitas

Uma vocação iniciada no seio de uma família católica “onde a prática religiosa era constante”, relatou em entrevista à ZENIT mons. Valdir Mamede, recentemente nomeado bispo auxiliar de Brasília (DF).

Monsenhor Valdir Mamede foi até agora, pároco da Paróquia Imaculado Coração de Maria, no Park Way, em Brasília. Mineiro de Silvianópolis, nasceu em 21 de julho de 1961. Entrou para o Seminário dos Claretianos em Pouso Alegre (MG), em 1979, e professou seus votos religiosos em 1981. Foi ordenado padre por dom João Bosco Óliver de Faria, em maio de 1988. Aceito no clero de Brasília pelo Cardeal dom José Freire Falcão, em 2003, foi incardinado por ato do cardeal dom João Braz de Aviz, em 2006.

Publicamos a seguir a entrevista que mons. Valdir Mamede concedeu à ZENIT, logo após saber da notícia da sua nomeação.  

A ordenação episcopal será em Brasília no dia 16 de março, sábado, às 8h30 da manhã na catedral Nossa Senhora Aparecida e todos os fieis podem participar.

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ZENIT: Como foi o seu percurso até o sacerdócio?

Pe. Valdir: Nasci no sul de Minas Gerais, de uma família onde a prática religiosa era constante. E foi nesse contexto que, na catedral de Pouso Alegre, comecei a atuar como coroinha. Muito me inspirou o então pároco, Mons. Otaviano, e assim senti um chamado de Deus para o ministério ordenado.

ZENIT: Com quantos anos entrou no seminário e aonde?

Pe. Valdir: Entrei no seminário tendo completado 18 anos, já com o segundo grau completo. E entrei ali mesmo em Pouso Alegre no seminário da Congregação dos Claretianos, os missionários filhos do Imaculado Coração de Maria.

Foi ali que fiz todo o meu caminho vocacional. Apesar de ter sido coroinha na catedral, fiz todo o meu caminho nos claretianos. Penso sempre que é a mão de Deus conduzindo a história das pessoas. E foi com os claretianos que fiz o noviciado, filosofia, teologia, me ordenei padre.

ZENIT: Fale um pouco da sua família.

Pe. Valdir: Somos 7 filhos de um casal já falecido. Meu pai falecido há 8 anos e minha mãe há quase 2. E nós temos o ponto de encontro no sul de Minas, em Pouso Alegre e entorno. Eu é que vim para Brasília por causa dos claretianos e estabeleci minha vida e fiz o meu caminho. Tenho um irmão que é médico, outros, funcionários públicos, algum que trabalha na área do comércio... e todos lá em Minas.

ZENIT: Conte um pouco da sua juventude antes do seminário...

Pe. Valdir: A minha juventude, antes de entrar no seminário, foi de muito trabalho e estudo. Durante vários anos trabalhei numa papelaria que ainda existe em Pouso Alegre, papelaria que leva o nome do primeiro bispo de Pouso Alegre: Papelaria Dom Néri. Estudava em escola pública e concluindo o segundo grau me encaminhei para o seminário.

ZENIT: E quando entrou no clero de Brasília?

Pe. Valdir: O meu percurso é interessante. Devo a minha formação religiosa, acadêmica, aos missionários claretianos. Alguns anos depois, já estando aqui em Brasília, é que, consultado meu diretor espiritual, eu fiz a opção de passar para o clero secular da arquidiocese de Brasília. Tendo recebido a ordenação em 1988 foi só em 2003 que passei para o clero da arquidiocese de Brasília.

ZENIT: Qual tem sido a sua experiência pastoral?

Pe. Valdir: A minha experiência como claretiano foi sempre paroquial. Fui vigário ou pároco no sul de Minas, em Pouso Alegre. Depois, por seis anos, estive morando – alguns desses anos como padre – lá na cidade do Rio de Janeiro e depois o último período aqui em Brasília.

Concomitantemente, aqui em Brasília, por causa da minha formação específica, que é o direito canônico, foi-me pedido um trabalho no seminário, como professor. Mas, isso foi um percalço, porque inicialmente, o projeto dos claretianos era que eu ficasse na paróquia. Então, a Igreja de Brasília me pediu esse serviço e eu ficava com essas duas atividades.

ZENIT: O senhor está formado em que?

Pe. Valdir: A minha formação acadêmica é o direito eclesial. Essa é a minha área de atuação. Graças aos Claretianos, a quem sou devedor, consegui estudar nas universidades romanas, Angelicum e Lateranense, e obter mestrado e doutorado em direito canônico.

Defendi tese do doutorado no ano 2002, sobre direito administrativo paroquial, na Lateranense em Roma.

ZENIT: Com tanta experiência em paróquias, realmente é verdade que o Direito “salva le spalle” (expressão italiana que quer dizer "proteger") do pároco?

Pe. Valdir: O direito realmente “salva le spalle”, mas a sua principal tarefa é a salvação da pessoa no sentido integral.

ZENIT: Qual é a funcionalidade do Direito Canônico numa paróquia?

Pe. Valdir: O Direito Eclesial possui algumas notas. Diria que a primeira nota do Direito Eclesial é a juridicidade. É verdadeiro direito e não é um Vade Mecum pastoral. Porém, ele é um direito instrumento à serviço de uma causa maior. E esta causa está consignada no último dos cânones, que é a salvação das almas. E esse direito instrumento é formado pelo princípio da comunhão, uma comunhão que ajuda na construção de uma causa que não é nossa, mas que está confiada a nós, enquanto depositários, que é a causa da salvação das almas.

ZENIT: O que é um bispo auxiliar?

Pe. Valdir: A figura do bispo auxiliar é uma resposta ao pedido de alguém, no caso do bispo titular, de contar com a ajuda de outro bispo porque o trabalho se faz pesado. Então, o bispo auxiliar tem essa incumbência. Ser um colaborador muito próximo e inserido num corpo, que é o colégio episcopal e, a partir do princípio da comunhão, é um colaborador bem próximo do bispo.

ZENIT: Onde entra no direito?

Pe. Valdir: No campo do direito nós falamos que a figura auxiliar é uma “fictio Iuris” porque cada Igreja tem seu bispo. Por isso, quem é feito bispo auxiliar é nomeado bispo de uma Igreja extinta. Por isso, eu fui nomeado bispo titular de uma Igreja chamada Naisson, que fica na Dácia, que é a atual Romênia, Iuguslávia... mas não sei bem onde fica.... Isso é assim porque existe um princípio que provém dos concílios dos primeiros tempos da Igreja: cada Igreja tem o seu bispo. Então, a Igreja de Brasília tem o seu bispo. A Igreja de Naisson tem o seu bispo, porém o bispo de Naisson serve de auxiliar em Brasília, por se tratar de uma Igreja extinta.

ZENIT: Como foi a sua relação com a cidade Brasília?

Pe. Valdir: Com a cidade de Brasília, logo que aqui cheguei, comecei a escrever uma história de verdadeiro amor. Vim transferido do Rio de Janeiro. Fui recebido aí pela comunidade na área de Taguatinga e comecei a tecer uma rede de amizades muito boa, muito saudável, que me ajudou muito a ser padre... e é aqui então que, com a graça de Deus, fui chamado ao episcopado e é aqui que quero continuar servindo esse povo. A Igreja de Brasília tem um rosto muito dinâmico, muitas caras, com as pastorais, os movimentos, o serviço... e o bispo vai ser um animador dessa vitalidade, para que nós possamos oferecer para essa cidade, que às vezes é marcada com coisas que nos assustamos – pelo que as criaturas humanas sejam capazes de fazer – oferecer para essa cidade, para o Brasil como um todo, uma esperança de dias melhores, uma esperança que tem rosto, que tem nome, Jesus Cristo, que tem o rosto do verbo que se faz carne e que habita entre nós.

ZENIT: E ser nomeado bispo no ano da JMJ Rio 2013, ano da fé, ano da comemoração dos 50 anos do Concílio, da CNBB, do catecismo e de tantas festividades... o que significa para o senhor?

Pe. Valdir: Diz que o desafio é enorme, são muitas as frentes de trabalho que se delineiam. E é preciso que, seguindo a escola de Santo Antonio Maria Claret, fundador dos dos padre Claretianos, que foi bispo em Cuba, é preciso buscar o mais urgente, o mais oportuno e o mais eficaz.

ZENIT: Qual é o seu conselho para os sacerdotes, colegas da arquidiocese de Brasília?

Pe. Valdir: Deixem-se conduzir por Deus. Fomos chamados por Ele. E Deus não abandona aqueles que antes escolhe. Nós somos pessoas humanas, marcadas pela limitação, mas temos o Espírito de Deus que vem em auxílio da nossa fraqueza. Ainda que os tempos sejam difíceis, sabendo que Deus não nos abandona, porque Ele é fiel, podemos nós também nos esforçar por nos manter em fidelidade, porque como o autor da carta aos Hebreus diz, será pela nossa perseverança e fidelidade que alcançaremos a vida e a salvação.

ZENIT: Gostaria de fazer um convite para os fieis da Arquidiocese de Brasília?

Pe. Valdir: A Igreja em Brasília celebrará a ordenação do seu bispo auxiliar no dia 16 de março, um sábado, às 8h30 da manhã, lá na catedral Nossa Senhora Aparecida. O ordenante será o nosso arcebispo Dom Sérgio da Rocha, e ele terá como consagrantes o antigo arcebispo de Brasília, nosso querido cardeal Dom José Freire Falcão e o bispo que me ordenou padre, que é Dom João Bosco Oliver de Faria, o atual arcebispo de Diamantina. Eu sou o primeiro padre que ele ordenou e, ele já me disse, que eu serei o primeiro bispo da turma que ele ordenou padre.