A pesquisa com células-tronco deve ser divulgada ao grande público

Entrevista com John Gurdon, Prêmio Nobel de Medicina

Roma, (Zenit.org) Ann Schneible | 879 visitas

As pesquisas com células-tronco adultas e os progressos nas terapias que as utilizam devem ser divulgados para se promover a justa compreensão desta complexa ciência, afirma John Gurdon, Prêmio Nobel de Medicina, um dos palestrantes da Segunda Conferência Internacional sobre Células-Tronco Adultas, realizada na Sala Paulo VI do Vaticano.

A conferência tem o objetivo de divulgar os progressos no tocante à pesquisa e às terapias com células-tronco adultas mediante um fórum em que os líderes nesta área compartilham ideias e perspectivas.

Os organizadores da conferência reuniram peritos de vários âmbitos, católicos e não-católicos, cientistas, médicos, especialistas em bioética, políticos e jornalistas. Como o objetivo principal da conferência é examinar o panorama total da pesquisa com células-tronco adultas, os participantes, entre eles o dr. Gurdon, representam os mais diversos pontos de vista religiosos, éticos e morais, inclusive os que discordam da doutrina da Igreja católica.

Biólogo de Cambridge, Inglaterra, Gurdon recebeu em 2012 o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina por ter descoberto como as células adultas podem ser transformadas em células-tronco semelhantes às embrionárias. Esta descoberta é crucial para a pesquisa sobre as células-tronco adultas e para a exploração dos seus benefícios terapêuticos.

O ganhador do Prêmio Nobel conversou com ZENIT sobre a importância de divulgar essas pesquisas para o público em geral.

Quais foram suas impressões sobre este encontro?
Gurdon: A lição mais interessante para mim foi sobre a utilidade clínica das nossas pesquisas. No meu trabalho, não há ligações com o âmbito clínico, embora eu esteja bem ciente do ponto que foi atingido por muitos cientistas no esforço de fazer o trabalho gerar benefícios para o paciente.

Por que é tão significativo que uma conferência sobre este assunto tenha sido promovido pelo Vaticano?
Gurdon: Pessoalmente, eu sou o que vocês chamariam de liberal. Eu não sou católico, sou cristão da Igreja anglicana. Discordo de alguns dos ensinamentos da Igreja católica. Mas precisamente por este motivo é que é de grande interesse para mim encontrar pessoas que me dizem por que elas observam certos princípios. Além disso, eu nunca tinha estado no Vaticano. É uma experiência nova e eu estou grato por essa oportunidade.

O que você gostaria que o público em geral soubesse sobre esta conferência?
Gurdon: Eu acho que as pessoas vão se interessar pelos debates éticos e religiosos que aconteceram. Mas estas questões vão além do meu papel, eu não estou envolvido nisto. O que eu espero é que, como eu, elas se interessem por saber em que ponto nós estamos hoje no nível terapêutico.

Por que é importante divulgar uma disciplina científica tão complexa para as pessoas menos instruídas cientificamente?
Gurdon: Para quem não é cientista, eu acho que é importante entender que tipo de trabalho é feito nesta área. O público pode apoiar esse tipo de trabalho, e é isto, com certeza, o que nós queremos. Eu espero que cada vez mais pessoas se interessem por questões científicas em vez de perder tempo acompanhando celebridades da televisão. E eu tenho que dizer que muitas das pessoas que eu vou conhecendo são realmente interessadas. Aumentar o nível de interesse público eu acho que é realmente uma coisa boa. Quanto mais as pessoas estiverem cientes do tipo de discussão que acontece, melhor, porque as ideias negativas que algumas pessoas têm se devem inteiramente, acredito eu, a mal-entendidos. Elas simplesmente não sabem o suficiente sobre o que nós fazemos nesta área. Se alguém explicar para as pessoas o que nós fazemos e o que vai ser feito no futuro, elas vão ficar entusiasmadas, eu espero. E, no fim, isso vai ter efeitos positivos também no tocante ao apoio governamental, que é necessário para este trabalho.