A Messe é grande...

Missionário Italiano na Angola, Pe. Luiz De Liberali, narra a sua missão em diário

Brasília, (Zenit.org) | 750 visitas

Pe. Luiz De Liberali, italiano, sacerdote salesiano e missionário na Angola desde o ano de 2009 tem 60 anos de idade e uma longa trajetória de missão, tendo sido por 18 anos missionário no Nordeste Brasileiro, do 1991 ao 2009. 

Periodicamente Pe. Liberali escreve um diário da sua missão na Angola e publica no seu blog https://padreluiz.wordpress.com

No dia 09 de Janeiro desse ano Pe. Luiz se apresentou aos leitores de ZENIT, por meio de uma entrevista informal que lhe fizemos. Pode-se ler a entrevista clicando aqui.

Publicamos abaixo o seu diário de número 28, no qual narra, entre tantas peripécias missionárias, a grande alegria de ter participado da JMJ Rio 2013 com o Papa Francisco e a imensa alegria de ser missionário.

Nesse mês das vocações, Pe. Luiz nos convida a rezar com essa antiga oração: “Cristo não tem mãos, Cristo não tem pés, Cristo não tem corpo, para trabalhar hoje... Ele precisa das nossas mãos, precisa dos nossos pés, precisa do nosso corpo para continuar a amar...”

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Estou de volta em Angola, depois de participar da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, que tinha como lema: “Ide e fazei discípulos todos os povos” (Mt 28,29). Os encontros foram muitos, os dias estavam bem programados, as lembranças continuam maravilhosas e, sobretudo, a presença da Igreja jovem ao redor do Pastor, o Papa Francisco, foi algo que permanecerá no coração de todos aqueles que estiveram presentes ou que assistiram pelos meios de comunicação. Voltando agora para minha missão, lembro neste diário o que eu fiz nestes últimos meses para viver este mandato.

A JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE

Papa Francisco enviou a todos os continentes 3 milhões de pessoas, a maioria jovens, de 180 nações diferentes, reunidos na praia de Copacabana no Rio de Janeiro, para anunciar o evangelho do amor a todos. Vendo aquela multidão, todas as dificuldades (viagens, cansaço, caminhadas, dias de chuva, noite à beira da praia no frio, horas de espera na fila para receber os kits ou para subir nos transportes públicos…) passaram no esquecimento. O Papa convidou os jovens a continuar a missão de Jesus assim: “Jovens sejam evangelizadores de outros jovens!” E dentro de mim, sempre pensava nas minhas comunidades rurais, que, certamente não terão tido a oportunidade de acompanhar, nem pela televisão nem pelo rádio, este evento de repercussão mundial (muitos católicos das aldeias rurais souberam da eleição do Papa Francisco só nas minha visitas; ainda no mês de junho eu podia falar disso como uma novidade – e tinha acontecido no mês de março!). Nas próximas visitas mostrarei a eles algumas fotos…

PÁSCOA EM CANGAMBA

Na Semana Santa viajei para a cidadezinha de Kangamba (350 kmde Luena), para viver a Semana Santa e a Páscoa juntamente aos cristãos que vivem naquele município. Estive em todas as comunidades e as encontrei vivas e animadas, graças ao trabalho dos catequistas. O que mais me comoveu foi a alegria da noite de Páscoa: eu estava cansado e fui dormir, mas a maioria daqueles que participaram da Vigília Pascal ficaram na igreja, a noite toda, dançando e cantando, para celebrar a alegria da vitória de Cristo sobre a morte. Às 5 da manhã, quando a aurora estava chegando, saíram pelas ruas anunciando a todos a Ressurreição de Jesus.

CURSO DOS CATEQUISTAS EM CANGONGA

No final de abril estive em Cangonga (150 kmde Luena), para o encontro dos catequistas daquela área. Fazia 4 meses que não visitava a comunidade por causa da lama que temos na estrada durante os meses da chuva. Mais de 30 jovens e adultos, de 11 comunidades, participaram da formação que durou 10 dias. A convivência foi muito simples: para dormir, uma barraca de lata e para comer, umas travessas de madeira do caminho de ferro! Encontrei ainda muitas falhas e persistem muitas dificuldades, mas notei também o crescimento dos catequistas no seu compromisso evangelizador.

CURSOS DOS CATEQUISTAS EM MAKONDOLO

No início de maio fui para Makondolo, para o último curso de catequistas deste ano. Makondolo é uma pequena aldeia, mas está ao centro de muitas outras. Como não tem meios de transportes naquela área, a maioria dos catequistas vieram a pé, percorrendo distâncias entre 10 e50 km, e muitos deles foram acompanhados por alguns adolescentes e jovens. A cozinha (sem estruturas fixas, à lenha e ao ar aberto) preparava todos os dias a comida para mais de 40 pessoas (sem contar mulheres e crianças, que sempre apareciam numerosos)! Tudo foi muito bem aproveitado: eu encontrava até o tempo para tomar um banho no rio, todos os dias! No final, os catequistas renovaram seu compromisso de fé, voltando assim mais revigorados e firmes para suas comunidades, para continuar a reavivar os fiéis.

VISITAS ÀS COMUNIDADES

Depois do curso aproveitei minha presença naquela área de Makondolo, que fica a240 kmdo centro da paróquia, para visitar as comunidades. A última visita tinha acontecido em dezembro e foi uma bela oportunidade, depois de seis meses, para celebrar a eucaristia. Durante a viagem encontrei muitas dificuldades: refizemos quase completamente uma ponte de madeira, ficamos atolados muitas vezes na areia, apertamos muitas vezes os parafusos da tração dianteira e paramos longos tempos para resfriar o radiador, cheio de folhas que faziam ferver a água do motor… Porém sempre fui bem acolhido nas comunidades e este calor ajudava até a esquecer os problemas e a superar o frio da noite (que neste período do ano é muito forte).

PRIMEIRA VIAGEM E PRIMEIRA PROCISSÃO

Depois de dois anos de uso, o carro apresentava sempre problemas com o 4x4: assim foi necessária uma mudança de veículo. “Batizei” o novo carro (um pouco menor do que o outro, para tentar amenizar os problemas das estradas) com uma viagem a Cangamba, celebrando a festa do Corpus Christi. Como nunca tinha acontecido a procissão com a eucaristia nas ruas da pequena cidade, ninguém pensou em enfeites especiais, porém convidei todos a trazer flores para a procissão. Foi belíssimo ver crianças, jovens e adultos acompanhar o Santíssimo Sacramento cantando, dançando, rezando e… oferecendo flores a Jesus!

CATEQUISTAS MISSIONÁRIOS

No mês de junho me aconteceu de conhecer, pela primeira vez, duas novas comunidades e celebrar, sempre pela primeira vez, em outras duas. Todas nasceram a causa do bom espírito missionário de alguns catequistas: as visitas deles produzem simpatia e acolhimento do evangelho! Os dois povoados aonde estive pela primeira vez, e que distam520 kmda cidade onde eu moro, nasceram depois da visita de 13 católicos de Muié que percorreram80 kma pé para chegar até lá, na semana de Pentecostes! Muita fé e coragem, mas que valeu a pena!

CONFIRMAÇÕES

Neste ano o Bispo de Luena, dom Tirso, reservou 5 dias para visitar a área rural da paróquia. Assim foi a ocasião para organizar a administração do sacramento da confirmação (pela primeira vez nestes 5 anos de minha presença) a vários catequistas, e suas esposas, que sempre participaram dos cursos de formação. Em Chikala foram 14; em Makondolo 10; em Cangonga 2; em Cangumbe 26. Muitos deles desejavam desde muito tempo que isso acontecesse, mas por causa da guerra, e das suas consequências, nunca tinham tido esta oportunidade.

VERÔNICA

Cada ano recebo muitas vezes o triste anúncio da morte de crianças. No início de julho estive numa comunidade a70 kmda cidade, Massivi, aonde o ano passado tinha batizado uma menina, de alguns meses, que estava muito doente, de nome Verónica, e que pensava viesse a falecer rapidamente. Minha surpresa foi grande quando, nesta última visita, vi a menina saudável, nos braços da mãe. Agradeci a Deus por esta graça e fiquei cheio de alegria.

PADRE CUSTÓDIO

Depois de 38 anos de espera, saudades e lembranças, Padre Custódio Pinto, um religioso claretiano português, teve a alegria de reencontrar o seu povo. Pe. Custódio viveu 3 anos em Cangumbe, de1972 a1975, trabalhando em algumas das comunidades que eu visito. Quando foi a Portugal para ver o pai doente não pôde mais voltar para sua missão por causa da guerra. Guardou na sua memória muitas lembranças bonitas e escreveu um livro sobre sua vocação e sua experiência missionária, mas só neste ano voltou à terra de Angola para rever amigos e lugares que ficarão para sempre no seu coração.

A MESSE É GRANDE…

Os meses de abril, maio e junho foram cheios de viagens e encontros: não sei dizer quantos quilómetros percorri e quantas comunidades visitei, só constatava a minha pequenez comparada com a imensidão do campo de trabalho e pensava naquilo que Jesus dizia aos seus discípulos: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos: rogai, portanto, ao Senhor da messe para que mande trabalhadores para a sua messe” (Mt 9, 37).

Te convido a rezar pelas vocações e refletir com esta antiga oração que me veio à mente quando vi este crucifixo em Chimboma (que estava dentro da igreja que caiu durante as chuvas) que a comunidade colocou na parede da escola numa das minhas visitas.

“Cristo não tem mãos, Cristo não tem pés, Cristo não tem corpo, para trabalhar hoje... Ele precisa das nossas mãos, precisa dos nossos pés, precisa do nosso corpo para continuar a amar...”

Pe. Luiz De Liberali

Paróquia de São Pedro e São Paulo

Luena (Moxico) – Angola

Blog: https://padreluiz.wordpress.com