A minha vivência ao lado de São Josemaría Escrivá representou o fator preponderante da minha vocação

Palavras de Dom Rafael Llano Cifuentes na comemoração do seu octogésimo aniversário natalício

Rio de Janeiro, (Zenit.org) | 1313 visitas

“Recebi o convite ao sacerdócio de São José María Escrivá de Balaguer”, afirmou Dom Rafael Llano Cifuentes, bispo emérito da diocese de Nova Friburgo, em missa comemorativa dos seus 80 anos, realizada no dia 24 de fevereiro no Santuário Nossa Senhora de Fátima, na cidade do Rio de Janeiro.

Ao longo da sua vida conviveu e foi secretário de São José Maria Escrivá de Balaguer, fundador do Opus Dei, experiência que - como afirmou Dom Rafael no dia 24 - constitui um estímulo e lhe impulsiona constantemente à santidade.

Nasceu no dia 18 de fevereiro de 1933, na cidade do México, mas, como ele mesmo disse nas suas palavras de agradecimento: “Deus trocou a minha nacionalidade não apenas no papel do passaporte, mas também, e, principalmente, nas fibras do meu coração: terminei amando o Brasil mais que o país que me viu nascer...”

Dom Rafael Llano Cifuentes quis compartilhar com os leitores de ZENIT o texto completo das suas palavras de agradecimento do dia 24 de Fevereiro. A seguir publicamos as suas palavras na íntegra:

***

O principal sentimento que predomina neste meu octogésimo aniversário natalício é de um profundo agradecimento a Deus.

A vocação com que o Senhor me beneficiou ultrapassa com muito os meus desejos e as minhas possibilidades. A entrega total me assustava. Queria ser um profissional competente, casar e ter família.

O Senhor tinha outros desígnios, mais elevados ....

Contudo, a partir do momento em que decidi seguí-Lo sem reserva e sem condições, veio uma luz e uma força tão grande e profunda que compreendi que não eram minhas. Tenho que agradecer ao Senhor com toda a minha alma que nunca tive uma sombra de dúvida a respeito da minha vocação. Gratias tibi Deus, gratias tibi! Muito obrigado, Senhor!

Este agradecimento que faço agora envolve muitos outros que começam por meus pais – Antonio e Estela –:  Eles me souberam dar uma educação cristã forte, e profunda. Considero a minha mãe uma mulher santa. Ela, com coragem cristã, firmeza e espírito de sacrifício gerou e educou nove filhos.

Meus irmãos, na sua maioria, seguiram a mesma vocação do Opus Dei, como membros leigos. Neles encontrei um exemplo contínuo de virtudes humanas e cristãs. Para eles também se volta a minha gratidão.

A minha vivência ao lado de São Josemaría Escrivá representou, contudo, o fator preponderante da minha vocação. Os três anos que trabalhei estreitamente junto dele pautaram o ritmo dos meus passos ao lado de Nosso Senhor. De São Josemaría recebi o convite para o sacerdócio e nele encontrei o modelo do meu comportamento.

Muitos irmãos no Episcopado já me alertaram sobre a responsabilidade que tenho de ter convivido e de ter sido o secretário do Fundador do Opus Dei, um santo canonizado, que é agora - de forma mais visível - exemplo para milhões de pessoas e milhares de sacerdotes dos cinco continentes. Esta responsabilidade representa para mim um estímulo que me impulsiona e me anima na minha luta pela santidade.

Espero que, ao lado da Trindade do Céu e da Trindade da terra, a que tanto amava, São Josemaría acolha benignamente este agradecimento que faço agora, por tantos benefícios recebidos através dele e que dificilmente os poderei retribuir à altura que ele merece.

Ao lado destes agradecimentos teria que acrescentar outros muitos.  Colocaria em relevo o carinho fraterno de tantos e tantos membros da Prelazia do Opus Dei, com quem convivi e que encontram no Bispo Prelado do Opus Dei, D. Javier Echevarría, a sua mais alta significação e os outros meus irmãos que vi crescer ao meu lado neste querido Brasil, que se tornou a minha Pátria.

Além de todos os meus irmãos no episcopado que estão aqui presentes, bem como os sacerdotes com os quais trabalhei durante quatorze anos como Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, agradeço, especialmente, àqueles queridos Padres e Diáconos da Diocese de Nova Friburgo que tanto me ajudaram, sem os quais teria sido impossível realizar tudo o que foi feito. Obrigado pela vossa amizade e pelo vosso carinho.

Não posso deixar de recordar as pessoas que trabalharam todos os dias ao meu lado, assessores, funcionários e motoristas e, singularmente, no meu gabinete, a Elizabeth e o Jonas. Agradeço de modo especial às Irmãs contemplativas a fidelidade das suas orações e às Irmãs da Toca de Assis o carinho com que acompanham o meu trabalho na adoração diária ao Santíssimo Sacramento.

Gratidão sem medida às Irmãs do Bom Conselho que cuidaram, com extremo esmero, da residência episcopal e do seminário diocesano. Este seminário de Nova Friburgo, que não poderia ter sido construído sem uma especial ajuda de Deus e sem a colaboração de todas as paróquias, constitui a alegria do Bispo. Ali se formaram os 12 Padres que tive a alegria de ordenar e ali moram os seminaristas para os quais continuamente voltam o meu coração e as minhas orações.

Na presente circunstância, não posso deixar de lembrar a pessoa do Santo Padre Bento XVI. Para ele vão os meus mais profundos sentimentos de gratidão e para ele também as preces pela sua saúde e o seu descanso.

Tenho a necessidade de acrescentar que a vocação de entrega a Deus – algo que me parecia na minha mocidade um grande sacrifício – foi o que se tornou a chave mestra da minha vida, e o que deu o mais alto significado à minha existência.

Posso dizer, com toda convicção, que, depois de 51 anos na “Terra de Santa Cruz”, Deus me deu muito mais do que deixei: o cento por um em amores, sentimentos e afeições; em família, irmãos e irmãs; em alegrias pastorais, em frutos apostólicos e, de modo especial, em um grande carinho por este abençoado país: Deus trocou a minha nacionalidade não apenas no papel do passaporte, mas também, e, principalmente, nas fibras do meu coração: terminei amando o Brasil mais que o país que me viu nascer... . E a Diocese de Nova Friburgo, com os seus dezenove Municípios, tornou-se, como Igreja amada, a paixão da minha vida.  Nela sempre continuarei a viver e por ela quero também morrer.

O Senhor deu-me como graça inigualável uma felicíssima fidelidade.

A fidelidade que para alguns pode ser como uma carga pesada é, em realidade, o segredo da nossa felicidade. Lembrava-o o bem aventurado João Paulo II no seu memorável e irrepetível Encontro com as famílias no Rio de Janeiro, em outubro de 1997, no Aterro do Flamengo, quando nos dizia: “Deus vos chama à santidade! Ele mesmo escolheu-nos por Jesus Cristo antes da criação do mundo – nos diz São Paulo – para que sejamos santos na sua presença (Ef. 1, 4). Ele vos ama loucamente, Ele deseja a vossa felicidade mas quer que saibais conjugar semprea fidelidade com a felicidade, pois não pode haver uma sem a outra”, Fidelidade e felicidade, são duas palavras muito parecidas, que se confundem tanto na maneira de serem vocalizadas como na realidade da vida”.

E este binômio inseparável – tenho que reconhecê-lo com imenso agradecimento a Deus – é o que formou a trama e a urdidura da minha vida.(...)

A vocação sacerdotal edifica-se sobre os diferentes estratos arqueológicos das dificuldades superadas, das decepções naturais da vida, das quedas, dos começos e dos recomeços .... Deste modo se constrói – dia a dia, tijolo a tijolo, com um sacrifício unido a outro, com uma renúncia vivida ao lado de outra – uma fidelidadeque não é carga, mas, sim, caminho seguro para a verdadeira felicidade. (...)

Digo-o não como algo de que me glorie, mas como algo que me leva a clamar: obrigado, Senhor, muito obrigado! Não sabia que me irias a dar tanto, quanto tão pouco te entreguei. (...)  Proclamo-o também para que os nossos queridos seminaristas e os padres que estão começando a sua caminhada compreendam que vale a pena, que nada mais no mundo vale tanto a pena do que esta entrega que nos deverá tornar alter Christus, outros Cristos.

Ao lado destes agradecimentos, que deveria estendê-los mais ainda e que os encurto para não ser enfadonho, deveria referir-me aos sentimentos que experimento ao passar essa linha de sombra que representam os oitenta anos.

A proximidade do término torna mais perceptível o passageiro e o efêmero da vida. Os acontecimentos parecem perder o peso e a importância.

Na trajetória da vida, no outono da existência, quando não se abandona o centro interior da personalidade, vai-se fazendo cada vez mais forte a consciência do eterno, ou para dizê-lo mais claramente, a necessidade de Deus. As coisas e os acontecimentos da vida imediata perdem o seu caráter peremptório. O que parecia ser da maior importância deixa de sê-lo e o que se considerava insignificante cobra seriedade e luminosidade. A distribuição dos pesos e valores que se designaram a umas coisas e a outras modifica-se.

Esta consciência não leva a uma visão relativista, mas a fazer nascer a convicção de que para atingir a maturidade e superar um certo ranço de ceticismo é  preciso renovar-se. A língua portuguesa é a única que identifica a palavra jovem com a palavra novo. Os mais novos são os mais jovens. É muito expressiva essa forma lingüística, porque verdadeiramente renovar-se é rejuvenescer.

Renovar a vida é não cair na rotina, nessa espécie de decepção decrépita de quem pensa que pouco de novo, de diferente, resta-lhe por viver, que a curva do tempo vai declinando e em vez de crescer está decrescendo... Sintomas estes do que se veio a chamar a crise da meia idade..., dos 40 ou dos 50 anos. Uma crise que não deveria acontecer a nenhum de nós se realmente, em cada etapa do nosso percurso, soubéssemos renovar-nos. É nesse sentido que os franceses dizem “renovar-se ou morrer”.

A velhice não é o estado das pessoas que perdem a juventude. É preciso superar esse perigoso infantilismo que leva a pensar que essa época da vida, que se chama juventude, é a única que tem valor para o homem. Às vezes reduzem a velhice aos seus aspectos negativos: as limitações, a perda da elasticidade, do ímpeto de certas faculdades... O velho, segundo essa ótica é um jovem diminuído.

É importante considerar nessa fase da vida o valor da experiência recolhida ao longo do percurso e a maturidade que se confunde com a sabedoria.

Em realidade a ancianidade tem qualidades que o jovem não possui, especialmente essa suprema qualidade que denominamos sabedoria. A sabedoria é algo muito diferente da perspicácia, da sagacidade, da argúcia, da esperteza. Representa melhor a capacidade de distinguir entre o importante e o banal, entre o genuíno e o inautêntico, entre o transitório e o eterno, entre a caducidade da vida e a incomensurável felicidade da posse de Deus.

Aqui reside o primordial patamar da sabedoria: a vivência profunda de que tudo passa, leva-nos à necessidade vital do que não passa, do eterno.

A sabedoria, própria do homem maduro, faz brotar uma forma nova e excelente de estabilidade serena, própria de um homem superior, capaz de inspirar confiança às pessoas de todas as condições e classes. Ao lado dele parece que se sente o desejo de exclamar: que bom tê-lo conhecido, que abençoada oportunidade de poder viver ao seu lado! Confesso que é isso o que senti quando tantas vezes conversei com o bem aventurado João Paulo II, com o seu sucessor Bento XVI, e, em inúmeras oportunidades, com o meu querido pai espiritual São Josemaría. Dele deixo aqui, sua última confidência, amável e otimista, cheia dessa suave maturidade que dá a experiência da vida e um elevado amor de Deus, feita por ele no seu Jubileu de ouro Sacerdotal: “Passados cinquenta anos, sinto-me como uma criança que balbucia: estou começando, recomeçando, como na minha luta interior de cada jornada. E assim até o fim dos dias que me restem: sempre recomeçando. O Senhor assim o quer, para que em nenhum de nós haja motivos de soberba nem de néscia vaidade.”1

Quantas lutas, quantas tentativas frustradas, quantos renovados esforços, integram a vida dos amigos de Deus! Uma das coisas que veremos no céu será precisamente que a vida dos santos não se poderá representar por uma linha reta sempre em elevação, uniformemente acelerada, mas por uma curva sinuosa, ascendente e descendente, feita de urgências animosas e lentidões, subidas e descidas... e recomeços vigorosos.

Conhecer a sabedoria de um ancião é uma benção de Deus. Nele se remansa uma longa vida: amou e foi amado, sofreu, mas não perdeu a alegria de viver. E tudo isso ficou estampado no seu rosto sereno, na sua voz mansa e, talvez melhor, no seu eloqüente silêncio, e mais ainda na sua vida de oração: Romano Guardini sublinha neste sentido que “o núcleo da vida de um ancião não pode ser outro que o da oração2.

Quando o curso da nossa vida segue o leito da vontade de Deus, tudo o que se vive se eterniza, embora o que se faça pareça banal: o Senhor nunca esquecerá as renúncias que fizemos para ser fiéis à nossa vocação; nunca esquecerá os pequenos sacrifícios, as alegrias e trabalhos vividos por seu amor; jamais ficará apagada a ajuda que prestamos aos outros, ainda que tenha sido tão pequena como aquela evangélica que se reduz a dar por amor um copo de água... (cfr. Mt 10,42). São palavras, obras e gestos esculpidos no livro da vida com caracteres de ouro que o tempo não desvanece.

A sabedoria da ancianidade, que peço ao Senhor que me conceda,não está povoada de melancólicas saudades, mas permeada dessa “síndrome” do verdadeiro atleta que se esforça mais e mais quando está chegando a meta. Hillary, no discurso que fez no parlamento britânico depois da sua primeira tentativa frustrada de alcançar o cume do Everest, olhando para a fotografia do seu cimo, lançou um desafio: “Eu te vencerei. Tu cresceste tudo o que poderias crescer e eu ainda estou crescendo”.

Ainda estou crescendo. Essa sabedoria não se deixa dominar pela tentação das recordações, mais continua voltada para o futuro que a espera.

Existe ainda muito por fazer, ainda há muito por construir, por melhorar, muitas virtudes por obter, muitos empreendimentos por realizar, muitas pessoas a quem tornar felizes, existem ainda muitas almas por salvar... E ainda temos toda a eternidade de Deus, que nos espera ao lado dos seres queridos! Ponderando assim as coisas, como é possível envelhecer?!

Já pensamos alguma vez na sonoridade fonética e psicológica que tem a palavra ainda? Ainda é uma das palavras mais bonitas do nosso léxico português. Ainda é o advérbio da esperança e da juventude.

A vida de um homem que vive neste clima jamais pára de crescer até o derradeiro instante. Cada hora, cada dia, cada ano, cada sofrimento, cada alegria têm um sentido de esperança: passam por ele não para desgastá-lo, mas para construí-lo definitivamente. A grande força do sentido da vida renovada, da esperança cristã sempre presente, da juventude perene, reside na consciência profunda e jubilosa de que a vida terrena é um prelúdio da vida eterna. Para quem se lança para frente e corre no sentido da sua felicidade eterna, há sempre no horizonte um mais e mais. E, no fim dos seus dias terrenos, esse homem poderá dizer, como o velho Simeão, ao ter por fim nos braços o Salvador por quem ansiou a vida inteira: “Agora, Senhor, já podes deixar partir em paz o teu servo” (Lc 2, 9)... São palavras que abrem serenamente as portas da felicidade eterna.

Se a esperança é o módulo para medir a juventude, se ser jovem é ter muito futuro, um homem, no crepúsculo da sua vida -  talvez já beirando os noventa anos – pode sentir-se como uma criança que tem pela frente um futuro inacabável, um futuro eterno... É belo que a Igreja denomine o dia da morte dies natalis, o “dia do nascimento”...

Queridos irmãs e irmãos, no fim desta celebração de ação de graças, devo pedir que haja uma nova floração de vocações sacerdotais e religiosas, um maior comprometimento dos leigos na construção de uma sociedade mais justa e mais cristã, ao mesmo tempo que devo repetir incansavelmente: vale a pena, vale a pena! Obrigado, Senhor, muito obrigado!  E é também por esta razão que posso clamar em altos brados: Nossa Senhora de Guadalupe, minha querida Mãe, muito obrigado, muito obrigado por tudo!

Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 2013.

Dom Rafael Llano Cifuentes

Bispo Emérito da Diocese de Nova Friburgo

1Cit. por Salvador Bernal, Perfil do Fundador do Opus Dei, Quadrante, São Paulo, 1978, pág. 416.

2Romano Guardini, Las etapas de la vita, Ed. Palabra, 3ª Edição. Madri 2000, pág. 116.