A peregrina

Reflexões espirituais de Dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo de Belém do Pará

| 1021 visitas

BELÉM DO PARÁ, segunda-feira, 8 de outubro de 2012 (ZENIT.org) - “Guarda os peregrinos nesta caminhada, dá-lhes companhia, pois também um dia foste peregrina de Belém”, canta o povo brasileiro. Para nós, a Virgem Maria continua a “Peregrina” de sempre, cujo ícone, sua imagem acolhida por todos os que não resistem ao Círio de Nazaré, percorreu todos os recantos da Arquidiocese de Belém. Foram muitas as peregrinações daquela que chamamos “Santinha”, preparadas com carinho e emoção. Com toda certeza, o Céu se envolveu na verdadeira missão que se espalhou, visitando as Paróquias, Residências, Hospitais, Repartições públicas, Escolas, Universidades, Clubes, Organismos da sociedade civil e Prisões. Nos quinze encontros das peregrinações em grupos de famílias, foram mais de cento e dez mil famílias visitadas! Ninguém é propositalmente excluído e o tempo se multiplica, as pessoas se organizam de modo admirável e tudo dá certo! No Círio, milagrosamente tudo dá certo!

Durante o ano, muitos outros lugares solicitam a visita da Imagem peregrina, unindo-se à devoção que a generosidade de Deus plantou em nossa terra. Ser de Belém e ser do Pará já significa ser propagador da devoção a Nossa Senhora de Nazaré. Não é possível separar o que Deus uniu! Chegaremos juntos, seremos missionários de Nossa Senhora, Estrela da Evangelização, e assim, Belém e o Pará contribuirão no grande esforço para que a Boa Nova chegue a todos. E agora, chegou mais uma vez o coração do Círio de Nazaré, para a glória de Deus, a honra devida à Virgem de Nazaré, a edificação da Igreja, e o Reino de Deus se espalhe. Sejam bem vindos todos os que se fazem peregrinos, romeiros de Nazaré, recebendo conosco a graça da festa que vivemos!

O Círio de 2012 é a primeira atividade da Arquidiocese de Belém no “Ano da Fé”, convocado pelo Papa Bento XVI e aberto no dia 11 de outubro, “com o objetivo de ilustrar a todos os fiéis a força e a beleza da fé” (Porta Fidei 1), para se estender até a Solenidade de Cristo Rei do próximo ano. O tema escolhido para este Círio expressa a grande peregrinação de nossa vida, em busca da vida plena que nos trouxe nosso Salvador, Jesus Cristo. Nossa aventura humana na terra é uma grande romaria, que se dirige “ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo, com Maria e do jeito de Maria”.

Tudo de bom que acontece chega ao Pai por Cristo, com Cristo, em Cristo, na unidade do Espírito Santo. As orações eucarísticas se concluem com a “doxologia”, proclamação da glória de Deus! Tudo expressa o louvor, a glória, a honra, a bênção, a adoração. Nossa vida cristã é acolher a vida que vem de Deus e caminhar para a Trindade, a comunhão plena com Deus, por Cristo, com Cristo, em Cristo. De fato, Ele é a porta das ovelhas (Cf. Jo 10, 9)!

“O Evangelho conta que uma estrela guiou os Magos até Jerusalém e depois até Belém. As profecias antigas comparam o futuro Messias com um astro celeste. Foi também atribuído a Maria este emblema: se Cristo é a estrela que conduz a Deus, Maria é a estrela que leva até Jesus” (João Paulo II, 6 de janeiro de 2003). Nós a saudamos como discípula fiel, filha de Deus Pai, esposa do Espírito Santo, mãe de Deus Filho.

Só na resposta ao amor de Deus nascerá uma prática adequada da sua lei. Maria deu sua resposta a Deus, disse seu sim ao próximo e percorreu o caminho da fidelidade à lei. Ela viveu a fé da Igreja, de modo excelente e humilde, numa plenitude de graça que é insuperável. Quando dizemos em todas as missas “não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima a vossa Igreja”, esta oração não seria tão real se não tivesse existido alguém – Maria –que viveu assim, em plenitude, a fé (cf. Giacomo Tandardini em “Trinta Dias”, n. 7.8 de 2011).

O Concílio Vaticano II, cujo cinquentenário de abertura se celebra na abertura do ano da Fé, oferece a justa compreensão das celebrações marianas e nazarenas que agora fazemos: “Ao passo que, na Santíssima Virgem, a Igreja alcançou já aquela perfeição sem mancha nem ruga que lhe é própria (Cf. Ef 5,27), os fiéis ainda têm de trabalhar por vencer o pecado e crescer na santidade; e por isso levantam os olhos para Maria, que brilha como modelo de virtudes sobre toda a família dos eleitos. A Igreja, meditando piedosamente na Virgem, e contemplando-a à luz do Verbo feito homem, penetra mais profundamente, cheia de respeito, no insondável mistério da Encarnação, e mais e mais se conforma com o seu Esposo. Pois Maria, que entrou intimamente na história da salvação, e, por assim dizer, reúne em si e reflete os imperativos mais altos da nossa fé, ao ser exaltada e venerada, atrai os fiéis ao Filho, ao seu sacrifício e ao amor do Pai. Por sua parte, a Igreja, procurando a glória de Cristo, torna-se mais semelhante àquela que é seu tipo e sublime figura, progredindo continuamente na fé, na esperança e na caridade, e buscando e fazendo em tudo a vontade divina. Daqui vem igualmente que, na sua ação apostólica, a Igreja olha com razão para aquela que gerou a Cristo, o qual foi concebido por ação do Espírito Santo e nasceu da Virgem precisamente para nascer e crescer também no coração dos fiéis, por meio da Igreja. E, na sua vida, deu a Virgem exemplo daquele afeto maternal de que devem estar animados todos que cooperam na missão apostólica que a Igreja tem de regenerar os homens” (LG 65).

O Círio de Nazaré no Ano da Fé quer glorificar a Trindade Santíssima, com a Virgem Maria e do jeito de Maria. Com Maria, Virgem da Escuta e Modelo de virtude, queremos viver os mandamentos da Lei de Deus. “Ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo, com Maria e do jeito de Maria”. 

Dom Alberto Taveira Corrêa

Arcebispo Metropolitano de Belém