A Penitenciaria Apostólica e a Confissão através dos séculos

Declarações de Monsenhor Pagano, do Arquivo Secreto Vaticano

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Pelo Ir. Sergio Mora

ROMA, segunda-feira, 7 de maio de 2012 (ZENIT.org) - No Grande Salão do Palácio da Chancelaria, a poucos passos do Campo dei Fiori, em Roma, Itália, foram apresentados dois livros sobre a história da Penitenciaria Apostólica, os primeiros de uma futura coleção que permitirá, a estudiosos e pesquisadores, aprofundar não só os acontecimentos históricos, mas também as questões relacionadas com o sacramento da confissão através dos séculos.

Os dois livros são: La Penitenzieria Apostolica e il suo Archivio (A Penitenciaria Apostólica e seu Arquivo), de Alessandro Saraco, e La Penitenza tra I e II millennio. Per una comprensione delle origini della Penitenzieria Apostolica (A Penitência entre o I e o II milênio. Para compreender as origens da Penitência Apostólica), de Manlio Sodi e Renata Salvarani (Livraria Editora Vaticana - LEV).

A apresentação teve diversas exposições, começando pelo cardeal Manuel Monteiro de Castro, Penitenciário-Mor e do diretor da LEV, Dom Giuseppe Costa. O livro foi apresentado pelo professor Paolo Prodi, da Universidade de Bolonha; e de monsenhor Sergio Pagano, prefeito do Arquivo Secreto do Vaticano. As conclusões foram do professor Manlio Sodi, da Universidade Pontifícia Salesiana e do Monsenhor Gianfranco Girotti, OFM, regente da Penitenciaria Apostólica. Evento presidido pelo vice-diretor do L'Osservatore Romano, Carlo Di Cicco.

"A leitura desses ensaios corrige por um lado algumas visões muito vagas que haviam sobre a penitência. Por outro lado, é inovadora, como no exemplo que eu fiz sobre a concepção de Gregório VII” disse Monsenhor Pagano à ZENIT, acrescentando que" os livros sobre a penitência na Idade Média, como as obras de Bocelli etc, são muitos e muito bem feitos também. Portanto, mais do que preencher uma lacuna sobre a história do sacramento, esses livros dão uma visão diferente, que é ótica da penitenciaria, que visa o sacramento e a sua teologia, a sua praxis, e não tanto o aspecto cultural, eclesial ou pastoral".

"A Penitenciaria Apostólica é um tribunal da Cúria Romana, muito antigo, instituído para casos reservados ao pontífice e instituído também para ajudar na conversão do povo e especialmente na absolvição de pecados gravíssimos dado que os bispos podiam julgar também limitadamente, indicou monsenhor Pagano. Enquanto "Roma, ao contrário, tinha o poder de investigar mais e de ser até mesmo mais branda para o perdão do que eram os confessores locais".

No final da discussão o debate voltou sobre o tema da confissão. Isso, disse o prefeito do Arquivo Secreto do Vaticano, deve-se ao fato de que "sendo nós, sacerdotes ou bispos, temos esse grave problema ao ver que muitos fiéis se aproximam da comunhão sem a confissão. Hoje este sentido do pecado e das faltas diminuiu e isso é um grave problema pastoral”.

Como resolver isso? "Talvez seja necessário voltar à catequese de base: do credo até os sacramentos da Igreja, o motivo pel qual foram instituídos, e ensinar a as vantagens de recebê-los.

Para que assim nossos fiéis não vejam muitas vezes grandes símbolos incompreensíveis”. Além disso, continuou, "faltam confessores, alguns são muito severos, outros muito suaves, outros querem realizar uma tarefa de inquisidores, psicólogos, ou diretores, que não é a tarefa do confessor".

Na apresentação, monsenhor Pagano lembrou as dificuldades de um tema que através da história "não é uma questão linear" e como a penitenciaria eclesiástica normalizada era desconhecida na Igreja primitiva. “A Igreja antiga convidava – como Jesus – à conversão única e decisiva e dava a quem se arrependia o perdão dos pecados num ato único e irrepetível: o batismo.

Jesus de fato tinha ensinado aos seus discípulos que tinham recebido o perdão de Deus, não era para si ou para negá-lo aos outros, mas para perdoar como Deus perdoa, sem limites e sem condições, a não ser o arrependimento e a conversão".

Nos primeiros séculos, continuou ele, essa mensagem se impôs, apesar de todas as dúvidas sobre a ordem penitencial da Igreja. Foi um caso longo, discutido e aceso. E também sobre quem tinha o poder penitencial. E como, por exemplo, a prática penitencial do segundo século, em uma pequena igreja marginalizada da vida pública era inadequada para o século IV.

Mons. Pagano também explicou as diversas formas da penitência pública, repetível só uma vez e daquela secreta, semi-pública instituída por Leão Magno. Das penas que recebia quem se submetia à penitência eclesiástica pública, perdendo muitos dos seus direitos. Mas também como o Concílio de Agda no 506 desencorajava a admissão dos jovens à penitência pela fragilidade da sua idade. Até o nascimento da penitência privada que se originou no século VII e foi rapidamente acolhida e enraizada. Neste ponto histórico, disse, “entram os ensaios do nosso livro, finalizados a seguir, para ilustrar e compreender o nascimento da penitência privada ou da tarifa durante a época longobarda, carolíngea, otomana e imperial até o século XII, época do célebre renascimento da filosofia e da teologia.”